A vida não se explica, apenas pulsa,
entre o riso breve e a dor imprecisa,
há um ritmo interno que nunca se avulsa,
entre a chegada súbita e a dor que avisa.

Ser quem se é, delícia e ferida aberta,
é aprender a existir sem direção,
caminhar numa estrada sempre incerta,
sem promessas firmes, sem proteção.

Há anos que pesam como noites extensas,
e 2025 trouxe aspereza ao viver,
dias duros, de batalhas imensas,
em que a mente cansou de se conter.

Ainda assim segui, não por valentia,
mas porque viver insiste em ficar,
há uma força discreta que se anuncia,
quando tudo parece desabar.

E no meio do caos, havia mãos,
um afeto simples que não faz ruído,
amor que sustenta em suaves razões,
mesmo quando tudo parece perdido.

O amor de uma filha que ilumina o dia,
o cuidado constante de um companheiro,
pequenas alegrias em leve harmonia,
que enchem de sentido o vazio inteiro.

Encerrar o ano é também aceitar,
sou feita de força e contradição,
de quedas que ensinam a recomeçar,
e de fragilidades em composição.

Celebro a vida em sua forma imperfeita,
contrária, instável, mas ainda assim viva,
sigo adiante, mesmo sem receita,
pois amar é a força que me motiva.


Luany de Macedo Nascimento

Levantar da cama todos os dias não é rotina. É milagre. Mas não desses que se contam em igrejas ou se agradecem de joelhos. É um milagre torto, cheio de rachaduras. Um milagre feito de teimosia e de lágrimas silenciosas, derramadas antes mesmo do sol nascer.

O que as pessoas veem, esse levantar, esse cumprir tarefas, esse falar com naturalidade, não é saúde. É sobrevivência. É um tipo de atuação crua, onde o palco é o mundo e o bastidor é um quarto escuro, cheio de pensamentos que não dão trégua.

Não sou forte. E preciso que parem de achar que sou.

Não há nobreza em se arrastar de volta à vida quando tudo em mim pede para desistir. Não há beleza em costurar-se toda noite, apenas para não assustar os outros pela manhã. As pessoas dizem: “Se fosse eu, não conseguiria.” Mas o que elas não entendem é que eu também não consigo, eu só vou. Eu só continuo seguindo, porque assim preciso. Não porque posso, mas porque parar de tentar seria sumir de vez. E apesar da dor, ainda há algo em mim que se agarra ao que resta.

Todos os dias, algo morre em mim. Uma esperança. Uma ideia. Um sonho. E ainda assim, me levanto. Não porque sou feita de ferro. Pelo contrário: sou feita de carne. Carne que sangra, que cansa, que treme. Mas que também sente. E, por sentir, ainda encontra alguma coragem pra seguir. Mesmo que seja cambaleando.

Ao contrário do que costumo ouvir, não sou uma vencedora. Sou alguém que ainda luta muito pra simplesmente ficar de pé. Não venci nada, estou no meio da batalha. Sou como um gladiador em sua arena, coberto de cicatrizes, exausto, enfrentando um inimigo que vive dentro de mim. Essa arena é a minha mente. E ela me manipula, me testa, me desafia a cada pensamento que sussurra desistência.

Não tenho armaduras douradas. Não tenho escudos impenetráveis. Só tenho uma ferramenta: a coragem de continuar. Principalmente por aqueles que amo. Por minha filha, que é chão, luz e razão. Ela merece de mim o melhor possível, mesmo quando o melhor que posso oferecer é apenas mais um dia. Mais uma tentativa.

A cada queda, a cada crise, me remonto com o que sobrou. Não há manual. Não há luz divina. Há só esse gesto quase absurdo de continuar tentando. Meus cacos já não se encaixam como antes. Há partes de mim que ficaram pra trás. Há espaços vazios que talvez nunca se preencham. Mas ainda assim, sou.

Não sou uma vitrine de superação. Sou resistência do meu próprio ser. Um corpo que insiste em se manter habitado, mesmo quando tudo em mim grita pelo fim. Minha luta não é exemplo, é necessidade. É esse grito silencioso de quem não desiste de existir, mesmo quando viver parece doer mais que partir.

Se me levanto, não é porque sou inabalável. É porque, apesar de tudo, ainda há uma centelha, frágil, quase apagada que resiste.

E, enquanto houver essa pequena chama, eu continuo...


Luany de Macedo Nascimento

No início fui tímida, frágil no olhar,
tremendo em seminários, temendo falar,
mas o tempo, paciente, firmou minha voz,
fez da insegurança um caminho de nós.

Cada disciplina, com seu rigor,
não foi fardo e tampouco temor,
foi sempre horizonte, foi chão a plantar,
foi vida pulsando em saberes no ar.

Na travessia de torna-se professora,
um vir-a-ser tecido em encontros,
nos estágios brotaram bonitezas,
no afeto das crianças, sementes de doçura, mas também de firmeza. 

Conciliar foi luta e também ternura,
ser mãe e estudante em árduo caminho,
no abraço da filha encontrei doçura,
e nos estudos teóricos fui traçando meu destino.

Na reta final, um fantasma insistiu,
a depressão em mim se instalou e feriu,
mas firme fiquei, não deixei de lutar,
da Filosofia desisti, mas na Pedagogia quis ficar.

Sou ponte erguida, sou verbo a brotar,
sou professora em vir-a-ser,
como disse Freire, “inacabado eu sou”,
aprendo ensinando, é no outro que estou.

A história continua, sem ponto a deter,
sou ser inconclusa no ato de aprender,
na travessia sigo, em constante construção,
pois a educação que acredito é política: é poder de transformação!



 

Em mim habita Epimeteu,
mãos velozes, gesto sem previsão,
age antes mesmo que o tempo seja seu,
acende o risco sem calcular direção.

É a vertigem viva do excesso em chama,
o mundo possível na pressa do agora,
tudo se expande, tudo se inflama,
até que a queda se imponha sem demora.

Sem nome antigo que explique o declive,
o abismo surge em súbita condição,
é o corpo que falha, a mente que vive
o peso mudo da própria implosão.

Um peso denso que apaga o dia,
onde o fogo se cala sem reação,
a vida arrasta sua melancolia,
presa à gravidade da estagnação.

No raro instante em que o tempo se equilibra,
sou Prometeu em contenção,
fogo consciente que já não delira,
aprende o limite na própria razão.

É a fase neutra, difícil medida,
não o excesso, tampouco a privação,
é o ato sutil de sustentar a vida
sem se perder na oscilação.

E quando o vazio lentamente se instala,
surge Pandora sem curiosidade,
não há desejo, nem impulso que fala,
apenas silêncio e imobilidade.

Com a caixa aberta e os ruídos cessados,
resta um fundo que insiste em ficar,
nem dor nem pulso nos gestos calados,
um quase nada difícil de nomear.

A bipolaridade é travessia instável,
um eixo em constante reorganização,
remédios passam, efeito mutável,
o corpo reaprende em adaptação.

Busca-se o equilíbrio como quem se inclina,
sobre um fio tênue de sustentação,
um passo na lucidez que se disciplina,
outro à beira da dissolução.


Bakunin fala como quem desconfia do amanhã:
toda autoridade, mesmo a vermelha,
traz no bolso a semente da dominação.
Não existe Estado inocente,
nem ditadura pedagógica.
Quem governa em nome do povo
aprende rápido a governar contra ele.

Marx responde com a frieza da análise:
a liberdade não nasce do desejo,
mas da matéria.
Enquanto houver classes,
o poder não desaparece
apenas muda de mãos.
Negar o Estado sem abolir o capital
é confundir efeito com causa.

Bakunin retruca, incisivo:
abolir o capital com um novo Estado
é trocar o chicote de dono.
A burocracia não é acidente,
é consequência.
Toda vanguarda se autonomiza,
todo poder provisório cria raízes.

Gramsci entra com cuidado, mas firme:
o erro é pensar o poder
apenas como polícia e decreto.
O domínio se reproduz no consenso,
na linguagem,
no cotidiano aceito como natural.
Sem disputar a hegemonia,
a revolta se esgota no gesto.

Bakunin não cede:
hegemonia também é condução.
Quem dirige o pensamento
governa o corpo depois.
A liberdade não se ensina,
se exerce.
O povo não precisa de intérpretes,
precisa de condições.

Marx insiste:
a espontaneidade sem direção
serve ao inimigo.
O capital é totalidade,
organizado, internacional.
Enfrentá-lo exige estratégia,
não apenas negação.

Gramsci observa o impasse:
não há pureza fora da história.
Ou se constrói força coletiva,
ou se herda a força do adversário.
A questão não é evitar o poder,
mas impedir que ele se cristalize
em dominação.

Bakunin encerra, sem síntese:
todo poder cristaliza.
A revolução começa
quando ninguém manda
e ninguém obedece.
Se a liberdade espera a vitória final,
ela já foi adiada demais.

Silêncio.

Não há acordo possível.
Entre a abolição imediata
e a mediação histórica,
a fratura permanece aberta.

E talvez seja nela
que a política
revele seu limite.


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Nota de rodapé: 

Mikhail Bakunin (1814–1876) – Filósofo e revolucionário anarquista russo, pensador do século XIX. Desenvolveu uma crítica radical ao Estado, à autoridade e à religião, defendendo a abolição imediata de toda forma de dominação institucional. Sua obra mais conhecida, Deus e o Estado, escrita entre 1870 e 1871 e publicada postumamente em 1882, constitui uma das mais contundentes críticas ao poder político e à transcendência.

Karl Marx (1818–1883) – Filósofo, economista e pensador social alemão do século XIX, formulador do materialismo histórico-dialético e da crítica da economia política. Sua obra exerceu influência decisiva na constituição do pensamento sociológico e da teoria social crítica. Entre seus trabalhos centrais destacam-se O Manifesto do Partido Comunista (1848, com Friedrich Engels) e O Capital.

Antonio Gramsci (1891–1937) – Filósofo e teórico político marxista italiano do século XX. Desenvolveu o conceito de hegemonia para explicar a dominação para além da coerção econômica e estatal, enfatizando o papel da cultura, da ideologia e do senso comum. Suas reflexões estão reunidas nos Cadernos do Cárcere, escritos entre 1929 e 1935.