Naquela tardezinha, o mundo pesava demais,
E eu só queria que a dor cessasse, enfim.
Não era a vida que eu queria deixar pra trás,
Era o sofrimento, gritando dentro de mim.

Na penumbra serena, caixas empilhadas,
Psicoativos, parei de contar no setenta e oito.
Na esperança de calar feridas 
Tentei silenciar o caos, sem alarde, sem açoite.

Engoli o silêncio em formas e doses,
Ansiando por paz, por um descanso breve.
Não por ausência, mas por horas menos atrozes,
Menos agudas, menos tristes, menos febris.

Era março, e o tempo parou no chão,
Entre batidas fracas do coração e a escuridão.
Meu corpo, cansado, buscava perdão,
Enquanto a alma afundava em negação.

Não fui covarde, nem busquei o escuro,
Fui só alguém cansada de insistir.
Queria um alívio, mesmo que não fosse seguro,
Só um intervalo pra poder existir.

E hoje carrego cicatrizes caladas,
Não como culpa, mas como sinal:
Sobrevivi às tardes mais sombrias e geladas,
E sigo, mesmo que sem final ideal.

Dizem que é só ingenuidade,
acreditar ainda no amor,
num mundo feito de brevidade,
onde tudo se perde sem pudor.

Mas sigo firme, ainda insisto,
não por sonho ou ilusão,
é no afeto que ainda existo,
é questão de respiração.

Acredito no amor contido,
que não se vende em exposição,
não se oferece como ruído,
nem se molda à aprovação.

No amor simples, sem promessa,
que não vem como redenção,
mas que fica, mesmo sem pressa,
sustentando a direção.

O passado tentou ser muro,
fez da dor meu professor,
da ausência, hábito escuro,
do silêncio, um cobertor.

Aprendi a desconfiar,
a calar o que doía,
a sangrar sem avisar,
a esperar sem garantia.

E ainda assim, algo resiste,
não se curva ao que perdeu,
há um resto que ainda insiste,
em viver no que morreu.

Não é pureza, nem inocência,
não é sonho nem ilusão,
é uma fé sem dependência,
que resiste à negação.

É centelha entre ruínas,
luz teimosa a permanecer,
mesmo em terras tão feridas,
algo ainda quer nascer.

O amor não é leve encanto,
não é gesto sem tensão,
ele invade, quebra o pranto,
desorganiza a razão.

Expõe tudo que escondemos,
rasga o medo de existir,
tudo aquilo que tememos,
vem à tona ao sentir.

Amar é gesto insurgente,
ato vivo de oposição,
num mundo frio e indiferente,
que negocia o coração.

O amor não salva tudo,
nem resolve a direção,
mas sustenta, mesmo mudo,
quando falta o chão.

Se há ainda alguma mudança,
se há ruptura ou criação,
nasce no risco da esperança,
de sentir na contramão.

E é por isso que acredito,
não por falta de razão,
mas por tudo que resisto,
mesmo contra a negação.


Teu nome: cinco letras, 
3 vogais, 2 consoantes
tatuado em mim,
Com a lembrança doce de um amor sem fim.  
Adolescente, tola, te deixei partir,  
Sem saber que o tempo não ia curar,  
Mas só fazer doer, só me fazer lembrar.

Tu foste abrigo, sonho e descoberta,  
Mas minha imaturidade era porta aberta  
Pra inseguranças, medos e distância.  
Te vi indo embora, sem coragem de gritar,  
Ficou o silêncio e um mundo pra chorar.

As cartas rasgadas, os sorrisos perdidos,  
As tardes eternas, os planos esquecidos...  
Tudo ecoa agora no vazio do meu peito.  
Amor primeiro, que eu não soube guardar,  
Que veio intenso, e tão cedo foi embora.

Hoje entendo que amar é aprendizado,  
Mas na época por não saber, te deixei ir.  
Carrego tua ausência como cicatriz,  
E toda noite, antes de me deitar,  
Teu nome, baixinho, volto a chamar.

Te amei como pude, mas não foi bastante,  
Hoje o passado é um nó sufocante.  
Teu nome, vive na canção  
Que canta em segredo, já no meu coração:  
Amor primeiro, amor que eu não soube amar.

Outros namorados, outras pessoas surgiram
mas em cada abraço, era o teu que eu esperava
O noivado foi um erro, um desastre velado,  
Três anos jogados fora num tempo calado.  
Alianças frias, promessas vazias,  
Dias sem brilho, noites vazias...  
Que ao teu lado seriam pura poesia.

Cada plano feito era um grito contido,  
Pois era contigo que eu queria ter ido.  
Fingindo sorrisos, eu só disfarçava  
A falta que tua ausência gritava  
Enquanto a vida em mim se desfazia.

Como fui tola em te deixar partir,  
Achando que o tempo ia me distrair.  
Mas o tempo só fez me mostrar  
Que o amor que eu tentei apagar  
Era raiz que insistia em enraizar.

Você era abrigo, era calma e calor,  
Era tudo que um dia sonhei como amor.  
Mas te deixei por orgulho, por medo, por infantilidade...  
Já se passaram tantos anos, e ainda choro tua ausência
Agora é tarde, e em mim, o degredo  
De um arrependimento que não tem fim.

Depois do fim, tentamos ser só amigos,
Mas o amor em mim batia em perigos.
Pulsava forte, em silêncio gritava,
Mas como covarde, a verdade eu calava.
E ali, calada, deixei escapar
A chance de te falar o que eu ainda sentia.

Quando o arrependimento vem, ele não sussurra,  
Ele grita, fere, corrói, segura.  
E em cada momento que não vivi contigo,  
Sinto que fui minha pior inimiga.  
E o que restou... foi só castigo.

Há um caos que ninguém vê pulsando,
na mente que insiste em resistir.
Cada dia é um fio se rompendo,
cada noite, um tentar não desistir.

Oscila entre gritos e silêncios,
entre o ódio e o riso disfarçado.
Carrega no peito mil incêndios,
e o corpo, exausto, pede cuidado.

“Levanta!”, dizem com desdém e pressa,
sem saber da dor que não se mostra.
Como andar se a alma está dispersa,
presa em neblinas que ninguém aposta?

Ela sangra por dentro e sorri por fora,
anulando-se por quem não a vê.
Empurra-se ao dia, mesmo sem aurora,
mesmo afogada em não saber o porquê.

E mesmo assim, ainda luta calada,
mesmo quando só deseja partir.
Há beleza na alma despedaçada,
que insiste, cansada, em não desistir.

Te amei num tempo em que amar doía,
quando tua boca mentia e meus olhos negavam,
me fiz pequena, sombra do que eu era,
na esperança vã de que um dia tu mudarias, 

Tuas palavras, veneno doce e raso,
me prendiam em laços que eu não via,
cada gesto, um passo para o abismo
que eu chamava de amor… e não sabia.

Fui silêncio onde eu devia ter sido grito,
fui espera em noites sem retorno,
te dei minha luz, o meu riso mais bonito,
e em troca, ganhei um mundo sem contorno.

Mas hoje, me ergo das cinzas
teus fantasmas já não me fazem morada,
cortei as cordas que me seguravam,
sou vento, sou mar e agora sou estrada.

Não sou metade, sou inteira e firme,

não me desfaço em pedaços teus,

o que me habita não se reprime,

nem se diminui nos olhos teus.

O fim não veio como um trovão raivoso,
mas como um suspiro de alívio e de razão.
O amor já tinha morrido, silencioso,
restava apenas minha libertação.

Agora caminho com passos inteiros,

já não me perco em desejos alheios,

se um dia “fui tua”, em laços ligeiros,

te digo: pertenço apenas a mim, sem rodeios.