Depois do nome: Bipolaridade
comecei a procurar por mim nos cacos.
Quem fui? Quem sou? Quem serei de verdade?
Há dias em que me encontro. Outros, me desfaço.

É um jogo de espelhos, sem regra ou aviso:
Amanhã serei eufórica, eutimicamente calma, 
ou terei um peso escuro no peito indeciso,
que me rouba o chão e dissolve a alma?

As pílulas prometem um norte seguro, 
mas o caminho cobra um preço cruel,
Dez quilos a menos em dois meses,
corpo mais frágil, que rejeita o pão, riso e o papel. 

Estou tentando... Me conhecer, me acolher, 
entre extremos, construir permanência
Ser quem eu sou, mesmo sem saber exatamente
qual versão serei de mim ao acordar pela manhã.

Luany de Macedo Nascimento, 18 de Abril de 2025 

 


Quando tua mão repousa sobre a minha,
Sinto o universo inteiro tão pequeno,
Perdido na alvorada que se aninha.

Teu riso é melodia que embriaga,
Mais doce que o luar sobre as roseiras,
E o mundo, essa tormenta que se apaga
Se curva à paz das nossas brincadeiras.

Oh, vida! Que esplendor na flor singela
Que juntos colhemos na manhã dourada;
O pão, café, a mesa tão singela,
São tronos de um reinado em madrugada.

E se o tempo ousar passar com dor,
E o outono desfolhar nossos sorrisos,
Que ele leve o mundo e todo ardor,
Mas nunca os nossos sonhos precisos.


Na casa pequena, o sol se derrama,
Pelas frestas dança sem pedir licença.
Um cheiro de pão, café e quem ama
Preenche o tempo com leve presença.

O riso da filha ecoa na sala,
Enquanto a mãe penteia o amanhã,
E o pai, com calma que nunca se exala,
Guarda o silêncio como quem tece lã.

Papéis no chão, lápis de colorir,
A filha desenha tudo o que vê,
Um sol, um gato, um céu a expandir,
Na ponta leve do lápis e do porquê.

E quando a noite pousa devagar,
Três corpos se encostam, puro calor.
Ali mora o encanto de habitar
O mesmo instante, no mesmo amor.


 

Minh’alma é pálida... é triste... é solitária...
Como um cipreste ao vento do cemitério.
Carrega o frio de uma névoa funerária
E o sonho morto de um amor etéreo.

A vida? Um livro em páginas rasgadas,
Um riso falso entre soluços vãos...
E minhas noites, longas, desmaiadas,
São como preces lançadas aos grãos.

Oh! quantas vezes, no silêncio amigo,
Senti-me a sombra do que fui outrora...
Um vulto errante, sem abrigo,
Como quem vive e lentamente chora...

Talvez, um dia, ao fim desta agonia,
Encontre paz, no túmulo, talvez.
Pois só na morte o coração alivia
A dor que a vida não matou de vez.

 

Amar é luz que brota sem medida,
É vento manso em tarde de calor,
É ter no peito a dança mais sentida,
É flor que nasce mesmo em dissabor.

É gesto simples, puro, sem vaidade,
É mão que toca sem querer possuir,
É se doar com leve intensidade,
É construir sem medo de cair.

Amar é ver no outro o próprio espelho,
E mesmo assim, querer multiplicar,
É ser abrigo, paz e ser conselho,
É caminhar sem nunca se afastar.

E quando o amor floresce em silêncio,
Sem grito ou pressa pra se revelar,
É como céu que azul se faz imenso:
É vida em paz, é dom de se entregar.