Escrever é abrir véus do indizível,
Tocar a própria sombra em mansidão,
Fazer do silêncio uma pulsação
Onde o sentir se torna quase audível.

No verso, o eu se perde, imperceptível,
Como fumaça em lenta dissolução;
A dor se faz perfume em suspensão,
Num gesto íntimo, vago e inaudível.

Escrevo para ouvir o que não digo,
Para habitar espelhos sem contorno,
E reconhecer-me estranha e antiga.

Cada poema é um abismo e um retorno,
Onde me encontro e logo me desligo,
E a palavra é névoa em eterno entorno.

Luany de Macedo Nascimento 29/01/2026

Depois do estrondo das vozes,
dos nomes lançados como pedras,
fica o silêncio
não o que acalma,
mas o que reverbera
e dói por dentro.

Abriu-se um buraco no meu peito
não desses que o tempo costura
mas um vão fundo, escuro
onde a tristeza se senta
e aprende a morar
como se sempre tivesse sido dali.

A noite veio curta, quebrada
sono em migalhas
olhos ardendo em vigília
e eu sei
corpo cansado é fósforo
mente bipolar é pólvora.

Sinto-me bomba-relógio
tic-tac no pensamento
tic-tac no coração
não só por raiva
mas pelo peso de sentir demais.

Dá vontade de partir
juntar o pouco que resta
deixar o resto para trás
como se ir embora
doesse menos
do que continuar ficando.

De repente, aqui,
já não parece lar.
As paredes me olham torto,
os gestos não me reconhecem,
sou ave sem galho,
estranha no próprio ninho

Carrego o desejo de fuga
como quem carrega febre.
Não é escolha
é sintoma.
É o corpo pedindo distância
antes de virar estilhaço.

Se eu partir
talvez seja só para respirar.
Que o amanhã venha menos pesado
e que essa vontade de ir
não precise mais gritar.


Luany de Macedo Nascimento

Pertencer a si é ser vasta e inteira,
é ter no peito o sol que acende o dia.
É ser do mundo o sopro verdadeiro,
Sem algemas, sem grades, sem vigia.

Estar com outro, sim, mas por amor. 
Jamais pra preencher o que é só meu,
pois quem se basta transborda calor, 
E o laço nasce onde já floresceu.

Amar não é buscar o que me falte,
mas partilhar o vinho da vida,
Ser dois inteiros, lado a lado.

E quando assim dois inteiros se encontram,
não há prisão, só dança, luz e calma:
um elo forte, livre e que transcende a alma. 

Luany de Macedo Nascimento, 19/01/2026

 No alto, a luz me toma de repente, 
erguendo o mundo aos tons da claridade;
depois, a noite chega imponente,
e afunda o peito em fria imensidade.

O ciclo segue, instável, soberano,
trocando o riso pelo desalento; 
sou sol e sombra no correr humano,
metade brisa, e a outra, vendaval lento.

Na mão , repousam remédios serenos, 
que aplacam ventos, mas não são guarida;
são véus sutis, pitando as minhas cenas, 
sem apagar da carne a velha ferida. 

Sigo entre extremos, sempre repartida,
buscando centro que não se alcançará;
pois mesmo mansa, a maré desta vida
traz em seu pulso o que sempre voltará.

Luany de Macedo Nascimento

Fechou-se o ciclo, mas não o afeto,
parti com os olhos cheios de mar.
Levo no peito cada gesto discreto,
um desenho, um sorriso, um jeito de amar. 

Ficaram em mim como tinta na pele,
as vozes, os passos, os olhos brilhando, 
talvez em seus corações algo revele,
a escuta atenta que fui ofertando.

Nas tardes partilhadas, entre risos, sonhos e colo,
a vida aprendia a nascer devagar.
Cada gesto pequeno virou um tesouro,
lições de afeto que ensinam a ficar.

Chorei, sim, ao dizer até logo,
mas sei que o tempo não apaga o calor. 
Há marcas que ficam além do relógio,
nos gestos miúdos que brotam amor. 


Luany de Macedo Nascimento


P.S.: Estes versos nasceram no fim do meu Estágio Supervisionado III, após o momento da despedida das crianças do 1º ano dos anos iniciais de uma escola municipal.