Algumas pessoas me perguntam por que escrevo.

E eu nunca sei responder.
Não há uma explicação que caiba em frases prontas, nem um motivo que eu consiga alinhar com começo, meio e fim. Eu apenas escrevo. Como quem respira sem perceber o ar, como quem segue porque parar doeria mais.

Escrever não começou como escolha. Começou como abrigo.
Eu tinha dez anos, estava na quinta série, e carregava nos ombros um silêncio pesado demais para uma criança. Vinha de outra escola, onde aprendi cedo que o sotaque pode virar sentença, que ser nordestina, em certos lugares, é motivo de riso, de exclusão, de feridas que não sangram por fora. Eu falava pouco, me retraía muito, e guardava tudo dentro de mim como quem não sabe onde deixar a dor.

Foi então que uma professora (dessas que mudam destinos sem jamais saber) me sugeriu escrever. Um diário, ela disse. Para registrar as coisas boas e ruins do dia. E, se conseguisse, que eu também narrasse acontecimentos. Não era uma tarefa escolar comum. Era um convite silencioso para existir de outro jeito. Eu aceitei sem saber que ali começava algo maior do que eu.

Passei a escrever para não explodir.
Para organizar o caos.
Para dar nome ao que me atravessava e não encontrava voz.
No papel, eu podia falar sem ser interrompida. Podia errar sem ser julgada. Podia ser eu mesma sem pedir desculpas. Cada palavra era um passo para fora do medo, um gesto tímido de coragem.

Com o tempo, escrever deixou de ser só refúgio e virou caminho.
Nessa época, eu já lia muito, os livros sempre foram janelas abertas quando o mundo parecia estreito demais; mas escrever era novidade, descoberta, espanto. E quanto mais eu escrevia, mais algo em mim se alargava. As frases começaram a ganhar corpo, intenção, desejo. Até que um dia veio um concurso de frases para um slogan do projeto da escola de conscientização ecológica. E eu ganhei. Estavam competindo todas as séries. Da antiga 5º série ao 3º ano do Ensino Médio. Lembro do riso meio desacreditado, meio orgulhoso. Lembro até hoje da sensação acolhedora. E todo o ensino fundamental comemorando, como algo coletivo. 

De lá pra cá, só foi aumentando.
Não a certeza, mas a necessidade de escrever.
Escrever nunca foi sobre saber exatamente o que dizer, mas sobre não conseguir ficar em silêncio. É gesto de sobrevivência, de memória, de resistência. É o lugar onde a menina tímida do passado encontra a mulher de hoje que não aceita mais se encolher. Onde a dor vira linguagem e a linguagem vira ponte.
A dor, sozinha, é caos. Ela existe, pulsa, pesa... mas não comunica. Enquanto permanece apenas como sensação, ela isola, fecha, separa. É matéria bruta. Quando a dor vira linguagem, algo decisivo acontece: ela deixa de ser apenas sentida e passa a ser significada. A linguagem não elimina a dor, mas a organiza, lhe dá forma, ritmo, respiração. Ela transforma o indizível em algo que pode ser sustentado.

A linguagem é esse lugar intermediário entre o que fere e o que pode ser partilhado. É nela que a experiência deixa de ser apenas ferida e passa a ser sentido. Ao virar palavra, a dor ganha bordas e tudo que tem borda pode ser atravessado. É por isso que a linguagem vira ponte.

Porque a linguagem não fica. Ela se lança. Palavra nenhuma nasce para permanecer intacta em quem escreve. Toda linguagem verdadeira carrega em si um desejo de alcance. A ponte é essa vocação da palavra para o outro. Ela se estende sobre o vazio que separa as experiências humanas, sobre o silêncio que existe entre um corpo e outro, entre uma história e outra.

A linguagem é ponte porque conecta sem igualar.
Ela não exige que o outro tenha vivido o mesmo, apenas que reconheça algo.
Ela permite que a minha dor atravesse sem invadir, e que o outro atravesse sem se perder.

A beleza está nesse movimento contínuo:
a dor se transforma em linguagem para não me aprisionar,
e a linguagem se transforma em ponte para não me fechar em mim.

Enquanto a dor é só dor, há ruptura.
Quando vira linguagem, há elaboração.
Quando vira ponte, há encontro.

E escrever acontece exatamente nesse lugar:
onde a palavra não é fim, mas passagem.
Onde aquilo que nasceu como ferida se torna caminho.

Quando me perguntam por que escrevo, eu ainda não sei responder.
Talvez eu escreva porque um dia alguém acreditou em mim quando eu mal acreditava.
Talvez porque escrever me salvou antes mesmo de eu perceber que estava me afogando.
Ou talvez porque algumas histórias não suportam ficar presas no peito.

Eu escrevo porque foi assim que aprendi a existir.


Luany de Macedo Nascimento


 Encanta-me o gesto simples do viver,

o dia abrindo em mansa claridade;

há luz no modo quieto de perceber

o mundo em sua frágil verdade.


O arco-íris rasga o céu ferido,

costura a dor em sete tons de calma;

a lua vela o tempo adormecido

e ensina a inteireza que há na alma.


Gosto de olhar o céu sem direção,

seguir as nuvens, livres, mutáveis,

ver nelas rostos, mapas, invenção,

desenhos breves, mundos improváveis.


No outono, o chão aceita o seu cair,

folhas e flores cedem ao caminho;

andar sobre elas é também consentir

que há beleza em perder-se devagarinho.


No inverno, a chuva escreve contenção,

bate nos vidros como quem acalma;

fico a vê-la em contemplação,

como quem lava, em silêncio, a alma.


O café coado exala aconchego,

acorda a casa em quente mansidão;

há um rito antigo nesse apego

ao tempo lento da primeira mão.


E então, de súbito, a gargalhada de minha filha

que se espalha viva pela casa:

voz que desfaz qualquer estrada

de sombra, e o dia inteiro abraça.


Leio sem pressa, página por página,

como quem toca o tempo com cuidado;

o livro pede escuta, não façanha,

e eu lhe entrego o instante sossegado.


Quem ama assim o ínfimo e o discreto

faz da ternura um modo de existir;

há um brilho raro, silencioso e secreto

em quem aprende o mundo a sentir.


Por isso escolho a vida despojada,

o passo lento, o olhar essencial;

não me seduz a pressa acumulada,

prefiro o pouco, simples e vital.


Vivo a escutar o mundo em sua fonte,

beber do dia o que é verdadeiro;

reduzo o excesso, amplio o horizonte,

e faço do existir um ato inteiro.


Luany de Macedo Nascimento 10/01/2026


 

Sou feita de escolhas que nem sempre foram fáceis e de caminhos que não vieram prontos. Carrego a marca de quem aprendeu a decidir sem garantias, de quem entendeu cedo que agradar não pode ser condição para existir. Minha postura não se dobra para caber no olhar do outro, nem se ajusta para sustentar afetos frágeis, construídos à custa do meu silêncio. Quem sou não está à venda, nem em negociação, porque já custou caro demais me reconhecer inteira.

Não fui criada para a docilidade obrigatória, essa forma disfarçada de apagamento. Trago no corpo e na memória as marcas de quem precisou se virar, observar o mundo com atenção, resistir quando não havia amparo. Há em mim firmeza e delicadeza, coragem e contradição, porque a força verdadeira não é lisa nem perfeita. Não devo explicações por não ser santa, por não ser moldável, por recusar papéis que me diminuem e expectativas que me estreitam. Minha força nasce justamente dessa recusa: da escolha consciente de não me violentar para ser aceita.

Sou mulher que conhece seus limites e seus desejos, não como fronteiras fixas, mas como territórios em constante construção. Sei quando fico e sei quando parto, porque aprendi que permanecer não é virtude em si, assim como ir embora não é fracasso. Permanecer só faz sentido quando não exige que eu me desfigure. Partir, muitas vezes, foi o gesto mais honesto que pude oferecer a mim mesma. Escolho o que me preserva, o que me respeita, o que não exige que eu me apague para caber em relações, espaços ou narrativas que não me reconhecem.

Minha história me ensinou autonomia não como isolamento, mas como responsabilidade sobre mim. Não precisei de chão firme para aprender a caminhar, nem de abrigo constante para construir identidade. Fiz morada em mim quando o mundo não oferecia teto. Aprendi a sustentar o próprio nome, a própria voz, a própria presença, mesmo quando isso significava estar só. Carrego comigo a ética de quem se sustenta sem endurecer, de quem não muda o tom da própria voz para ser aceita, de quem não confunde pertencimento com submissão.

Ser forte, para mim, não é resistir a tudo em silêncio, nem romantizar a dureza do caminho. É existir com verdade, mesmo quando isso custa caro. É não ceder à expectativa alheia, é não suavizar quem sou para parecer menos ameaçadora ou mais palatável. É ocupar o mundo com a minha inteireza, afirmando que não devo nada à norma que tentou me domesticar. Ser forte é permanecer fiel a mim mesma, sem culpa, sem concessões que me custem a alma, e, sobretudo, sem pedir desculpas por isso.


Luany de Macedo Nascimento, 09/01/2026



Ainda vale escrever quando tudo quer correr,
quando a palavra disputa com o instante a atenção,
com dedos apressados que não param para ver,
e vídeos curtos moldando o ritmo da percepção.

Escrever dói porque exige permanecer,
ficar onde o mundo insiste em nos fazer passar,
é sustentar o tempo sem se dissolver,
enquanto tudo ao redor só quer deslizar.

A frase pede corpo, silêncio e duração,
pede fôlego longo, densidade no sentir,
não nasce do impulso, nem da distração,
mas do gesto insistente de parar e existir.

Vivemos de lampejos, de presença interrompida,
rostos que atravessam sem jamais se fixar,
emoções que se gastam na superfície da vida,
como histórias breves que não chegam a ficar.

Ideias não aprofundam, só passam em exibição,
descartáveis como o que não precisa durar,
a vida virou rascunho sem revisão,
um texto apressado que ninguém quer reler ou cuidar.

E ainda assim a escrita se recusa a ceder,
não dança conforme o cálculo do algoritmo,
não aprende o gesto fácil de apenas suceder,
nem se curva à pressa que empobrece o ritmo.

A escrita pede raízes em tempo de dispersão,
exige permanência onde tudo quer fugir,
é quase um desacato, uma negação,
de um mundo que desaprendeu a insistir.

Escrever hoje é recusar a superfície do ser,
é alongar o pensamento contra toda redução,
é dizer “eu fico” onde mandam desaparecer,
é sustentar presença como forma de insubmissão.

Talvez ninguém leia, talvez se perca no fluxo,
entre tantas vozes que disputam o olhar,
mas nunca foi sobre aplauso ou luxo,
foi sobre o que insiste em não se calar.

Escrever é guardar o que ainda pensa,
num tempo que já não sabe escutar,
é manter viva a escuta densa,
quando tudo só quer passar.

Enquanto houver quem escolha permanecer,
mais tempo numa frase do que num refrão,
a escrita ainda encontra razão de ser,
mesmo contra o tempo da dispersão.

Porque onde tudo escorre sem deixar raiz,
a palavra que fica se torna resistência,
um gesto mínimo, talvez, mas feliz,
de quem ainda aposta na permanência.


Luany de Macedo Nascimento
09/01/2026

Estas palavras nasceram da vontade de transpor para o papel de como enxergo minha travessia do torna-se docente. Escrevi na época da escrita do TCC, mas ele continua sendo uma espécie de síntese do que vivi.

Não falo de dom, nem de vocação mística. Pois não acredito nisso. Fui incompreendida por colegas algumas vezes, por não enxergar a profissão docente como um sacerdócio. Ser professora não é dom, não é algo inato ao sujeito e não deveria ser feito de "qualquer forma". Pra mim, é um torna-se professora, é uma construção (desconstrução e também reconstrução). Falo de tropeços, de inseguranças, de escolhas difíceis, de estudo, de pesquisa. Falo de ser professora como quem se faz na caminhada, aprendendo e ensinando, ensinando e aprendendo, ao mesmo tempo, dialogicamente, dialeticamente e sem atalhos.

Tornar-se é verbo em movimento, é processo. É a consciência de que o ser professora não nasce pronto, mas se faz na experiência, na escuta, na alteridade, na disposição de rever o que se pensa e refazer o que se é. Tornar-se é estar em permanente inacabamento, como diria Paulo Freire. É reconhecer-se aprendiz, mesmo quando se ensina. É habitar o entre, o intervalo entre o que já se sabe e o que ainda se busca. Tornar-se é resistir à ideia de que a formação tem um ponto de chegada. É compreender que a docência não é uma posse, é uma prática ética em constante devir.


Cada palavra carrega minhas experiências, o peso e a beleza de conciliar maternidade, estudo e problemas pessoais, e de acreditar de que ensinar é, acima de tudo, um ato político.


Ensinar é também um compromisso ético com a vida e com o outro. É compreender que cada gesto docente implica responsabilidade. Quando se escolhe ensinar, assume-se o risco e a grandeza de interferir na formação de alguém. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, mas de criar possibilidades para que o outro se perceba capaz de pensar, de questionar, de transformar o mundo. Por isso, ser professora não é repetir fórmulas prontas, é reinventar o sentido da educação todos os dias.


Me entristece em certa medida que alguns pensem que o meu caminho foi fácil. Ou que fui privilegiada em alguma medida. Seja pelo tom da minha pele ou porque, na visão deles, os professores "iam com a minha cara". Nunca pararam para ver o tanto de coisa que precisei abrir mão para estar ali. Quantas noites mal dormidas, quantos finais de semana imersa nas leituras. Mesmo nas férias, estudando. Correndo atrás de bolsas acadêmicas (Monitorias, Residência Pedagógica, PIBIC) para conseguir me manter financeiramente no curso, mesmo que seja em uma instituição pública. Quantas vezes precisei abdicar do tempo (precioso) com minha filha. E quantas vezes abri mão de um simples divertimento em prol dos estudos. Quantas vezes precisei dizer "não posso", pois eu tinha uma pilha de textos para ler. Sem romantismo barato ou discurso neoliberal meritocrático. Cada um faz o seu caminho do jeito que quiser, mas que não venham me invalidar.


É foda ouvir (não há outra palavra para expressar) isso de quem passou a graduação inteira colando, plagiando e usando IA para serem aprovados nas disciplinas. Porque sim, dessa forma é fácil pra caramba!


Não foi fácil pra mim, assim como sei que não foi e nem é fácil para tantos outros.  Pois, nunca é fácil para quem leva as coisas com seriedade e responsabilidade. Meu objetivo nunca foi apenas obter o diploma e levar o curso de qualquer jeito. Se fosse, eu sequer teria começado.


E é aqui que entra a dimensão ética da docência. A ética não é uma virtude decorativa, mas sim um alicerce da formação. Há quem tenha tido todos os recursos, o tempo, o suporte, o aparato pedagógico, mas escolheu não aprender. E essa escolha é, acima de tudo, uma escolha moral. Não se trata de falta de capacidade, mas de renúncia à responsabilidade com o conhecimento. A ética, como aprendi lá atrás, na Filosofia, nasce do hábito, da prática consciente, do compromisso com a verdade e com o outro. Ser ético é reconhecer o dever de pensar. Negar o pensar é negar a própria humanidade.


Por isso, quando vejo pessoas tratando a formação docente como qualquer coisa, sinto a urgência de reafirmar que a educação não se sustenta sem ética. Que a docência exige compromisso com o saber, com a escuta e com o outro. Pois a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir a responsabilidade por ele. Ensinar por essa ótica, é, portanto, um gesto de amor ético. Um humanismo! É cuidar da permanência do mundo e das novas gerações.


Tornar-se professora é, assim, um ato de coragem. Coragem de se olhar, de se reconhecer inacabada, de se reconstruir no encontro com os outros e com as ideias. É o exercício constante de escutar e ser escutada, de interrogar o próprio fazer, de não se acomodar. Tornar-se é verbo de movimento e também de ética.


No fim, esse texto é meu registro sobre o meu entender em ser professora e estar em constante vir-a-ser, construindo-se no cotidiano, no encontro com o outro e na coragem de seguir adiante, apesar de tudo e de todos.


Entendo que ser professora é isso: estar disposta a recomeçar, a duvidar, a aprender de novo. É compreender que a docência não se esgota no diploma, mas se reinventa a cada dia, no olhar de uma criança, na palavra de um estudante, no silêncio de quem reflete. Ser professora é, para mim, antes de tudo, permanecer em travessia.


Tornar-se professora sendo mãe também me ensinou sobre limites, sobre tempo e sobre prioridades que não cabem em currículos. Aprendi que estudar com uma criança ao lado não é obstáculo, é outra forma de ler o mundo. Que educar não se divide entre casa e universidade: atravessa tudo. E talvez por isso mesmo eu nunca tenha conseguido tratar a docência como algo leve ou superficial, porque sei, na prática, o peso que um gesto educativo pode ter na vida de alguém.


Dito isso, sigo! Não como quem conclui, mas como quem aceita continuar a aprender. Há ainda perguntas sem respostas, caminhos que não se revelaram e encontros que não aconteceram. E é justamente isso que sustenta o passo seguinte.


Luany de Macedo Nascimento.