Quando eu tinha 16 anos, escrevi um poema tentando responder quem eu era. Não porque soubesse, mas porque precisava perguntar. Era uma tentativa meio urgente, meio confusa, de caber em mim mesma, de dar nome ao que transbordava e ao que faltava. Naquela época, eu acreditava que identidade fosse algo que se descobria de uma vez, como quem encontra uma resposta escondida no fundo de uma gaveta.

Hoje entendo que aquele poema não estava errado. Ele só estava incompleto, como eu. A menina de 16 anos escreveu com o que tinha: inquietações, sonhos grandes demais, medos que ainda não sabiam se esconder, uma sensibilidade à flor da pele e uma vontade imensa de ser compreendida, acolhida. Ela não sabia, mas já era travessia.

O que mudou não foi a pergunta, foi o jeito de escutar a resposta. Continuo tentando responder quem sou, mas agora sei que não se trata de um retrato fixo. Sou feita de camadas, de tempos que se sobrepõem, de versões minhas que ainda conversam entre si. A adolescente que escreveu aquele poema ainda vive em mim, menos ingênua talvez, mas igualmente sensível, igualmente inquieta.

Se hoje eu reescrevesse aquela pergunta, não buscaria um rótulo, nem uma definição final. Diria que sou processo, construção diária, escolha. Sou o que resiste, o que aprende, o que ama com coragem. Sou continuidade daquela menina e, ao mesmo tempo, superação dela. E sigo escrevendo, não mais para descobrir quem sou, mas para continuar me tornando.

Hoje, quase 20 anos depois, ao responder quem sou eu, sou travessia, movimento constante entre o que fui e o que ainda estou aprendendo a ser. Não me defino por pontos finais, mas por reticências, por processos, por caminhos que se abrem enquanto caminho. Sou feita de perguntas que resistem às respostas fáceis, de silêncios que dizem mais do que palavras e de uma sensibilidade que sente antes de compreender, mas que insiste em compreender mesmo quando dói.

Sou força que nasceu da fragilidade e fragilidade que nunca significou fraqueza. Trago marcas, memórias e cicatrizes que não me diminuem; ao contrário, contam a história de onde resisti, de onde me refiz, de onde aprendi a permanecer inteira mesmo quando parti em pedaços. Sou afeto profundo, desses que acreditam no simples, no cotidiano compartilhado, no cuidado que não aprisiona e na presença que acolhe.

Sou crítica, mas não perdi a ternura. Sou idealista sem negar as contradições do mundo, romântica sem fechar os olhos para a realidade. Caminho com os pés fincados no chão, enquanto os sonhos insistem em me puxar para cima. Sou professora em construção, aprendiz das infâncias, das palavras, dos encontros e de mim mesma. Carrego a escuta como gesto político e o cuidado como escolha ética.

Sou amor que escolhe ficar, que não precisa controlar para existir. Sou casa e também estrada, raiz e movimento, permanência e transformação. Não caibo em rótulos nem em definições rígidas. Mudo, me contradigo, cresço. Sou inacabada, e é justamente nesse inacabamento que encontro minha potência. Quem sou eu? Sou tudo isso e ainda aquilo que o tempo, com paciência e delicadeza, continuará me ensinando a ser.


Amar de verdade
é chegar sem armadura,
sem ensaio,
sem esconder os cantos tortos da alma.

É dizer: sou isso,
com minhas manias, meus silêncios,
meus dias nublados
e ainda assim querer ficar.

O nosso amor nunca pediu licença para nada.
Não precisou gritar,
não precisou ferir,
não precisou controlar para existir.

Ele cresceu no gesto simples:
no café dividido,
no riso que surge do nada,
no conversa compartilhada no fim do dia.

Amar assim
é não ter receio de ser inteira,
de falar demais,
de sentir fundo,
de ser quem se é sem pedir desculpa.

Ao teu lado, aprendi
que amar não aperta,
não diminui.

Amar de verdade é repouso.
É casa.
É lugar onde não se pisa em ovos,
onde não se mede palavras,
onde o afeto não machuca.

São dez anos caminhando juntos,
dez anos de mãos dadas mesmo quando a vida pesa.
Caminhamos para onze não por hábito,
mas por escolha.

E se ainda há beleza no mundo,
ela mora nisso:
no amor que não assusta,
que não adoece,
que não exige versões menores de nós.

Amar assim
é coragem diária.
É liberdade compartilhada.
É a forma mais bonita
de existir a dois.

Poema para meu amado esposo, com quem escolho caminhar todos os dias. 

Há temas que crescem no silêncio,
como ervas nas frestas do chão,
brotam lentos no tempo denso,
sem voz, sem nome, na escuridão.

A laicidade, entrelaçada ao esquecimento,
permanece à margem da atenção,
central no tecido do pensamento,
mas ausente da problematização.

Na escola, o sagrado se insinua,
como neutro a se apresentar,
como se a tradição fosse rua
única por onde caminhar.

E a pesquisa, quando silencia,
também ensina a não enxergar,
naturaliza o que fere a via
da democracia a se afirmar.

Onde faltam palavras ditas,
os conflitos vão se esconder,
outras crenças tornam-se aflitas,
sem espaço para aparecer.

A não crença vira ausência,
o diverso perde seu lugar,
e o cuidado, em falsa aparência,
faz o proselitismo avançar.

Não é falta de fundamento,
nem carência de produção,
é resistência, é deslocamento
de um nó feito de fé e poder em tensão.

Formam-se então educadores
sem instrumentos pra questionar,
com éticas frágeis, sem rumos, sem cores,
consciências que dormem sem despertar.

Pesquisar é romper o véu,
é gesto ético, ato político,
é rasgar as sombras do céu
com compromisso público e crítico.

A escola não é altar erguido,
nem espaço de imposição,
é travessia de sentido,
é chão comum em construção.

Educar é abrir caminhos,
é garantir o direito de ser,
de crer, de não crer, sozinhos,
ou juntos, livres para viver.

Luany de Macedo Nascimento 29/01/2026

Escrever é abrir véus do indizível,
Tocar a própria sombra em mansidão,
Fazer do silêncio uma pulsação
Onde o sentir se torna quase audível.

No verso, o eu se perde, imperceptível,
Como fumaça em lenta dissolução;
A dor se faz perfume em suspensão,
Num gesto íntimo, vago e inaudível.

Escrevo para ouvir o que não digo,
Para habitar espelhos sem contorno,
E reconhecer-me estranha e antiga.

Cada poema é um abismo e um retorno,
Onde me encontro e logo me desligo,
E a palavra é névoa em eterno entorno.

Luany de Macedo Nascimento 29/01/2026

Depois do estrondo das vozes,
dos nomes lançados como pedras,
fica o silêncio
não o que acalma,
mas o que reverbera
e dói por dentro.

Abriu-se um buraco no meu peito
não desses que o tempo costura
mas um vão fundo, escuro
onde a tristeza se senta
e aprende a morar
como se sempre tivesse sido dali.

A noite veio curta, quebrada
sono em migalhas
olhos ardendo em vigília
e eu sei
corpo cansado é fósforo
mente bipolar é pólvora.

Sinto-me bomba-relógio
tic-tac no pensamento
tic-tac no coração
não só por raiva
mas pelo peso de sentir demais.

Dá vontade de partir
juntar o pouco que resta
deixar o resto para trás
como se ir embora
doesse menos
do que continuar ficando.

De repente, aqui,
já não parece lar.
As paredes me olham torto,
os gestos não me reconhecem,
sou ave sem galho,
estranha no próprio ninho

Carrego o desejo de fuga
como quem carrega febre.
Não é escolha
é sintoma.
É o corpo pedindo distância
antes de virar estilhaço.

Se eu partir
talvez seja só para respirar.
Que o amanhã venha menos pesado
e que essa vontade de ir
não precise mais gritar.


Luany de Macedo Nascimento