Quando a tarde baixar seu véu dourado
e o tempo fizer silêncio no corredor,
quero tocar o mundo mais uma vez
com mãos ainda quentes de amor.

Se a vida me chamar para a partida,
sem alarde, sem medo, sem rumor,
peço apenas cumprir o sonho guardado:
espalhar ternura por onde eu for.

Quero rever as flores se abrindo ao dia,
ouvir dos pássaros o livre cantar,
ver ondas batendo nas rochas antigas,
sentir a brisa leve a me tocar.

Quero no peito o último alento
cheio da calma que a terra me deu,
misturado de beleza e espanto,
como quem parte após tudo o que viveu.

Se houver ainda um derradeiro instante,
quero meus pais, meu amor e minha filha,
sentir suas mãos junto às minhas mãos,
e adormecer ouvindo a voz da família.


Luany de Macedo Nascimento 27/04/2026

 Nos gestos pequenos mora um mundo herdado,
um jeito de falar que já vem moldado,
nos silêncios também há saber acumulado,
um invisível fio que nos deixa marcados.

Há quem caminhe leve entre portas abertas,
como se o chão já soubesse suas rotas certas,
enquanto outros tateiam, em trilhas incertas,
carregando ausências nas mãos quase desertas.

O gosto não é só escolha que nasce do nada,
é história encarnada, é memória guardada,
é mesa, é livro, é voz que foi ensinada,
é marca sutil que distingue a jornada.

E no jogo da vida, tão sutil quanto duro,
há regras ocultas que desenham o futuro,
uns jogam com mapas, outros no escuro,
uns têm horizonte, outros só o muro.

Há nomes que pesam sem nunca tocar,
verdades vestidas no simples falar,
o mundo se impõe sem se anunciar,
e o falso se firma no modo de olhar.

Na fala mais fina, no tom natural,
se esconde um comando sutil, desigual,
que ordena o possível, define o normal,
e chama de justo o que é desigual.

Há forças que agem sem rosto ou punho,
que moldam destinos no próprio rascunho,
fazendo do dado um acordo tacanho,
onde o dominado sustenta o estranho.

Ainda assim pulsa, sob o peso e a forma,
uma força que insiste, que rompe a norma,
pois mesmo no dado, há quem se transforma,
e reinventa o mundo que antes o conforma.

Mas quando o sentido começa a ceder,
e aquilo que era deixa de ser,
rompe-se o encanto do “deve ser”,
e o mundo se abre em outro dizer


Luany de Macedo Nascimento 14/04/2026

Amar o fardo é não querer desvio, 
é desejar o que a vida ofertou.
Beber do caos como um licor tardio
e ver beleza  onde o tempo errou. 

É dizer "sim" à pedra no caminho,
ao contratempo, à face do revés.
Buscar sentido em meio ao desalinho,
Fazer do peso impulso para os pés.

Não há rancor em quem conhece o laço
que une erro à tessitura exata.
O que parece ruína ou embaraço
é o fio condutor que a razão resgata.

Amor Fati é força que se aprende
na aceitação do tempo e sua lei.
A alma livre, enfim, não mais se rende,
pois sabe amar também até o que não veio. 

Luany de Macedo Nascimento, 12/04/2026

O tempo não passa. Ele me atravessa. Sinto como se ele escorresse por dentro de mim, como uma presença que não se vê, mas que altera tudo o que toca. Às vezes é leve, quase imperceptível, como um sopro que apenas desloca o ar ao redor. Outras vezes, pesa. Se acumula nos ombros, nos olhos, na forma como eu lembro e naquilo que já não consigo mais esquecer. E sigo, com essa estranha sensação de que estou sempre um pouco atrasada para a minha própria vida.

Há dias em que acordo acreditando que tudo ainda está por acontecer. Como se existisse um momento exato em que tudo finalmente faria sentido. Nesses dias, caminho com uma espécie de esperança silenciosa, como quem aguarda algo sem saber exatamente o quê. Mas então o tempo se move, e o que parecia "promessa" começa a se dissolver.

As certezas perdem contorno. Os planos deixam de parecer tão firmes. E eu percebo que muitas das coisas que eu jurava que seriam para sempre já não cabem mais em mim. É como se eu tivesse sido feita de versões que vão ficando pelo caminho, pedaços de uma identidade que já não me define, mas que ainda ecoa em algum lugar dentro de mim.

Eu olho para trás e não vejo uma linha contínua. Vejo fragmentos. Momentos intensos que perderam a nitidez, escolhas que já não sei explicar, sentimentos que um dia foram absolutos e hoje parecem distantes, quase pertencentes a outra pessoa. E ainda assim, fui eu. Inteiramente eu. Existe uma estranha beleza nisso.

A ideia de que eu nunca fui fixa, nunca fui definitiva. De que estou sempre em processo, sempre me tornando algo que ainda não sei nomear. Mas junto com essa beleza, existe também um certo desconforto. Uma inquietação que não me abandona, como se eu estivesse constantemente me reconstruindo sem nunca chegar a uma forma final. E talvez não exista forma final.

Talvez a vida não seja sobre alcançar um estado de plenitude, mas sobre sustentar esse movimento contínuo entre o que fui, o que sou e o que ainda posso ser. Talvez o tempo não esteja me levando a algum lugar específico, mas apenas me transformando, camada por camada, até que eu já não reconheça completamente o início de mim.

Há momentos em que tudo desacelera. E nesses instantes raros, eu sinto uma espécie de presença absoluta. Como se o agora se expandisse e ocupasse todo o espaço possível. Não há passado me puxando nem futuro me exigindo. Só esse instante, denso e silencioso, onde eu existo sem precisar justificar nada. E é curioso como esses momentos, tão pequenos, parecem conter mais verdade do que todos os grandes planos que já fiz. Mas eles passam.

E eu volto a esse fluxo inquieto, a essa sensação de que estou sempre tentando alcançar algo que se move junto comigo. É como correr atrás do próprio reflexo. Quanto mais eu avanço, mais se afasta, e ainda assim, eu continuo correndo.

Há em mim uma vontade quase ingênua de permanência. De fazer com que certas coisas durem mais do que deveriam. Pessoas, sentimentos, versões de mim mesma. Eu me apego como quem tenta desafiar o inevitável, como se o tempo pudesse, por um instante, hesitar diante do meu desejo. Mas ele não hesita.

E talvez seja justamente isso que o torna tão verdadeiro. O fato de que ele não se dobra, não negocia, não se explica. Ele apenas segue, indiferente às minhas tentativas de retenção, às minhas pausas internas, aos meus silêncios carregados de significado. E então eu começo a perceber que não sou apenas alguém que vive no tempo, eu sou também aquilo que sente o tempo.

Sou o lugar onde ele deixa marcas, onde ele se transforma em memória, em saudade, em aprendizado. Sou o espaço onde o instante deixa de ser apenas um ponto e se torna experiência. E isso me desloca. Porque, se o tempo me atravessa, eu também o modifico ao senti-lo. Talvez seja isso. Não deter o tempo, mas dar a ele uma forma íntima. Transformar o que passa em algo que permanece de outro modo. Não como matéria, não como presença concreta, mas como sentido. Como aquilo que, mesmo depois de ter ido embora, ainda continua habitando em mim.

Mas há também um outro chamado, mais silencioso do que todos os outros. Uma espécie de convite quase esquecido: o de viver com intenção. De não deixar que os dias se acumulem apenas como tarefas cumpridas, mas como algo realmente vivido. De recusar, mesmo que discretamente, essa vida automática que se constrói sem que a gente perceba.

Porque existe um risco quase invisível em se acostumar. Em aceitar o ritmo imposto, em adiar a vida para depois, em preencher os dias com o que é esperado, mas não necessariamente sentido. E quando se percebe, já não se sabe exatamente quando foi que se começou a apenas passar pelos dias em vez de habitá-los.

Talvez por isso exista essa necessidade de simplificar por dentro. De escutar com mais atenção o que ainda pulsa, o que ainda insiste, o que ainda pede espaço. Não para fugir do mundo, mas para não se perder completamente nele. Para que a vida não se torne apenas uma sequência de obrigações bem executadas, mas uma experiência que, de fato, nos atravessa de volta.

Eu sigo com minhas dúvidas que nunca cessam completamente. Com minhas certezas frágeis que insistem em surgir. Com essa vontade quase teimosa de fazer da minha existência algo que não seja apenas passagem. Algo que, mesmo sendo transitório, tenha peso, tenha profundidade, tenha verdade.

Porque no fundo, o que me inquieta não é o fato de o tempo passar. É a possibilidade de eu passar por ele sem realmente ter estado aqui. E isso me visita como um pressentimento. Não como um medo imediato, mas como uma ideia silenciosa que cresce nos cantos da consciência. A imagem de um fim onde tudo se aquieta, onde as perguntas cessam não porque foram respondidas, mas porque já não há mais tempo para fazê-las. E nesse possível fim, o que me assombra não é o vazio, nem a ausência, mas uma constatação tardia e irreversível:  a de ter atravessado os dias sem ter realmente vivido.

De ter me ocupado tanto em alcançar, em corresponder, em esperar o momento certo, que deixei escapar o único tempo que existia, aquele que acontecia enquanto eu adiava. De ter confundido intensidade com pressa, sentido com expectativa, vida com preparação. E então compreendo que o perigo nunca foi o tempo acabar, o perigo sempre foi eu não ter acontecido dentro dele. Por isso, agora, ainda aqui, ainda em movimento, eu tento.

Não mais segurar o tempo, mas habitá-lo. Não mais esperar por um instante ideal, mas reconhecer o que pulsa neste exato momento. Porque talvez viver não seja encontrar um grande sentido final, mas impedir que, no último instante, reste apenas o silêncio de quem percebe, tarde demais, que passou pela vida como quem apenas assistiu. E eu não quero apenas assistir! Eu quero, mesmo que imperfeitamente, ter estado aqui.


Luany de Macedo Nascimento

Há um movimento silencioso no sujeito que recolhe o olhar e retorna para aquilo que antes chamava de divino. Ao se aproximar, porém, já não encontra uma presença distante, mas um vestígio íntimo, quase familiar. Não é um espelho nítido, é uma superfície antiga, marcada por camadas de desejo, medo e esperança que, ao longo do tempo, foram sendo depositadas sem que se percebesse. O que parecia vir de fora começa, então, a revelar uma origem mais próxima, como se o céu nunca tivesse sido um lugar, mas uma extensão sensível da própria interioridade.

Nesse movimento, a adoração perde sua direção e se transforma em reconhecimento. Aquilo que se atribuía ao absoluto, a bondade sem limites, a justiça perfeita, o amor que não falha, deixa de habitar um além inacessível e retorna, silenciosamente, como possibilidade ainda não assumida. Já não há distância entre quem contempla e aquilo que contempla. O que antes era reverenciado agora é presença. E, junto com essa proximidade, nasce uma responsabilidade mais profunda, quase incômoda, porque aquilo que se esperava de uma instância superior passa a pedir corpo, gesto e decisão. Passa a ser humano.

Mas esse retorno não acontece sem ruptura. Quando o fundamento externo se desfaz, o que resta não é imediatamente liberdade, mas vertigem. As antigas certezas, sustentadas por promessas de sentido, começam a ceder, e o chão que parecia firme revela sua instabilidade. O mundo deixa de oferecer respostas prontas, e o ser humano se percebe diante de uma liberdade que não escolheu, mas que não pode recusar. É uma liberdade que pesa, porque já não há para onde transferir o encargo de existir.

Diante disso, há quem tente reconstruir antigas imagens, como quem busca abrigo no que já não sustenta. Há também quem desvie o olhar, como se não ver pudesse restaurar alguma segurança perdida. Mas há aqueles que permanecem. Que suportam o vazio sem apressar respostas. Que aceitam o desconforto de não encontrar um sentido dado e, ainda assim, não recuam. Para esses, a ausência não é apenas perda, é também abertura. Se nada foi garantido, então tudo precisa ser criado. Se nenhum valor foi assegurado, então cada valor precisa ser afirmado, não como consolo, mas como escolha sustentada.

Pouco a pouco, o gesto de se curvar vai cedendo lugar ao de se erguer. Não por orgulho, nem por uma certeza recém-descoberta, mas por compreender que não há outro lugar de onde possa vir aquilo que se busca. A grandeza antes projetada para além começa a insinuar-se como potência ainda não vivida. E, em vez de procurar amparo no que transcende, o olhar se volta para aquilo que ainda pode se tornar.

Não é um caminho sereno. Há nele uma solidão que não se dissolve, uma ausência de garantias que acompanha cada passo, um encontro constante com a própria insuficiência. Mas há também algo raro, quase silencioso, que nasce nesse espaço. A possibilidade de existir sem apoios invisíveis, de afirmar a vida não porque ela foi prometida como boa, mas porque, apesar de tudo, se escolhe habitá-la e dar-lhe forma.

Ainda assim, quem vive assim costuma ser atravessado por olhares que não compreendem. Há uma desconfiança sutil, como se lhe faltasse algo essencial, como se sua vida estivesse condenada a um vazio inevitável. Confunde-se facilmente a ausência de uma referência externa com ausência de sentido, como se o valor só pudesse vir de fora. Mas o que não se vê é o peso silencioso que essa forma de existir carrega. Sem absolvição pronta, sem promessa de reparo, cada gesto se torna mais denso. Cada escolha, mais irreversível. E talvez seja isso que inquieta. Não a falta de um céu, mas a presença de alguém que, mesmo sem ele, permanece de pé, sustentando, com as próprias mãos, aquilo que decide viver.

Talvez, no fim, não se trate de negar o céu, mas de perceber que ele nunca esteve onde se imaginava. E que, ao retirar os olhos do alto, revela-se algo mais exigente e mais íntimo, a tarefa de habitar, sem desvios, a própria condição humana.

E então resta uma pergunta que não se deixa calar, que insiste mesmo no silêncio. Quando não há testemunhas invisíveis, quando nenhuma promessa nos observa, o que ainda nos move? O que sustenta a bondade, a justiça, a dignidade, quando nada nos assegura retorno? Nesse ponto, tudo se torna mais nu. Já não se trata de obedecer, mas de responder. Já não se trata de esperar, mas de assumir. E, nesse deslocamento, a vida deixa de ser conduzida por uma esperança futura e passa a ser atravessada por uma ação presente. Talvez isso seja algo profundamente inquietante e, ao mesmo tempo, intensamente humano que se revela. A possibilidade de que o valor de uma vida não esteja em seguir uma verdade eterna, mas em ser capaz de sustentar, no próprio existir, os valores que se tem a coragem de reinventar.

Luany de Macedo Nascimento, 07/04/2026