vestindo de calma a feroz escuridão;
mas a cura partiu sem sequer se despedir,
e deixou-me sozinha diante da imensidão.
A noite desceu sobre o osso e a pele fria,
como um véu costurado de névoa e carvão;
cada estrela morria naquilo que eu dizia,
cada prece voltava sem encontrar perdão.
Veio o lítio, austero, mineral soberano,
sepultando as marés que habitavam meu ser;
fez do caos um silêncio profundo e insano,
onde até minha dor parecia esquecer.
Mas o mesmo cristal que selava o abismo
fez da carne um relicário de febril languidez;
meu equilíbrio tornou-se um frágil cinismo,
como um vitral rachado por sua própria lucidez.
Minha boca era sal, era inverno, era cinza,
desfazendo-se lenta em silenciosa aflição;
cada beijo tornava-se amarga carniça,
cada palavra sangrava dentro da solidão.
Minha vista vestia cortinas de breu,
e o chão dissolvia seu antigo rigor;
eu caía em mim mesma, distante do céu,
como um lírio vergado pelo excesso da dor.
Então cessei os remédios. E o vazio sorriu.
Não ouvi despedidas, nem promessas de paz;
só o eco das sombras que enfim consentiu
que a antiga tormenta voltasse voraz.
Meu cérebro, órfão da química serena,
fez da insônia um castelo de pedra e marfim;
cada nervo cantava uma marcha pequena,
conduzindo o inverno para dentro de mim.
Dormir tornou-se um país que perdi,
acordar era sempre um funeral sem altar;
cada aurora dizia que eu ainda vivi,
mas meu peito recusava a arte de respirar.
Os espelhos, piedosos, desviavam o olhar,
como monges cansados diante da aflição;
pois nenhuma beleza consegue ocultar
o lento apodrecer de um aflito coração.
Se Byron colhesse esta rosa sem cor,
reconheceria nela o perfume do fim;
não pisaria as pétalas, por mero pudor,
pois saberia que elas floresceram em mim.
Há tristezas antigas que jamais têm repouso,
feito heras abraçando colunas em ruína;
elas fingem dormir sob um manto piedoso,
até que a ausência desperte sua fome assassina.
E, se um dia encontrarem meu nome gravado,
entre lápides frias e ciprestes sem voz,
não digam que fui apenas um sonho quebrado;
digam que lutei contra uma noite feroz.
Porque fui mulher feita de sangue e de sal,
atravessando o inverno sem jamais florescer;
e aprendi que o silêncio é um rito final,
quando a alma se cansa, mas insiste em viver.
Luany de Macedo Nascimento, 26/07/2026
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