Eu não pedi essa coisa torta crescendo dentro da minha cabeça,
nem assinei contrato algum pra morar nessa mente em ruínas sem direção,
não levantei a mão pra aceitar essa distorção feroz que nunca cessa,
essa engrenagem quebrada girando no lugar do silêncio, sem solução.

Essa estranha aberração química rasgando tudo o que eu podia ser,
me obrigando a existir num corpo que já não reconhece o próprio chão,
como se cada impulso meu viesse de um lugar que não consigo conter,
como se eu fosse só efeito colateral de uma falha em combustão.

Dói medir a vida em comprimidos, pequenos pactos diários de ilusão,
de segunda a domingo marcados não por tempo, mas por contenção,
um pra calar o excesso, outro pra acordar o nada em contradição,
promessas em cápsulas que repetem equilíbrio e entregam frustração.

Remédio pra isso, pra aquilo, pra mim, pra quem eu deixei de ser,
bulas que falam mais de mim do que qualquer tentativa de explicação,
efeitos colaterais criando versões que eu não escolhi viver,
e a esperança virando pó no fundo seco de cada prescrição.

A mente não clareia, ela embaralha, insiste em se desfazer,
pensamentos batendo entre si como móveis num quarto sem visão,
nomes somem, vontades evaporam antes mesmo de acontecer,
e o mundo grita alto demais dentro de mim, sem tradução.

Agora o que resta não é grito nem tempestade querendo romper,
é o vazio parado depois do desastre, sem forma, sem direção,
um silêncio espesso grudado nos ossos, difícil de desfazer,
existir sem cor, sem peso, sem eco, uma lenta dissolução.

As palavras não pedem licença,
irrompem cruas, sem conter,
ardem na pressa da existência,
como se já viessem a arder.

Quentes, rápidas, atravessadas,
ferem antes de se formar,
nascem prontas, precipitadas,
dentro da voz a transbordar.

É irritação sem motivo visível,
um nervo aceso a latejar,
um incômodo quase invisível,
mas impossível de ignorar.

Sons ferem como aço frio,
portas parecem explodir,
vozes pesam, densas, no vazio,
sobre o peito a insistir.

E algo em mim se endurece,
distante de qualquer calor,
uma frieza que me esquece
do gesto mínimo de amor.

Fico áspera, quase ausente,
como quem deixa de sentir,
uma ausência que, de repente,
me rouba antes de existir.

Então tudo estoura de vez,
um caos súbito no ar,
e quanto mais busco lucidez,
mais tudo insiste em quebrar.

Faíscas correm sem medida,
num espaço prestes a ceder,
como um gás na sala contida,
esperando apenas arder.

Quando passa, não há alento,
nenhuma paz a repousar,
resta um denso esvaziamento
onde nada vem habitar.

A apatia senta ao meu lado,
silenciosa, a me encarar,
como se fosse o único estado
que ainda resta a me habitar.

Há em mim uma vontade estranha de sair pela noite sem destino, como se as ruas vazias soubessem guardar segredos que eu ainda não consegui nomear. Como se o asfalto úmido, os postes acesos e o vento frio entendessem melhor do que qualquer palavra aquilo que pulsa por dentro. Não é exatamente tristeza. Também não é felicidade. É uma urgência mansa, quase febril, um desejo de tocar algo que torne o mundo menos áspero, menos pesado de atravessar.

Às vezes penso em quando dividimos o banco de trás de um carro qualquer, sem mapa, sem roteiro, apenas as luzes da cidade correndo pela janela como estrelas apressadas. Não havia promessas grandiosas, não havia juramentos eternos. Havia só o calor próximo, o silêncio confortável, a respiração que encontra outra respiração e, por alguns minutos, a sensação rara de não estar sozinha dentro de mim. Como se o corpo dissesse: aqui, agora, é suficiente.

Há dias em que tudo parece excessivo demais: o ruído, as cobranças, o cansaço de existir. E então me lembro que a vida pode ser mais leve quando é compartilhada. Mesmo que seja só um instante roubado do cotidiano, mesmo que o mundo continue lá fora com suas pressas e seus abismos. Porque naquele pequeno recorte de tempo, a solidão perde força. A angústia recua. E o coração encontra abrigo.

Essa intensidade incontrolável não nasce do drama, mas da consciência de que há momentos que salvam. Momentos em que penso que, se tudo terminasse ali, naquela curva da estrada, sob aquela luz amarelada que atravessa o vidro, ainda assim teria valido a pena. Não pelo fim. Mas pelo encontro. Pela presença que transforma o medo em ternura.

Existe uma luz que não se apaga quando alguém nos vê de verdade. Não com exigência, não com julgamento, não com a intenção de moldar. Mas com uma quietude firme que diz, sem alarde: "fica. Eu aguento teus silêncios. Eu suporto teus dias nublados. Eu não me assusto com tua intensidade".

E talvez seja isso que me move nessa noite sem destino. Não a fuga. Não o perigo. Mas a vontade quase desesperada de pertencer a um momento que brilhe o bastante para atravessar qualquer escuridão. Um momento que me lembre que, mesmo quando o mundo parece grande demais e eu pequena demais dentro dele, há uma luz acesa. E ela não se apaga.


Luany de Macedo Nascimento, 11/02/2026

Quando eu tinha 16 anos, escrevi um poema tentando responder quem eu era. Não porque soubesse, mas porque precisava perguntar. Era uma tentativa meio urgente, meio confusa, de caber em mim mesma, de dar nome ao que transbordava e ao que faltava. Naquela época, eu acreditava que identidade fosse algo que se descobria de uma vez, como quem encontra uma resposta escondida no fundo de uma gaveta.

Hoje entendo que aquele poema não estava errado. Ele só estava incompleto, como eu. A menina de 16 anos escreveu com o que tinha: inquietações, sonhos grandes demais, medos que ainda não sabiam se esconder, uma sensibilidade à flor da pele e uma vontade imensa de ser compreendida, acolhida. Ela não sabia, mas já era travessia.

O que mudou não foi a pergunta, foi o jeito de escutar a resposta. Continuo tentando responder quem sou, mas agora sei que não se trata de um retrato fixo. Sou feita de camadas, de tempos que se sobrepõem, de versões minhas que ainda conversam entre si. A adolescente que escreveu aquele poema ainda vive em mim, menos ingênua talvez, mas igualmente sensível, igualmente inquieta.

Se hoje eu reescrevesse aquela pergunta, não buscaria um rótulo, nem uma definição final. Diria que sou processo, construção diária, escolha. Sou o que resiste, o que aprende, o que ama com coragem. Sou continuidade daquela menina e, ao mesmo tempo, superação dela. E sigo escrevendo, não mais para descobrir quem sou, mas para continuar me tornando.

Hoje, quase 20 anos depois, ao responder quem sou eu, sou travessia, movimento constante entre o que fui e o que ainda estou aprendendo a ser. Não me defino por pontos finais, mas por reticências, por processos, por caminhos que se abrem enquanto caminho. Sou feita de perguntas que resistem às respostas fáceis, de silêncios que dizem mais do que palavras e de uma sensibilidade que sente antes de compreender, mas que insiste em compreender mesmo quando dói.

Sou força que nasceu da fragilidade e fragilidade que nunca significou fraqueza. Trago marcas, memórias e cicatrizes que não me diminuem; ao contrário, contam a história de onde resisti, de onde me refiz, de onde aprendi a permanecer inteira mesmo quando parti em pedaços. Sou afeto profundo, desses que acreditam no simples, no cotidiano compartilhado, no cuidado que não aprisiona e na presença que acolhe.

Sou crítica, mas não perdi a ternura. Sou idealista sem negar as contradições do mundo, romântica sem fechar os olhos para a realidade. Caminho com os pés fincados no chão, enquanto os sonhos insistem em me puxar para cima. Sou professora em construção, aprendiz das infâncias, das palavras, dos encontros e de mim mesma. Carrego a escuta como gesto político e o cuidado como escolha ética.

Sou amor que escolhe ficar, que não precisa controlar para existir. Sou casa e também estrada, raiz e movimento, permanência e transformação. Não caibo em rótulos nem em definições rígidas. Mudo, me contradigo, cresço. Sou inacabada, e é justamente nesse inacabamento que encontro minha potência. Quem sou eu? Sou tudo isso e ainda aquilo que o tempo, com paciência e delicadeza, continuará me ensinando a ser.


Amar de verdade
é chegar sem armadura,
sem ensaio,
sem esconder os cantos tortos da alma.

É dizer: sou isso,
com minhas manias, meus silêncios,
meus dias nublados
e ainda assim querer ficar.

O nosso amor nunca pediu licença para nada.
Não precisou gritar,
não precisou ferir,
não precisou controlar para existir.

Ele cresceu no gesto simples:
no café dividido,
no riso que surge do nada,
no conversa compartilhada no fim do dia.

Amar assim
é não ter receio de ser inteira,
de falar demais,
de sentir fundo,
de ser quem se é sem pedir desculpa.

Ao teu lado, aprendi
que amar não aperta,
não diminui.

Amar de verdade é repouso.
É casa.
É lugar onde não se pisa em ovos,
onde não se mede palavras,
onde o afeto não machuca.

São dez anos caminhando juntos,
dez anos de mãos dadas mesmo quando a vida pesa.
Caminhamos para onze não por hábito,
mas por escolha.

E se ainda há beleza no mundo,
ela mora nisso:
no amor que não assusta,
que não adoece,
que não exige versões menores de nós.

Amar assim
é coragem diária.
É liberdade compartilhada.
É a forma mais bonita
de existir a dois.

Poema para meu amado esposo, com quem escolho caminhar todos os dias.