Quando tua mão repousa sobre a minha,
Sinto o universo inteiro tão pequeno,
Perdido na alvorada que se aninha.

Teu riso é melodia que embriaga,
Mais doce que o luar sobre as roseiras,
E o mundo, essa tormenta que se apaga
Se curva à paz das nossas brincadeiras.

Oh, vida! Que esplendor na flor singela
Que juntos colhemos na manhã dourada;
O pão, café, a mesa tão singela,
São tronos de um reinado em madrugada.

E se o tempo ousar passar com dor,
E o outono desfolhar nossos sorrisos,
Que ele leve o mundo e todo ardor,
Mas nunca os nossos sonhos precisos.


Na casa pequena, o sol se derrama,
Pelas frestas dança sem pedir licença.
Um cheiro de pão, café e quem ama
Preenche o tempo com leve presença.

O riso da filha ecoa na sala,
Enquanto a mãe penteia o amanhã,
E o pai, com calma que nunca se exala,
Guarda o silêncio como quem tece lã.

Papéis no chão, lápis de colorir,
A filha desenha tudo o que vê,
Um sol, um gato, um céu a expandir,
Na ponta leve do lápis e do porquê.

E quando a noite pousa devagar,
Três corpos se encostam, puro calor.
Ali mora o encanto de habitar
O mesmo instante, no mesmo amor.


 

Minh’alma é pálida... é triste... é solitária...
Como um cipreste ao vento do cemitério.
Carrega o frio de uma névoa funerária
E o sonho morto de um amor etéreo.

A vida? Um livro em páginas rasgadas,
Um riso falso entre soluços vãos...
E minhas noites, longas, desmaiadas,
São como preces lançadas aos grãos.

Oh! quantas vezes, no silêncio amigo,
Senti-me a sombra do que fui outrora...
Um vulto errante, sem abrigo,
Como quem vive e lentamente chora...

Talvez, um dia, ao fim desta agonia,
Encontre paz, no túmulo, talvez.
Pois só na morte o coração alivia
A dor que a vida não matou de vez.

 

Amar é luz que brota sem medida,
É vento manso em tarde de calor,
É ter no peito a dança mais sentida,
É flor que nasce mesmo em dissabor.

É gesto simples, puro, sem vaidade,
É mão que toca sem querer possuir,
É se doar com leve intensidade,
É construir sem medo de cair.

Amar é ver no outro o próprio espelho,
E mesmo assim, querer multiplicar,
É ser abrigo, paz e ser conselho,
É caminhar sem nunca se afastar.

E quando o amor floresce em silêncio,
Sem grito ou pressa pra se revelar,
É como céu que azul se faz imenso:
É vida em paz, é dom de se entregar.


Na infância, o grito era chama acesa,
"Formiga contra elefante",
Destemida, fui pimentinha em brasa,
Desafiando a vida, mesmo na ameaça.

Na adolescência, o sono virou espera,
Três horas por noite, a mente sincera.
Livros, poesias, vozes em segredo,
Rabiscavam minha dor e meu medo.

As cicatrizes, marcas do que calei,
Em silêncio, nos cortes me expliquei.
Na pele, desenhei o que ninguém via,
Buscando alívio na dor que ardia.

Psiquiatras, diagnósticos e medos,
Entre surtos e remédios, meus enredos.
Tentei voar, mesmo sem ter chão,
Mas a queda me trouxe mais compreensão.

Fui "maluca beleza", como Raul cantou,
E em meio à loucura, a coragem brotou.
Entre delírios e noites em claro,
Minha alma pedia um rumo mais claro.

A gravidez foi luz, mas também tormenta,
Chorava baixinho, com alma sedenta.
Nicolle, meu sol, meu recomeçar,
A razão que me fez continuar.

Hoje entendo quem sou, meu papel,
intensa, céu, inferno e fel.
O TAB não me define, é só parte de mim,
Sou poema inacabado, flor no capim.

Não sou laudo, nem rótulo, nem sentença,
Sou mulher, sou mãe, sou resistência.
Na gangorra da mente, sigo a bailar,
Mas agora com sabedoria pra me equilibrar.