Na casa pequena, o sol se derrama,
Pelas frestas dança sem pedir licença.
Um cheiro de pão, café e quem ama
Preenche o tempo com leve presença.

O riso da filha ecoa na sala,
Enquanto a mãe penteia o amanhã,
E o pai, com calma que nunca se exala,
Guarda o silêncio como quem tece lã.

Papéis no chão, lápis de colorir,
A filha desenha tudo o que vê,
Um sol, um gato, um céu a expandir,
Na ponta leve do lápis e do porquê.

E quando a noite pousa devagar,
Três corpos se encostam, puro calor.
Ali mora o encanto de habitar
O mesmo instante, no mesmo amor.


 

Minh’alma é pálida... é triste... é solitária...
Como um cipreste ao vento do cemitério.
Carrega o frio de uma névoa funerária
E o sonho morto de um amor etéreo.

A vida? Um livro em páginas rasgadas,
Um riso falso entre soluços vãos...
E minhas noites, longas, desmaiadas,
São como preces lançadas aos grãos.

Oh! quantas vezes, no silêncio amigo,
Senti-me a sombra do que fui outrora...
Um vulto errante, sem abrigo,
Como quem vive e lentamente chora...

Talvez, um dia, ao fim desta agonia,
Encontre paz, no túmulo, talvez.
Pois só na morte o coração alivia
A dor que a vida não matou de vez.

 

Amar é luz que brota sem medida,
É vento manso em tarde de calor,
É ter no peito a dança mais sentida,
É flor que nasce mesmo em dissabor.

É gesto simples, puro, sem vaidade,
É mão que toca sem querer possuir,
É se doar com leve intensidade,
É construir sem medo de cair.

Amar é ver no outro o próprio espelho,
E mesmo assim, querer multiplicar,
É ser abrigo, paz e ser conselho,
É caminhar sem nunca se afastar.

E quando o amor floresce em silêncio,
Sem grito ou pressa pra se revelar,
É como céu que azul se faz imenso:
É vida em paz, é dom de se entregar.


Na infância, o grito era chama acesa,
"Formiga contra elefante",
Destemida, fui pimentinha em brasa,
Desafiando a vida, mesmo na ameaça.

Na adolescência, o sono virou espera,
Três horas por noite, a mente sincera.
Livros, poesias, vozes em segredo,
Rabiscavam minha dor e meu medo.

As cicatrizes, marcas do que calei,
Em silêncio, nos cortes me expliquei.
Na pele, desenhei o que ninguém via,
Buscando alívio na dor que ardia.

Psiquiatras, diagnósticos e medos,
Entre surtos e remédios, meus enredos.
Tentei voar, mesmo sem ter chão,
Mas a queda me trouxe mais compreensão.

Fui "maluca beleza", como Raul cantou,
E em meio à loucura, a coragem brotou.
Entre delírios e noites em claro,
Minha alma pedia um rumo mais claro.

A gravidez foi luz, mas também tormenta,
Chorava baixinho, com alma sedenta.
Nicolle, meu sol, meu recomeçar,
A razão que me fez continuar.

Hoje entendo quem sou, meu papel,
intensa, céu, inferno e fel.
O TAB não me define, é só parte de mim,
Sou poema inacabado, flor no capim.

Não sou laudo, nem rótulo, nem sentença,
Sou mulher, sou mãe, sou resistência.
Na gangorra da mente, sigo a bailar,
Mas agora com sabedoria pra me equilibrar.

No trono que ela mesma ergueu,
Reflete o brilho que só ela vê,
Seus passos medem a própria narrativa,
No palco onde a luz imaginária só nela é.

Sussurra ao mundo verdades de espelho,
Escuta apenas o som do seu tom,
Quem tenta entrar, é visto como erro,
Pois reina só, onde amor não tem dom.

Cultiva espinhos num jardim de orgulho,
Colhe aplausos no vazio interior. 
Sorri por fora, no gesto inseguro,
Mas foge da luz que revela o rancor.

Seu mundo gira em torno do seu nome,
Mas todo ego, um dia, se consome,
Num silêncio frio, calado e pesado.

Soberba é muro alto e sem janela,
Imagem vã que alimenta a ilusão.
É não saber que há vida além dela,
E que o amor não cabe na solidão.

Quem vive só da própria imagem viva,
Se perde aos poucos na escuridão,
Pois orgulho que nunca se cativa,
É prisão feita de autonegação.