Passada a euforia do resultado eleitoral, fica uma sensação difícil de explicar: vencemos, mas não conseguimos respirar aliviadas. A derrota de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial representa uma vitória importante para a democracia brasileira, mas está longe de significar a derrota do bolsonarismo ou das forças políticas que sustentam a extrema direita no país. Se, por um lado, conseguimos impedir que a Presidência da República continuasse sob o controle desse projeto, por outro, precisamos encarar a realidade de um Congresso Nacional ainda mais conservador, com uma expressiva representação da direita e da extrema direita.

E é justamente aí que reside parte da minha angústia. A eleição presidencial terminou, mas a disputa política está longe de terminar. O bolsonarismo não depende exclusivamente da família Bolsonaro para existir. Ele se consolidou como um fenômeno político, social e cultural, com representação institucional, influência nas redes sociais e capacidade de mobilizar ressentimentos, medos e preconceitos. A derrota nas urnas não elimina sua força; tampouco dissolve as condições históricas que permitiram sua ascensão.

O resultado legislativo evidencia essa contradição. O fortalecimento do PL e a presença expressiva de parlamentares alinhados à direita demonstram que a extrema direita continua dispondo de instrumentos concretos para interferir nas políticas públicas, bloquear avanços sociais e disputar os rumos da democracia brasileira. Não basta, portanto, comemorar a vitória presidencial. Precisamos olhar para a composição do Congresso, para os interesses que ela representa e para os projetos de sociedade que continuam encontrando respaldo em parcelas significativas da população.

Também precisamos observar a reorganização da direita para além do bolsonarismo tradicional. A trajetória do Movimento Brasil Livre (MBL), do qual Renan Santos é um dos fundadores, e a criação do partido Missão são parte desse cenário. Não se trata de considerar toda a direita homogênea, mas de investigar criticamente as ideias, os discursos e os projetos políticos que disputam espaço nesse campo. As aproximações que identifico entre determinados discursos contemporâneos e imaginários nacionalistas e autoritários exigem atenção histórica. Nos anos 1930, a Ação Integralista Brasileira mobilizou símbolos nacionais, hierarquia, disciplina e a construção de inimigos internos em um projeto de inspiração fascista. A história não se repete mecanicamente, mas nos oferece instrumentos para reconhecer permanências, apropriações e possíveis reconfigurações do autoritarismo. É justamente por isso que precisamos estar atentas ao modo como essas ideias reaparecem no presente.

Durante as três semanas do segundo turno, tentei fazer aquilo que considero parte da minha responsabilidade como professora: alertar as pessoas sobre os riscos representados por mais um governo da família Bolsonaro. Fiz isso porque levo a sério a profissão que escolhi e porque não consigo tratar como indiferentes projetos políticos que ameaçam direitos, aprofundam desigualdades e flertam com o autoritarismo.

Ensinar História também é compreender que o passado não está encerrado nos livros. É reconhecer que regimes autoritários não se estabelecem apenas pela força, mas também pela normalização de discursos de ódio, pela fabricação de inimigos, pela deslegitimação do conhecimento e pela erosão gradual dos princípios democráticos. A memória histórica não nos protege automaticamente dos mesmos erros, mas nos oferece ferramentas para identificar os perigos quando eles se apresentam.

Ainda assim, o que encontrei durante a campanha foi uma avalanche de desinformação, preconceitos, ofensas e discursos violentos, compartilhados inclusive por amigos, familiares e conhecidos. Pessoas com quem dividimos afetos e espaços de convivência reproduzindo conteúdos que desumanizam grupos sociais, relativizam a violência e tratam direitos fundamentais como ameaças à sociedade.

É profundamente perturbador perceber a facilidade com que o preconceito se transforma em opinião política e a agressividade passa a ser confundida com coragem. Mais perturbador ainda é perceber que, em determinados ambientes, ser de esquerda parece significar colocar um alvo na própria cabeça. Defender políticas sociais, combater o racismo, questionar privilégios e reivindicar justiça social tornou-se motivo de hostilidade.

Em uma sociedade atravessada pela racionalidade neoliberal, o individualismo é apresentado como virtude, a competição como regra natural da vida e o sucesso econômico como medida de mérito. Problemas coletivos são convertidos em fracassos individuais, enquanto a desigualdade é frequentemente justificada como resultado das escolhas de cada um. Nesse cenário, a solidariedade parece ingenuidade, os direitos sociais são tratados como privilégios e a defesa do coletivo passa a ser vista como uma ameaça à liberdade individual.

É nesse terreno que a extrema direita encontra parte de sua força. Oferece respostas simplistas para problemas complexos, transforma grupos vulnerabilizados em bodes expiatórios e direciona o ressentimento social contra aqueles que já enfrentam as consequências de uma sociedade profundamente desigual. Em vez de questionar as estruturas que produzem a precarização da vida, aponta inimigos convenientes. Em vez de estimular a compreensão crítica da realidade, alimenta teorias conspiratórias e certezas impermeáveis aos fatos.

As redes sociais intensificam esse processo. A desinformação circula em uma velocidade assustadora, o conflito gera engajamento e a indignação é convertida em mercadoria. Já não se trata apenas de pessoas discordando sobre os rumos do país. Trata-se de um ambiente no qual a mentira pode ser politicamente rentável, a violência verbal se torna instrumento de mobilização e o debate público é progressivamente substituído pela necessidade de destruir o adversário.

E eu estou cansada. Mentalmente exausta.

Exausta de tentar argumentar com quem não demonstra disposição para escutar. De apresentar dados, contextualizar acontecimentos históricos e desmontar falsidades para, pouco depois, encontrar as mesmas mentiras circulando novamente. Exausta de perceber que, muitas vezes, o problema não é a falta de informação, mas a recusa em aceitar qualquer realidade que contrarie convicções previamente estabelecidas.

Estou cansada das redes sociais, do convívio atravessado por hostilidade e da sensação de que cada conversa pode se transformar em uma disputa interminável. Cansada de precisar justificar o valor da democracia, a importância da ciência, a dignidade de determinados grupos sociais e a própria legitimidade de defender um projeto político comprometido com a redução das desigualdades.

Por muito tempo, insisti. Expliquei, argumentei, compartilhei informações e tentei estabelecer diálogos. Fiz isso porque considero importante disputar ideias e porque me recuso a tratar a desinformação como algo inofensivo. Mas chega um momento em que a insistência começa a cobrar um preço alto demais. A sensação é a de estar dando murros em ponta de faca: gastar energia, comprometer a saúde mental e terminar o dia com a impressão de que nada foi suficiente.

A vitória presidencial nos oferece algum alívio, mas não autoriza ilusões. O Congresso continua sendo um espaço decisivo de disputa, a extrema direita permanece organizada e as desigualdades que alimentam o ressentimento social continuam presentes. A democracia brasileira segue diante de desafios que nenhuma eleição, por si só, seria capaz de resolver.

Por isso, não quero terminar esta reflexão com uma mensagem artificial de esperança. Neste momento, o que sinto é tristeza, indignação e um cansaço que não desaparece simplesmente porque o resultado das urnas foi favorável ao candidato em quem votei, Lula. Estou feliz por termos impedido mais um governo Bolsonaro, mas estou profundamente preocupada com o país que emerge dessas eleições.

Compreendo que a ressaca é justamente perceber que vencemos uma batalha importante sem que as condições que tornam essa batalha necessária tenham desaparecido.

Por ora, preciso respirar. Preciso me afastar um pouco do ruído, recuperar minhas forças e aceitar que não posso enfrentar todas as disputas, em todos os espaços, o tempo inteiro. Continuarei acreditando na educação, no conhecimento histórico e na construção de uma sociedade menos desigual. Mas não quero mais confundir compromisso político com disponibilidade emocional ilimitada.

A democracia precisa de pessoas dispostas a defendê-la, mas não pode depender da exaustão permanente de quem ainda acredita nela. Hoje, estou cansada demais para oferecer grandes palavras de esperança. O que tenho é a consciência de que a luta continua, mas também de que preciso preservar alguma coisa de mim para continuar vivendo além dela.

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