Olá, caro leitor.
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Luany de Macedo
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Por que aquilo que me inaugura a alegria
é também a raiz da minha queda?
Ah, o amor
esse enigma que promete abrigo
e nos ensina o cativeiro.
O beijo que costura dois corpos
é o mesmo que ensaia a despedida.
Há nele algo de febre
uma doçura que adoece devagar
e aprende o corpo a sentir dor como hábito.
Como decifrar o que não quer ser dito?
Quando me desfaço em lágrimas,
és tu
origem do abismo
e, ainda assim,
bastava um sorriso teu
para que a tristeza recuasse, rendida.
Assustava-me depender do teu toque.
Não por fraqueza
mas por excesso de entrega.
Teu olhar me atravessava,
tuas palavras me desarmavam
e eu esquecia quem era.
Mas aprendi.
Hoje reconheço o veneno disfarçado de afeto.
Já não me curvo a promessas mansas
nem me deixo embalar por palavras bonitas
quando não carregam verdade.
O amor, agora, não me invade
não apaga minhas defesas
não atravessa meu nome.
Se fica, é inteiro.
Se parte, não me desfaz.
Ah, teu amor
já não me governa.
Caminha ao meu lado
ou sigo sozinha.
Às vezes busco refúgio na escrita,
tentando aliviar o peso que sinto.
Mas são tantas vozes dentro de mim,
que me perco entre as palavras e o infinito
Na companhia de um café,
Para esquentar-me nessa tarde fria,
Encontro na escrita um abrigo,
um jeito de ainda sentir-me viva!
És ainda toda a força que tenho,
O meu riso inocente,
A melhor e pior parte em mim existente,
Um laço eterno, puro e envolvente.
Quando, por fim, da vida me despedir,
Guarda-te contigo uma doce lembrança,
Na morte, estará eu ainda te amando
E a velar noite e dia teu sublime sono.
Escrevo numa tarde suspensa, dessas que não começam nem terminam. Uma tarde solitária, como quase todas, em que o tempo parece hesitar diante de mim. Escrevo para conversar com o silêncio que me habita, para tentar nomear o caos que se espalha por dentro como um nevoeiro espesso. Escrevo porque os fantasmas se tornam mais audíveis quando o mundo se cala, e porque a palavra é o único gesto que ainda me mantém à tona. Escrever é o que me permite existir por breves instantes, antes que eu volte a submergir. Preciso escoar essa carga invisível que pesa sobre meus ombros, transmutar o desespero em linguagem, pois temo que, se não o fizer, enlouqueça em silêncio.
Cada palavra que deixo no papel é um vestígio: do que fui, do que deixei de ser ou do que jamais serei. Escrevo para salvar minhas angústias e minhas felicidades do apagamento, antes que se tornem apenas sombras informes na memória. Meus amores, minhas ilusões, minhas perdas e alegrias, tudo é narrado como quem confia a própria vida a um confidente fiel. O papel nunca me abandona. Pergunto-me se escrevo porque não há ninguém além das quatro paredes do meu quarto para me escutar, ou se minha voz se tornou tão abafada que já não alcança ninguém.
Sinto-me fraca. A mente errante, sem lugar seguro onde repousar. Procuro paz, mas quanto mais a busco, mais ela se afasta, como um horizonte que se desloca a cada passo. O cansaço se infiltra nos ossos, a exaustão me aprisiona num ciclo sem começo nem fim. Talvez eu não seja boa companhia (nem para os outros, nem para mim mesma). Se a solidão me entedia, me angustia e me desnorteia, isso apenas confirma o que sempre temi: sou, ao mesmo tempo, abrigo e ameaça, minha melhor e minha pior companhia.
Perco, aos poucos, o gosto pelas coisas. As cores do mundo parecem desbotar diante dos meus olhos, como se a vida fosse perdendo saturação. Fico presa a lembranças que não aquecem; apenas ferem. Nostálgica, apática, por vezes misantrópica, recuo antes de qualquer aproximação. Evito o toque, a palavra, o encontro. A batalha que travo dentro de mim é incessante, e a cada dia me sinto mais frágil diante dessa guerra silenciosa contra minha própria mente. As noites se alongam até se tornarem insuportáveis. Enquanto a cidade dorme, permaneço desperta, debatendo-me entre medos e anseios que se multiplicam na escuridão.
Perco-me nos labirintos do pensamento, cercada por ideias que me assombram e me afastam de quem um dia fui. Sinto que deixo pedaços de mim pelo caminho, fragmentos que talvez nunca mais reencontre. Sou acompanhada pelos mesmos fantasmas de sempre, incansáveis, persistentes, do amanhecer ao anoitecer. E nesta cidade fria, onde caminho só, continuo vagando sem direção, existindo em movimento, mesmo quando tudo em mim parece paralisado.
" Eu respiro tentando encher os pulmões de vida, mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar... Ainda sinto por dentro toda dor dessa ferida, mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar... Eu queria manter cada corte em carne viva, a minha dor em eterna exposição. "
Em uma noite de pura dor e agonia,
Mais uma noite igual a tantas outras...
Rasgando minha pele, como quem rasga um papel,
Definhando meu corpo, como quem se despede da vida.
Essa estranha sensação de não mais existir,
De ser sugada, minuto após minuto,
Um vulto sem peso, sem forma,
Presa entre o vazio e o esquecimento.
Oh vida, o que fazes comigo?
Que jogo cruel é esse que me entregas?
Uma promessa de luz que nunca amanhece,
Uma estrada sem rumo, sem fim, sem volta.
O tempo me observa, impassível,
E eu, cada vez menor, cada vez mais fraca,
Sinto que já não há chão sob meus pés,
A queda se tornou minha única certeza.
Vida, maldita ironia!
Carrega-me logo, leva-me para onde quiseres...
Ou liberta-me dessa espera sem sentido.
Hoje, só por hoje, desisto de caminhar.