(Inspirado no filósofo pré-socrático Heráclito)

O rio corre, incessante e profundo,
não há repouso, nem fim neste mundo.
Quem nele entra, já não é o mesmo,
pois tudo flui, o ser é o que vemos. 

O ser não é, mas está sempre a ser,
como rio que jamais para de crescer.
Não há o mesmo, nem o imutável,
Tudo é transformação, nada é estável. 

O que hoje é, amanhã já não será,
como a água que o tempo levará.
No rio, a morte não é o fim, é passagem,
e o ser, em movimento, se faz miragem. 

Não se entra duas vezes no mesmo rio, 
pois o rio, como o ser, está a mudar, 
O movimento é o princípio da vida,
o que é fixo, a corrente se faz perdida. 

Assim é o ser: não é uma verdade pronta. 
É viagem constante, estrada enredada
Heráclito nos mostra, no fluir do rio
Que o ser é mudança, eterno desafio. 


Luany de Macedo Nascimento

 (Inspirado no pensador Mikhail Bakunin)


A liberdade é fio que se estende ao vento,
Quanto mais se espalha, mais ganha fundamento. 
Não há correntes quando o ser se liberta,
a sua liberdade, ao outro desperta. 

Cada passo dado em busca do ser, 
É um abraço ao próximo, a força de crescer.
A liberdade é feita de mão dada,
a minha estende a tua, em jornada.

Não é prisão a liberdade de um só, 
É chama que acende, fogo que vai eufórico,
O  grito que ecoa em todos os corações, 
Porque somos livres nas mesmas aspirações. 

Se a liberdade do outro amplia comigo, 
somos todos um, num só grito, 
Não há espaço para muros ou opressão,
a verdadeira liberdade se conquista com revolução. 


Luany de Macedo Nascimento


Nas tramas do poder dominante, 
A hegemonia sussurra em silêncio.
Não força, mas idealiza,  moldando o semblante, 
Do senso comum, calmo e tão denso.

Mas por entre brechas, nasce a ruptura, 
A contra hegemonia levanta a voz.
Questiona o discurso, revela a estrutura,
E lembra que o mundo não cabe em um "nós".

O poder que convence é o que mais perdura,
Está na escola, no templo, no lar.
Mas o ser critico com astúcia,
consegue pensar, lutar, transformar. 

Gramsci apontou: não há neutralidade, 
A cultura é campo de intensa disputa, 
Cabe ao oprimido, com coragem
romper as correntes da velha conduta. 


Luany de Macedo Nascimento

Às vezes, ela se sente invisível ao atravessar o existir,
como corpo translúcido que o mundo não consegue fixar,
presente sem deixar marca, sem sequer refletir,
existindo num intervalo que ninguém chega a notar.

É como se o ar passasse por ela sem resistência,
como se o olhar tocasse, mas não fosse capaz de ver,
uma presença suspensa, quase ausência em permanência,
num mundo que observa sem realmente perceber.

Ela se percebe um objeto com falha de concepção,
como brinquedo esquecido fora do padrão esperado,
não por quebrar com facilidade ou faltar função,
mas por não cumprir o papel que lhe foi projetado.

Ficou na prateleira do tempo sem ser escolhida,
não por ausência de brilho ou qualquer imperfeição,
mas por carregar sensibilidade em excesso na vida,
num mundo que valoriza dureza como condição.

Há dias em que se olha de fora, sem conseguir se habitar,
como quem analisa algo deslocado do lugar,
pergunta-se em que ponto começou a falhar,
ou em que curva deixou de se adequar.

Mas resposta alguma se apresenta de modo claro,
nenhuma explicação vem para enfim sustentar,
talvez o erro não seja dela, por mais que pareça raro,
talvez seja o molde que nunca soube a comportar.

Carrega no peito um cansaço que não começou agora,
feito de silêncios guardados e tentativas de caber,
aprendeu cedo que existir fere e devora,
mas também que essa dor precisa se esconder.

Cala para não pesar, silencia para não incomodar,
sorri quando consegue, recolhe-se ao não suportar,
vai sobrevivendo onde mal consegue respirar,
entre ausências longas e pausas para não desabar.

Ainda assim, algo nela insiste em não ceder,
nem ao silêncio imposto, nem ao lento esquecer,
não permanece por vitória ou por querer vencer,
permanece por recusa, por não se dissolver.

Respirar já não é gesto simples de viver,
é afronta lançada contra o que manda cair,
quando tudo ao redor ordena desaparecer,
ela insiste, mesmo sem promessa de prosseguir.

E talvez não haja sentido que se possa explicar,
nenhuma razão maior que venha justificar,
senão esse gesto mínimo de continuar,
como quem fere o próprio fim ao não se apagar.



Luany de Macedo Nascimento, 15/01/2026


 Sou feita de permanências discretas.
Ardo em silêncio.
Carrego nos olhos a fadiga de quem pensou demais
e no peito a delicadeza dos que ainda sentem
mesmo quando o mundo já não promete.

Habito a fronteira entre o impulso e o recuo,
entre o desejo de partir
e a estranha fidelidade ao que dói.
Não sou heroína nem mártir:
sou apenas alguém que permaneceu
quando seria mais fácil dissolver-se.

Há em mim um cansaço antigo,
como se tivesse chegado tarde a todas as certezas
e cedo demais ao desencanto.
Aprendi que viver não é vencer,
mas sustentar o peso dos dias
sem permitir que eles me tornem rasa.

Trago afetos que não se acomodam,
amores que não pedem abrigo
e pensamentos que caminham à noite,
sem mapa, sem promessa de aurora.
Não procuro redenção,
procuro lucidez.

Se sorrio, é com cuidado.
Se amo, é com vertigem.
E quando me recolho,
não é fuga:
é respeito pela profundidade do que sou.

Sou feita de dúvidas férteis,
de uma tristeza que pensa,
de uma esperança que não se anuncia,
mas insiste.
E mesmo quando tudo em mim parece sombra,
há algo que permanece em pé
não por fé,
mas por consciência.

Não desejo eternidade.
Desejo verdade.
E sigo
não para ser vista,
mas porque existir, assim,
é o único gesto que me é possível.