Os dias deslizam entre caixas marcadas,
nomes difíceis, doses contadas.
Engulo promessas de alguma constância,
mas sinto na boca o gosto da ânsia.

Manhãs pesadas, engulo o silêncio,
Bupropiona e Lítio me prendem no tempo.
À noite, Sertralina apaga memórias,
Rivotril me apaga, sou sombra, sou vento.

Subo no trilho da euforia sem freio,
o mundo é meu, até ser devaneio.
Despenco no abismo sem ter quem segure,
o corpo implora, mas a alma não jura.

De olhos abertos, mas sempre fechados,
procuro um sentido entre sonhos rasgados.
A vida se arrasta num ciclo sem cor,
cansada demais pra sentir qualquer dor.

E se um dia eu jogar tudo ao chão?
Se rasgar receitas, negar prescrição?
Talvez me liberte, talvez me desfaça,
mas que diferença faz, se já sou só fumaça?


A mente é um furacão sem freio,

um raio cortando o céu da razão,  

ideias fervilham, correm em meio  

ao caos sem pausa, sem direção.  


No alto, sou luz, sou fogo, sou vento,  

palavras dançam sem eu perceber,  

o mundo é rápido, é puro invento,  

ninguém me alcança, não há porquê.  


Mas vem a queda, crua e fria,  

no peito o peso de mil abismos,  

os dias são névoa, noite vazia,  

e eu me perco em meus próprios ismos.  


O corpo é âncora na tempestade,  

pesado, inerte, afundando em si,  

presa do tempo, da gravidade,  

silêncio que grita: "fica aqui".  


Serotonina, dopamina, noradrenalina,  

tudo em uma dança que move meu ser.  

Pra mania, sou chama que nunca declina,  

pra depressão, sou sombra a se esconder.  


Neurotransmissores, hormônios, tudo biológico,  

mas há quem diga que é frescura ou falta de querer.  

Como se a dor fosse um ato ilógico,  

e não um fardo que eu nunca quis ter.  


E assim eu oscilo, entre céu e abismo,  

sem chão que me prenda, sem ar pra voar,  

prisioneira do próprio mutismo,  

refém de mim mesma, sem me alcançar.



Venho por meio da escrita
para liberar o tudo que sinto,
Mas sinto tantas coisas
Que me perco entre as linhas.

A tristeza me veste em silêncio,
um véu frio sobre a pele cansada,
e a apatia arrasta meus passos
como folhas secas na estrada.

Os dias pesam em meus ombros,
nublados, sem cor, sem sentido.
O tempo escorre entre os dedos,
como um sonho já esquecido.

Há um abismo dentro do peito,
ecoando vazio e solidão.
Um grito preso na garganta,
sem voz, sem rumo, sem razão.

E mesmo que a escuridão me abrace,
meu coração ainda pulsa, ainda chama.
Pois onde há amor, há esperança,
e uma chama pequena ainda inflama.


 A solidão não chega, ela se infiltra.

Arrasta-se como neblina sobre a alma,

entra sem pedir licença,

habita os intervalos do dia,

recosta-se ao meu lado

mesmo quando o mundo insiste em parecer cheio.

É presença que não fala,

é a companhia que não consola,

a sombra que me escolheu

e jamais se afasta.


A tristeza não me visita:

ela mora em mim.

É antiga, é íntima, é fiel.

Não se faz apenas de lágrimas,

mas de um cansaço que ultrapassa o corpo e adoece o existir.

Cansaço de ser forte

num mundo que idolatra a dureza,

enquanto tudo em mim suplica por repouso.

Ela não passa, ela se deposita.

Camada sobre camada,

até que respirar deixa de ser natural

e passa a ser resistência.


Apontam-me um deus.

Erguem-no diante de mim

como se fosse resposta.

Dizem: “Acredite”,

com a facilidade de quem nunca tocou o vazio.

Mas onde está esse deus que proclamam?

Não o encontro nos dias longos

que sangram lentamente,

nem nas noites em que me perco

procurando sentido entre escombros.

Se existe, está ausente.

E se observa, não intervém.

Não acredito em deuses, entidades ou promessas celestes.

Minha dor não encontra altar,

minha angústia não encontra salvação.

Estou só e lúcida demais para fingir fé.


E os outros…

onde estão os que juraram estar ao meu lado?

Os que oferecem presença

apenas com a boca.

As palavras dizem “estou aqui”,

mas os gestos se calam,

e o silêncio revela a verdade nua:

estou só entre muitos.

Aprendi, com amargura,

que a solidão também pode ser coletiva

estar cercada

e ainda assim abandonada.


Ah, como eu queria não ter crescido.

Não por nostalgia pueril,

mas por exaustão de consciência.

Crescer foi aprender demais sobre o mundo,

sobre suas normas sufocantes,

suas exigências cruéis,

sua incapacidade de acolher

quem sente fundo demais.

Crescer foi descobrir

que não há lugar para os excessivos,

para os que transbordam dor,

para os que não cabem nas formas prontas.

Crescer foi perder o direito à fragilidade

e ainda pedir desculpas por ela.


Se houvesse escolha,

eu teria ficado à margem do tempo,

num ponto esquecido da existência,

onde ainda era permitido ser

sem justificar-se.

Onde não era necessário parecer inteira

quando tudo em mim desmorona.

Onde a ruína não precisava ser escondida,

onde a dor podia existir

sem ser corrigida.


Sou feita de escombros,

de lucidez e de ausência.

E talvez essa seja

minha mais trágica fidelidade à vida.



Naquela tardezinha, o mundo pesava demais,
E eu só queria que a dor cessasse, enfim.
Não era a vida que eu queria deixar pra trás,
Era o sofrimento, gritando dentro de mim.

Na penumbra serena, caixas empilhadas,
Psicoativos, parei de contar no setenta e oito.
Na esperança de calar feridas 
Tentei silenciar o caos, sem alarde, sem açoite.

Engoli o silêncio em formas e doses,
Ansiando por paz, por um descanso breve.
Não por ausência, mas por horas menos atrozes,
Menos agudas, menos tristes, menos febris.

Era março, e o tempo parou no chão,
Entre batidas fracas do coração e a escuridão.
Meu corpo, cansado, buscava perdão,
Enquanto a alma afundava em negação.

Não fui covarde, nem busquei o escuro,
Fui só alguém cansada de insistir.
Queria um alívio, mesmo que não fosse seguro,
Só um intervalo pra poder existir.

E hoje carrego cicatrizes caladas,
Não como culpa, mas como sinal:
Sobrevivi às tardes mais sombrias e geladas,
E sigo, mesmo que sem final ideal.