No alto, a luz me toma de repente, 
erguendo o mundo aos tons da claridade;
depois, a noite chega imponente,
e afunda o peito em fria imensidade.

O ciclo segue, instável, soberano,
trocando o riso pelo desalento; 
sou sol e sombra no correr humano,
metade brisa, e a outra, vendaval lento.

Na mão , repousam remédios serenos, 
que aplacam ventos, mas não são guarida;
são véus sutis, pitando as minhas cenas, 
sem apagar da carne a velha ferida. 

Sigo entre extremos, sempre repartida,
buscando centro que não se alcançará;
pois mesmo mansa, a maré desta vida
traz em seu pulso o que sempre voltará.

Luany de Macedo Nascimento

Fechou-se o ciclo, mas não o afeto,
parti com os olhos cheios de mar.
Levo no peito cada gesto discreto,
um desenho, um sorriso, um jeito de amar. 

Ficaram em mim como tinta na pele,
as vozes, os passos, os olhos brilhando, 
talvez em seus corações algo revele,
a escuta atenta que fui ofertando.

Nas tardes partilhadas, entre risos, sonhos e colo,
a vida aprendia a nascer devagar.
Cada gesto pequeno virou um tesouro,
lições de afeto que ensinam a ficar.

Chorei, sim, ao dizer até logo,
mas sei que o tempo não apaga o calor. 
Há marcas que ficam além do relógio,
nos gestos miúdos que brotam amor. 


Luany de Macedo Nascimento


P.S.: Estes versos nasceram no fim do meu Estágio Supervisionado III, após o momento da despedida das crianças do 1º ano dos anos iniciais de uma escola municipal.

Caro leitor,

talvez você esteja lendo este texto no intervalo de alguma obrigação. Talvez tenha chegado aqui por acaso, como quem cai de paraquedas em um espaço desconhecido. Talvez não me conheça, e tudo bem.
Escrevo porque, em algum momento, percebi que estava vivendo no automático. Este espaço nasceu dessa inquietação e da tentativa de nomear o incômodo que surge quando a vida parece apenas funcionar.

Talvez você também esteja lendo entre um compromisso e outro, entre o cansaço e alguma distração qualquer. E isso já diz muito. Vivemos ocupados demais para perceber quando a vida deixa de ser experiência e passa a ser apenas continuidade. Você já sentiu isso? A sensação de estar sempre em movimento, mas sem saber exatamente para onde?

Aprendemos cedo a funcionar. A cumprir papéis, horários, expectativas. Pouco se fala, no entanto, sobre o que acontece quando o sujeito se adapta tanto que já não se reconhece. Marx chamaria isso de alienação: quando o indivíduo se distancia daquilo que produz, do que sente e, por fim, de si mesmo. Mas talvez você não precise do conceito para reconhecer o incômodo. Basta lembrar das vezes em que viveu no automático, repetindo gestos que não escolheu conscientemente.

Essa alienação não mora apenas no trabalho. Ela atravessa os afetos, as relações, os sonhos que parecem nossos, mas não nasceram de nós. Quantas ideias sobre sucesso, amor e felicidade você adotou sem perceber? Quantas dores silenciou por falta de tempo, espaço ou permissão para senti-las? A quem pertence a vida que você está vivendo agora?

Questionar isso não é simples, nem confortável. Pensar demais costuma ser tratado como fraqueza ou improdutividade. Mas talvez seja justamente o contrário. Talvez pensar seja uma forma de recuperar o que foi perdido no excesso de adaptação. Um gesto pequeno, porém radical, de retomada da própria existência.

Este texto não pretende ensinar nem conduzir a conclusões. Ele existe como pausa. Um fragmento de experiência transformado em palavra, nascido de um processo longo de sentir, cair, compreender e, sobretudo, aprender a colocar limites.

Se, em algum trecho, você se reconheceu ou se algo lhe causou estranhamento, resistência ou inquietação, isso já é diálogo. Este espaço existe para troca, escuta e encontro. Sinta-se à vontade para comentar, discordar, acrescentar ou compartilhar sua leitura.

A palavra só ganha sentido quando encontra outra.
Vamos conversar, caro leitor.

 (Inspirado no filósofo pré-socrático Heráclito)

O rio corre, incessante e profundo,
não há repouso, nem fim neste mundo.
Quem nele entra, já não é o mesmo,
pois tudo flui, o ser é o que vemos. 

O ser não é, mas está sempre a ser,
como rio que jamais para de crescer.
Não há o mesmo, nem o imutável,
Tudo é transformação, nada é estável. 

O que hoje é, amanhã já não será,
como a água que o tempo levará.
No rio, a morte não é o fim, é passagem,
e o ser, em movimento, se faz miragem. 

Não se entra duas vezes no mesmo rio, 
pois o rio, como o ser, está a mudar, 
O movimento é o princípio da vida,
o que é fixo, a corrente se faz perdida. 

Assim é o ser: não é uma verdade pronta. 
É viagem constante, estrada enredada
Heráclito nos mostra, no fluir do rio
Que o ser é mudança, eterno desafio. 


Luany de Macedo Nascimento

 (Inspirado no pensador Mikhail Bakunin)


A liberdade é fio que se estende ao vento,
Quanto mais se espalha, mais ganha fundamento. 
Não há correntes quando o ser se liberta,
a sua liberdade, ao outro desperta. 

Cada passo dado em busca do ser, 
É um abraço ao próximo, a força de crescer.
A liberdade é feita de mão dada,
a minha estende a tua, em jornada.

Não é prisão a liberdade de um só, 
É chama que acende, fogo que vai eufórico,
O  grito que ecoa em todos os corações, 
Porque somos livres nas mesmas aspirações. 

Se a liberdade do outro amplia comigo, 
somos todos um, num só grito, 
Não há espaço para muros ou opressão,
a verdadeira liberdade se conquista com revolução. 


Luany de Macedo Nascimento