Minha pena conhece o tom formal;
Se escrevo livre, é porque assim escolhi,
Luany de Macedo Nascimento
Caro leitor, você mesmo que está agora me lendo, pare por um instante. Não passe os olhos por estas palavras como quem consome mais um texto qualquer. Leia como quem se coloca em risco. Pensar é isso. Um risco silencioso que começa quando a pergunta não pede permissão.
Você já percebeu como é fácil viver sem se dar conta de si? Os dias passam, as decisões se acumulam, e chamamos de escolha aquilo que muitas vezes foi apenas condicionamento. Ajustar-se ao mundo é mais seguro do que confrontá-lo.
Viver parece simples enquanto não pensamos demais. A dificuldade começa quando o pensamento insiste. Quando a pergunta não se cala. Quando a vida deixa de ser apenas rotina e passa a exigir sentido. Pensar é um ato perigoso. Quem pensa demais começa a perceber as rachaduras do mundo e, pior ainda, as próprias.
A maior parte das pessoas não vive, elas funcionam. Acordam, cumprem tarefas, repetem gestos, reproduzem discursos. Não por imaturidade, mas por exaustão. Pensar cansa! Questionar desestabiliza. É mais confortável aceitar as respostas prontas do que sustentar o peso de uma dúvida que não promete solução. Mas o preço desse conforto é alto: a anestesia de si.
Há uma fragilidade que todos carregam e quase ninguém admite. O medo de olhar para dentro e descobrir que muito do que somos é resultado de expectativas que não escolhemos. Ideias herdadas, valores emprestados, desejos fabricados. Chamamos isso de identidade, mas talvez seja apenas adaptação. Um modo de sobreviver sem incomodar demais.
O questionamento não consola. Ele cutuca. Ela arranca o chão e pergunta o que sustenta seus passos quando a certeza falha. Ele não quer saber se você está feliz, quer saber se você está acordado. Se consegue suportar a própria finitude, a própria incoerência, o fato desconcertante de que não há garantias. Nem de sentido, nem de permanência, nem de justiça.
Quantas decisões suas foram realmente escolhas e quantas foram respostas ao medo de não pertencer, de decepcionar, de ficar só? Quantas vezes você disse sim quando o corpo gritava não? Quantas vezes chamou de maturidade aquilo que, no fundo, era desistência?
Talvez o que mais nos assuste não seja a dor, mas o silêncio que surge quando paramos de nos enganar. Nesse silêncio, não há aplauso, não há validação, não há manual. Só você diante da pergunta que evita há anos. Quem é você quando ninguém está olhando? O que sobra quando os papéis caem?
Não responda depressa, caro leitor. Respostas rápidas costumam ser defesas. Fique um pouco na pergunta. Ela revela. Ela incomoda. Ela humaniza. E talvez seja justamente isso, nesse desconforto partilhado, que um diálogo honesto possa começar. Diga, querido leitor, você vive por escolha ou por hábito? E, se pudesse escolher agora, teria coragem de escolher diferente?
Luany de Macedo Nascimento, 08/01/2026
Fui, um dia, quase toda promessa em construção,
uma jovem entregue aos cantos doces da ilusão,
confundia delicadeza com alguma redenção,
e chamava de amor o que só vestia sedução.
Havia em mim uma esperança quase desmedida,
não por falta de ver, mas por excesso de querer,
era um brilho insistente sustentando a vida,
acreditando que o mundo saberia acolher.
Mas o mundo ensina com mãos duras e sem aviso,
e não há canto suave que impeça o naufragar,
há palavras que embalam como um falso paraíso,
preparando, em silêncio, o momento de afundar.
Entre quedas e reergueres, refiz meu próprio chão,
deixei de ser só sonho solto ao vento e indeciso,
hoje escolho caminhos com firmeza e direção,
não me guio por promessas, mas por aquilo que piso.
Sou mulher de chão firme, de presença e criação,
mãe que gera no corpo e sustenta com o olhar,
protejo enquanto ensino o voo e a expansão,
pois amar também é permitir que o outro vá.
Sou esposa por escolha, nunca por submissão,
é encontro que resiste no cotidiano vivido,
caminhar lado a lado sem perder a própria mão,
sem calar minha voz nem diluir meu sentido.
Sou pedagoga porque insisto na transformação,
acredito na sala, no gesto e no dizer,
ensinar nunca foi neutro, é tomada de posição,
é compromisso com o mundo que se quer fazer.
Sou ateia porque assumo o peso do existir,
não delego ao invisível o que é humano e concreto,
minha ética se constrói no agir e no decidir,
na responsabilidade que sustenta o afeto.
Feminista porque meu corpo não pede permissão,
minha vida não se curva a normas que querem conter,
não romantizo correntes travestidas de iluminação,
recuso toda mística que impeça de ver.
Antifascista porque conheço a dor da opressão,
porque leio na história o que o poder quer calar,
sei o preço que pagam os corpos em dissidência e tensão,
quando a violência insiste em se legitimar.
Leio o mundo nas tramas da materialidade,
nas relações de classe que moldam o viver,
não aceito destino como nome da desigualdade,
pois sei que há estruturas que insistem em manter.
Estou situada, porque neutralidade é ficção,
quem diz não ter lado já escolheu onde ficar,
há silêncio que serve à manutenção,
e há palavra que nasce para desestabilizar.
A travessia arrancou de mim o véu da ilusão,
mas não levou a delicadeza de sentir,
perdi encantos fáceis, ganhei elaboração,
aprendi com o coletivo outras formas de existir.
Não sou mais a jovem que acreditava sem ver,
sou a mulher que analisa antes de decidir,
feita de afeto crítico, de coragem para dizer,
de cuidado que luta e não teme resistir.
Sou tudo isso em movimento e contradição,
na história que escrevo enquanto sigo a viver,
recuso ser menor do que minha condição,
e escolho, a cada passo, quem desejo ser.
Entre tantos gêneros que habitam a universidade,
aprendi a atravessar o resumo com rigor,
a resenha com diálogo,
o fichamento com disciplina,
o artigo com método
e o relato de experiência com compromisso.
Todos importantes. Todos necessários.
Mas é na carta pedagógica Freireana
que a escrita em mim perde as amarras.
Nela, o texto não corre em linhas curtas.
Ele se alonga.
Respira.
Ocupa dez, quinze páginas sem pedir desculpas.
Porque há muito a dizer quando o pensamento
não se separa de quem pensa.
A carta não exige neutralidade.
Ela pede presença.
Pede que eu me coloque inteira,
como sujeito que lê o mundo antes de ler a palavra,
como alguém que estuda, mas também sente,
que teoriza, mas não se ausenta.
Na carta, não escrevo para provar.
Escrevo para dialogar.
Não organizo apenas conceitos,
organizo atravessamentos.
O texto vira encontro.
Com o autor, com a experiência, comigo.
É ali que penso com o corpo,
reflito com a memória,
me implico com o que estudo.
Não falo de fora.
Falo desde dentro.
A carta pedagógica me permite questionar com consciência,
duvidar com coragem,
afirmar sem arrogância.
Ela acolhe a pergunta que ainda não tem resposta
e o saber que nasce do chão da experiência.
Por isso, entre normas, estruturas e métodos,
é na carta que me reconheço.
Porque nela, aprender não é acumular.
É se transformar enquanto escreve.
Luany de Macedo Nascimento