No trono que ela mesma ergueu,
Reflete o brilho que só ela vê,
Seus passos medem a própria narrativa,
No palco onde a luz imaginária só nela é.

Sussurra ao mundo verdades de espelho,
Escuta apenas o som do seu tom,
Quem tenta entrar, é visto como erro,
Pois reina só, onde amor não tem dom.

Cultiva espinhos num jardim de orgulho,
Colhe aplausos no vazio interior. 
Sorri por fora, no gesto inseguro,
Mas foge da luz que revela o rancor.

Seu mundo gira em torno do seu nome,
Mas todo ego, um dia, se consome,
Num silêncio frio, calado e pesado.

Soberba é muro alto e sem janela,
Imagem vã que alimenta a ilusão.
É não saber que há vida além dela,
E que o amor não cabe na solidão.

Quem vive só da própria imagem viva,
Se perde aos poucos na escuridão,
Pois orgulho que nunca se cativa,
É prisão feita de autonegação.

Em copos d'água se afogam meus dias,
pílulas contadas com precisão cirúrgica.
A mente, essa sala escura,
tenta acender lâmpadas que só piscam.

Começou com ESC ODT na boca,
Lítio e Quetiapina: promessa oca.
Rivotril fechava as noites em branco,
mas o corpo tremia em silêncio franco.

Depois veio Olanzapina, calada,
mesmo ESC, mesma estrada.
Rivotril seguia, velho disfarce,
mas a alma já pedia um desenlace.

Tentaram Bupropiona em novo papel,
com Aripiprazol num laço cruel.
O Lítio ainda lá, fiel companheiro,
mas devaneios varriam meu travesseiro.

E então: Bupropiona, Sertralina,
Lítio e Rivotril na mesma esquina.
Mais uma aposta, um último laço,
mas a mente seguia em pedaços.

Tremedeiras dançavam sem aviso,
do peito aos dedos, sem juízo.
E a cabeça em espirais tão soltas,
costurava delírios em linhas tortas.

Sete nomes, cinco meses, nenhum descanso.
Troca-se o remédio, mantém-se o abismo.
Nenhum silêncio no caos da mente,
só ecos, barulhos, dor persistente.

Não há receita que cure o cansaço
de ser laboratório do próprio desespero.
TAG, TOC, Bipolar... um trio desafinado
regendo sinfonias de pensamentos suicidas.

Mas escrevo, mesmo sem rimas
Porque enquanto escrevo, ainda estou.
Ainda tento.
Ainda resisto.
Entre os cacos, a escrita é o meu único grito vivo.


Minha alma é um túmulo em noite cerrada,
Onde o pranto é silêncio e a dor é segredo.
Sinto em mim, como noiva abandonada,
A angústia de viver... sem rumo, sem medo.

Há dias em que o mundo me pesa demais,
E os sonhos se arrastam em luto calado.
Meu riso se perde, meus olhos mortais
Só veem o vazio, tão frio, fechado.

Sou sombra do que fui, suspiro quebrado,
Poetisa sem versos, 
saudade sem nome.
O espelho me nega, o tempo, alucinado,
Apaga quem sou... me dissolve no lume.

Oh, que ânsia de noite! Que tédio profundo!
Carrego no peito um punhal que não corta.
Neste drama cruel de existir neste mundo,
A tristeza é irmã... e a esperança, tão morta.


O céu se fecha em nuvem e luz,
O lago espelha o que a alma conduz.
No banco, o tempo quase se cala,
Enquanto o coração lentamente fala.

Palmeiras dançam ao vento do sul,
E o fim de tarde pinta tudo de azul.
O olhar se perde na ponte ao fundo,
Como quem busca sentido no mundo.

O sol escorre por trás da paisagem,
Feito lembrança em lenta passagem.
Silencia em luz dourada,
Na pele um eco, na mente, mais nada.

E ali parada, entre o ontem e o agora,
A vida respira sem pressa, sem hora.
O Parque guarda, com calma e ternura,
A jovem, o instante, a sombra e a cura.


No chão rachado, o sol a brilhar,
Segue o passo firme, sem hesitar.
O vento sopra histórias do sertão,
Silêncio e sonho em cada direção.

Vestido rubro, contraste no pó,
Entre cercas tortas e um céu tão só.
A trilha guarda segredos no ar,
De um tempo antigo a sussurrar.

A serra à frente, guardiã do lugar,
Ergue-se imensa a nos inspirar.
Pedra da Boca, enigma sem voz,
Observa o mundo bem longe de nós.

Quem por ali caminha devagar,
Leva na alma o cheiro do lugar.
Araruna canta em tom de raiz,
Natureza bruta, alma feliz.