Há um frio existente em meu ser,
que gela tudo ao redor;
há uma dor que me faz padecer,
e torna meu peito ainda mais só.

Há uma frieza escondida em meu peito,
que cobre de cinzas meu coração;
e tudo que sinto perde o seu jeito,
morrendo em silêncio na escuridão.

Quisera chorar tudo aquilo que sinto,
dar fim ao tormento que insiste em ficar;
mas guardo no peito o meu grito indistinto,
e os olhos se negam, teimosos, a chorar.

Há noites em que imploro à lua distante
que leve consigo a minha aflição;
mas ela contempla, tão fria e constante,
o pranto escondido em meu coração.

Quisera que a lágrima enfim encontrasse
o rosto cansado de tanto sofrer;
que toda a tristeza de mim se soltasse,
antes que eu me esqueça de como viver.

Mas nada escorre por meus olhos cansados,
embora meu peito implore por dor;
meus prantos permanecem todos trancados,
morrendo em silêncio, sufocados de amor.

E quanto mais tento arrancar o que sinto,
mais fundo se esconde a minha aflição;
transformo em silêncio o grito infinito,
que há muito aprisiono dentro do coração.

Talvez minha frieza não seja desprezo,
talvez seja apenas temor de sentir;
talvez seja o preço, terrível e aceso,
de tudo que amei e não pude impedir.

Por isso me calo, me isolo, por isso não choro,
por isso meu rosto conserva o vazio;
por dentro, em segredo, ainda imploro,
enquanto por fora me cubro de frio.

Se um dia meus olhos chorarem, enfim,
talvez minha alma consiga descansar;
talvez toda a dor que habita em mim
encontre nas lágrimas onde repousar.

Houve um jardim onde aprendi a existir,
vestindo de calma a feroz escuridão;
mas a cura partiu sem sequer se despedir,
e deixou-me sozinha diante da imensidão.

A noite desceu sobre o osso e a pele fria,
como um véu costurado de névoa e carvão;
cada estrela morria naquilo que eu dizia,
cada prece voltava sem encontrar perdão.

Veio o lítio, austero, mineral soberano,
sepultando as marés que habitavam meu ser;
fez do caos um silêncio profundo e insano,
onde até minha dor parecia esquecer.

Mas o mesmo cristal que selava o abismo
fez da carne um relicário de febril languidez;
meu equilíbrio tornou-se um frágil cinismo,
como um vitral rachado por sua própria lucidez.

Minha boca era sal, era inverno, era cinza,
desfazendo-se lenta em silenciosa aflição;
cada beijo tornava-se amarga carniça,
cada palavra sangrava dentro da solidão.

Minha vista vestia cortinas de breu,
e o chão dissolvia seu antigo rigor;
eu caía em mim mesma, distante do céu,
como um lírio vergado pelo excesso da dor.

Então cessei os remédios. E o vazio sorriu.
Não ouvi despedidas, nem promessas de paz;
só o eco das sombras que enfim consentiu
que a antiga tormenta voltasse voraz.

Meu cérebro, órfão da química serena,
fez da insônia um castelo de pedra e marfim;
cada nervo cantava uma marcha pequena,
conduzindo o inverno para dentro de mim.

Dormir tornou-se um país que perdi,
acordar era sempre um funeral sem altar;
cada aurora dizia que eu ainda vivi,
mas meu peito recusava a arte de respirar.

Os espelhos, piedosos, desviavam o olhar,
como monges cansados diante da aflição;
pois nenhuma beleza consegue ocultar
o lento apodrecer de um aflito coração.

Se Byron colhesse esta rosa sem cor,
reconheceria nela o perfume do fim;
não pisaria as pétalas, por mero pudor,
pois saberia que elas floresceram em mim.

Há tristezas antigas que jamais têm repouso,
feito heras abraçando colunas em ruína;
elas fingem dormir sob um manto piedoso,
até que a ausência desperte sua fome assassina.

E, se um dia encontrarem meu nome gravado,
entre lápides frias e ciprestes sem voz,
não digam que fui apenas um sonho quebrado;
digam que lutei contra uma noite feroz.

Porque fui mulher feita de sangue e de sal,
atravessando o inverno sem jamais florescer;
e aprendi que o silêncio é um rito final,
quando a alma se cansa, mas insiste em viver.


Luany de Macedo Nascimento, 26/07/2026


Aprendi a escrever com as mãos vazias,
Como quem varre o quintal depois da chuva.
Nunca procurei palavras extraordinárias;
Bastava uma que ainda respirasse.

Há dias em que o papel me reconhece
Antes mesmo que eu me encontre.
Então me sento diante do papel em branco
Como quem retorna à casa depois de muito tempo.

Escavo o silêncio sem pá nem enxada.
É a memória quem revolve a terra,
E eu apenas recolho os pedaços
Que insistem em sobreviver ao esquecimento.

Algumas frases chegam mancando,
Outras trazem perfume de café recém-passado.
Há também as que entram sem pedir licença,
Como o vento que conhece todas as frestas.

Escrever nunca curou minhas ausências.
Mas lhes deu um nome,
E às vezes basta nomear uma dor
Para que ela deixe de ser estrangeira.

Quando a última palavra repousa na página,
Não me sinto maior nem mais leve.
Apenas devolvo ao mundo
Aquilo que ele sussurrou em mim.


Luany de Macedo Nascimento, 09/07/2026


Escrevo onde a luz se desfaz,
No barro antigo de um silêncio sem fim;
Cada palavra retorna e me refaz,
Como um segredo escondido dentro de mim.

Escavo o tempo com mãos de solidão,
Lavando as pedras da memória ferida;
Toda lembrança repousa no coração,
Esperando o sopro discreto da vida.

Há fósseis vivos dormindo na poeira,
Fragmentos que o esquecimento não venceu;
Cada verso levanta uma fronteira,
Entre quem fui e quem ainda sou eu.

Quando termino, não encontro respostas,
Nem ouro raro escondido sob o chão;
Apenas marcas, cicatrizes expostas,
Provando que escrever também é escavação.

Luany de Macedo Nascimento 09/07/2026

Mandaram ao vento aprender contenção,
E às janelas fechar-se antes da luz;
Até os pássaros, em triste aflição,
Voavam baixo, fugindo da cruz.

Nas praças, os bancos guardavam segredos,
Conversas que o medo deixou sem final;
As palavras passaram a andar descalças,
Com medo do barulho dos próprios passos.

Havia olhos presos ao chão abatido,
Não por virtude, mas para viver;
Quem trazia a verdade consigo escondido,
Aprendeu em silêncio a seu bolso coser.

Mesmo assim, havia sementes guardadas,
Sob a terra endurecida a esperar;
Permaneciam no escuro caladas,
Confiando no tempo para germinar.

Nenhuma noite se faz infinita,
Nem consegue impedir a manhã de nascer;
Toda muralha, por mais que resista,
Cede às raízes que insistem crescer.

Quando o primeiro canto voltou ao caminho,
Não surgiu como um grito feroz ou cruel;
Veio sereno, devolvendo o carinho,
E ao mundo entregando novamente o céu.

Desde então, cada palavra liberta,
Guarda a memória do que se calou;
E todo silêncio imposto e de porta entreaberta,
Já nasce vencido por quem nunca cessou.

Luany de Macedo Nascimento 08/07/2026