Ler o mapa é ler o mundo em linhas tortas,

onde há vozes caladas sob traços precisos.

Territórios se alargam, fronteiras são portas,

mas há mundos ausentes nos cantos omissos.


Cada traço encerra um gesto de domínio,

silencia aldeias, inventa nações.

Mas do fundo das vielas, há um outro raciocínio:

os contra-mapeamentos refazem visões.


O mapa não é neutro, é escolha traçada,

quem mapeia decide o que deve existir.

Toda escolha é vontade, é guerra velada,

um jeito de ver... e de fazer sumir.


A cartografia oficial é voz do poder que quer impor,

mas quando o povo fala, inicia o diálogo maior.

Nas mãos conscientes, renasce a força de criar

mapas que libertam, que ensinam a lutar, um modo insurgente de territorializar


Que rompamos os pactos da Geografia oficial,

feita pra excluir, apagar, dividir.

E tracemos no chão, com gesto essencial,

territórios possíveis pra gente existir.


A lua sobe lenta, pálida e antiga,
recorta o silêncio do céu profundo,
traz meu nome à tona, calada e antiga,
como um segredo esquecido no mundo.

No som do meu nome, a lua se anuncia,
eco antigo que a noite reconheceu,
“Luany” carrega em si essa luz tardia,
radical de lua que em mim floresceu.

Nas noites frias, quando tudo adormece,
ela caminha ao meu lado, sem voz,
testemunha muda do que em mim permanece,
sem nunca pedir, sem jamais falar por nós.

Há nela uma dor que não se desfaz,
beleza contida de quem já sofreu,
olha o abismo e não volta atrás,
como alguém que ao vazio se rendeu.

Se tudo escurece, ela ainda persiste,
pairando na noite que insiste em ficar,
e eu, como ela, na sombra que existe,
aprendo em silêncio a não me apagar.

Dei tempo ao silêncio, deixei-me cair,
aceitei as pausas que a dor desenhava.
Chorei sem vergonha, sem me punir
sabendo que a cura também se faz brava.

Foi meu amado esposo, luz nos dias rudes
quem me abraçou quando eu me desfazia.
Com gestos simples, mas cheios de virtudes, 
Fez da sua calma a minha anestesia. 

Caí mil vezes, levantei mais mil!
Não com honra, medalhas ou glórias vazias,
mas com a alma rasgada por inteiro,
feridas que só cicatrizam com poesia. 

E se hoje caminho novamente. enfim reconciliada,
não foi só remédio que me fez ficar. 
Mais que comprimidos, foi a escrita poética
me libertou e fez a minha vida novamente pulsar. 




É laico o Estado, diz a Constituição, 
mas na escola há prece e imposição. 
A fé circula entre quadros e lições, 
silenciando outras visões e religiões. 

A LDB, em rito, abre o portão
pro ensino da crença sob o véu da "opção". 
E a BNCC, com fala polida, 
normatiza o "sagrado" na vida. 

Entre "valores" e "formação moral", 
o neutro cede ao juízo pastoral. 
O cristianismo, travestida de conteúdo, 
ganha no jogo que molda o estudo. 

Laicidade vira carta esquecida
no baralho de interesses da vida. 
Educar pra pensar é perigoso: 
prefere-se o aluno manso e piedoso.

 Depois do nome: Bipolaridade
comecei a procurar por mim nos cacos.
Quem fui? Quem sou? Quem serei de verdade?
Há dias em que me encontro. Outros, me desfaço.

É um jogo de espelhos, sem regra ou aviso:
Amanhã serei eufórica, eutimicamente calma, 
ou terei um peso escuro no peito indeciso,
que me rouba o chão e dissolve a alma?

As pílulas prometem um norte seguro, 
mas o caminho cobra um preço cruel,
Dez quilos a menos em dois meses,
corpo mais frágil, que rejeita o pão, riso e o papel. 

Estou tentando... Me conhecer, me acolher, 
entre extremos, construir permanência
Ser quem eu sou, mesmo sem saber exatamente
qual versão serei de mim ao acordar pela manhã.

Luany de Macedo Nascimento, 18 de Abril de 2025