Dei tempo ao silêncio, deixei-me cair,
aceitei as pausas que a dor desenhava.
Chorei sem vergonha, sem me punir
sabendo que a cura também se faz brava.

Foi meu amado esposo, luz nos dias rudes
quem me abraçou quando eu me desfazia.
Com gestos simples, mas cheios de virtudes, 
Fez da sua calma a minha anestesia. 

Caí mil vezes, levantei mais mil!
Não com honra, medalhas ou glórias vazias,
mas com a alma rasgada por inteiro,
feridas que só cicatrizam com poesia. 

E se hoje caminho novamente. enfim reconciliada,
não foi só remédio que me fez ficar. 
Mais que comprimidos, foi a escrita poética
me libertou e fez a minha vida novamente pulsar. 




É laico o Estado, diz a Constituição, 
mas na escola há prece e imposição. 
A fé circula entre quadros e lições, 
silenciando outras visões e religiões. 

A LDB, em rito, abre o portão
pro ensino da crença sob o véu da "opção". 
E a BNCC, com fala polida, 
normatiza o "sagrado" na vida. 

Entre "valores" e "formação moral", 
o neutro cede ao juízo pastoral. 
O cristianismo, travestida de conteúdo, 
ganha no jogo que molda o estudo. 

Laicidade vira carta esquecida
no baralho de interesses da vida. 
Educar pra pensar é perigoso: 
prefere-se o aluno manso e piedoso.

 Depois do nome: Bipolaridade
comecei a procurar por mim nos cacos.
Quem fui? Quem sou? Quem serei de verdade?
Há dias em que me encontro. Outros, me desfaço.

É um jogo de espelhos, sem regra ou aviso:
Amanhã serei eufórica, eutimicamente calma, 
ou terei um peso escuro no peito indeciso,
que me rouba o chão e dissolve a alma?

As pílulas prometem um norte seguro, 
mas o caminho cobra um preço cruel,
Dez quilos a menos em dois meses,
corpo mais frágil, que rejeita o pão, riso e o papel. 

Estou tentando... Me conhecer, me acolher, 
entre extremos, construir permanência
Ser quem eu sou, mesmo sem saber exatamente
qual versão serei de mim ao acordar pela manhã.

Luany de Macedo Nascimento, 18 de Abril de 2025 

 


Quando tua mão repousa sobre a minha,
Sinto o universo inteiro tão pequeno,
Perdido na alvorada que se aninha.

Teu riso é melodia que embriaga,
Mais doce que o luar sobre as roseiras,
E o mundo, essa tormenta que se apaga
Se curva à paz das nossas brincadeiras.

Oh, vida! Que esplendor na flor singela
Que juntos colhemos na manhã dourada;
O pão, café, a mesa tão singela,
São tronos de um reinado em madrugada.

E se o tempo ousar passar com dor,
E o outono desfolhar nossos sorrisos,
Que ele leve o mundo e todo ardor,
Mas nunca os nossos sonhos precisos.


Na casa pequena, o sol se derrama,
Pelas frestas dança sem pedir licença.
Um cheiro de pão, café e quem ama
Preenche o tempo com leve presença.

O riso da filha ecoa na sala,
Enquanto a mãe penteia o amanhã,
E o pai, com calma que nunca se exala,
Guarda o silêncio como quem tece lã.

Papéis no chão, lápis de colorir,
A filha desenha tudo o que vê,
Um sol, um gato, um céu a expandir,
Na ponta leve do lápis e do porquê.

E quando a noite pousa devagar,
Três corpos se encostam, puro calor.
Ali mora o encanto de habitar
O mesmo instante, no mesmo amor.