Entre risos e lágrimas eu caminho, enfim,
Celebro a conquista que floresce em mim,
Mas deixo pra trás um pedaço de história,
E no peito carrego saudade e memória.

Foram lutas, quedas, dias de incerteza,
Mas segui persistente, com força e firmeza,
Hoje colho os frutos de tanto insistir,
Mesmo com o coração relutando em partir.

Entre sombras densas e picos de euforia,
Depressão e mania teceram minha travessia,
Quase desisti, como na Filosofia um dia,
Mas insisti e na Pedagogia refiz minha poesia.

Aprendi muito além do que está no papel,
Nos caminhos do PIBIC, fui mais longe que o céu,
Na Monitoria e na Residência Pedagógica, fui me fazendo,
Professora em processo, aos poucos me tecendo.

Faltou a Extensão pra fechar o ciclo inteiro,
Mas não falta orgulho do caminho verdadeiro,
Cada passo vivido me fez ser quem sou,
E tudo que passei, de algum modo, ficou.

Agora, Pedagoga, palavra que emociona,
Mas junto com ela, a dúvida ressoa,
Qual estrada seguir nesse novo lugar?
Concurso, mestrado… ou em uma nova graduação recomeçar?

E assim sigo eu, entre o fim e o começo,
Com coragem no peito e um leve tropeço,
Pois se a despedida hoje insiste em doer,
É porque foi bonito demais viver.

O relógio não atrasa.
Nunca atrasa.
Ele bate seis dias seguidos
e guarda um
como quem concede um favor.

Tic.
Trabalho.
Tac.
Trabalho.
Tic.
Trabalho.

Seis voltas completas da semana
para um único respiro.

Dizem que todos possuem as mesmas 24 horas.
O mesmo sol nasce,
o mesmo ponteiro corre,
o mesmo calendário avança.

Mas quem vive na escala 6x1
aprende que as horas
não são todas suas.
São do patrão,
da meta,
do transporte lotado às cinco da manhã,
do corpo que chega em casa
já emprestado ao cansaço.

O domingo
único dia que não bate ponto
não é descanso inteiro.
É roupa acumulada,
é mercado,
é família pedindo presença
quando a energia já foi embora.

E então a pergunta insiste,
como alarme que não se cala:
Todos possuem as mesmas 24 horas?
Ou alguns recebem as horas cruas
enquanto outros escolhem
como temperá-las?

O relógio é justo na matemática.
Mas a vida não é equação.
Na escala 6x1
o tempo não é tempo
é turno.

É corpo convertido em produtividade.
É segunda que começa
antes mesmo de o domingo acabar.
E ainda assim,
no meio do cansaço,
há quem sonhe com outro ritmo
um em que o tempo não seja concessão,
mas direito.

Porque ter 24 horas
não é o mesmo
que poder vivê-las.

Eu não pedi essa coisa torta crescendo dentro da minha cabeça,
nem assinei contrato algum pra morar nessa mente em ruínas sem direção,
não levantei a mão pra aceitar essa distorção feroz que nunca cessa,
essa engrenagem quebrada girando no lugar do silêncio, sem solução.

Essa estranha aberração química rasgando tudo o que eu podia ser,
me obrigando a existir num corpo que já não reconhece o próprio chão,
como se cada impulso meu viesse de um lugar que não consigo conter,
como se eu fosse só efeito colateral de uma falha em combustão.

Dói medir a vida em comprimidos, pequenos pactos diários de ilusão,
de segunda a domingo marcados não por tempo, mas por contenção,
um pra calar o excesso, outro pra acordar o nada em contradição,
promessas em cápsulas que repetem equilíbrio e entregam frustração.

Remédio pra isso, pra aquilo, pra mim, pra quem eu deixei de ser,
bulas que falam mais de mim do que qualquer tentativa de explicação,
efeitos colaterais criando versões que eu não escolhi viver,
e a esperança virando pó no fundo seco de cada prescrição.

A mente não clareia, ela embaralha, insiste em se desfazer,
pensamentos batendo entre si como móveis num quarto sem visão,
nomes somem, vontades evaporam antes mesmo de acontecer,
e o mundo grita alto demais dentro de mim, sem tradução.

Agora o que resta não é grito nem tempestade querendo romper,
é o vazio parado depois do desastre, sem forma, sem direção,
um silêncio espesso grudado nos ossos, difícil de desfazer,
existir sem cor, sem peso, sem eco, uma lenta dissolução.

As palavras não pedem licença,
irrompem cruas, sem conter,
ardem na pressa da existência,
como se já viessem a arder.

Quentes, rápidas, atravessadas,
ferem antes de se formar,
nascem prontas, precipitadas,
dentro da voz a transbordar.

É irritação sem motivo visível,
um nervo aceso a latejar,
um incômodo quase invisível,
mas impossível de ignorar.

Sons ferem como aço frio,
portas parecem explodir,
vozes pesam, densas, no vazio,
sobre o peito a insistir.

E algo em mim se endurece,
distante de qualquer calor,
uma frieza que me esquece
do gesto mínimo de amor.

Fico áspera, quase ausente,
como quem deixa de sentir,
uma ausência que, de repente,
me rouba antes de existir.

Então tudo estoura de vez,
um caos súbito no ar,
e quanto mais busco lucidez,
mais tudo insiste em quebrar.

Faíscas correm sem medida,
num espaço prestes a ceder,
como um gás na sala contida,
esperando apenas arder.

Quando passa, não há alento,
nenhuma paz a repousar,
resta um denso esvaziamento
onde nada vem habitar.

A apatia senta ao meu lado,
silenciosa, a me encarar,
como se fosse o único estado
que ainda resta a me habitar.

Há em mim uma vontade estranha de sair pela noite sem destino, como se as ruas vazias soubessem guardar segredos que eu ainda não consegui nomear. Como se o asfalto úmido, os postes acesos e o vento frio entendessem melhor do que qualquer palavra aquilo que pulsa por dentro. Não é exatamente tristeza. Também não é felicidade. É uma urgência mansa, quase febril, um desejo de tocar algo que torne o mundo menos áspero, menos pesado de atravessar.

Às vezes penso em quando dividimos o banco de trás de um carro qualquer, sem mapa, sem roteiro, apenas as luzes da cidade correndo pela janela como estrelas apressadas. Não havia promessas grandiosas, não havia juramentos eternos. Havia só o calor próximo, o silêncio confortável, a respiração que encontra outra respiração e, por alguns minutos, a sensação rara de não estar sozinha dentro de mim. Como se o corpo dissesse: aqui, agora, é suficiente.

Há dias em que tudo parece excessivo demais: o ruído, as cobranças, o cansaço de existir. E então me lembro que a vida pode ser mais leve quando é compartilhada. Mesmo que seja só um instante roubado do cotidiano, mesmo que o mundo continue lá fora com suas pressas e seus abismos. Porque naquele pequeno recorte de tempo, a solidão perde força. A angústia recua. E o coração encontra abrigo.

Essa intensidade incontrolável não nasce do drama, mas da consciência de que há momentos que salvam. Momentos em que penso que, se tudo terminasse ali, naquela curva da estrada, sob aquela luz amarelada que atravessa o vidro, ainda assim teria valido a pena. Não pelo fim. Mas pelo encontro. Pela presença que transforma o medo em ternura.

Existe uma luz que não se apaga quando alguém nos vê de verdade. Não com exigência, não com julgamento, não com a intenção de moldar. Mas com uma quietude firme que diz, sem alarde: "fica. Eu aguento teus silêncios. Eu suporto teus dias nublados. Eu não me assusto com tua intensidade".

E talvez seja isso que me move nessa noite sem destino. Não a fuga. Não o perigo. Mas a vontade quase desesperada de pertencer a um momento que brilhe o bastante para atravessar qualquer escuridão. Um momento que me lembre que, mesmo quando o mundo parece grande demais e eu pequena demais dentro dele, há uma luz acesa. E ela não se apaga.


Luany de Macedo Nascimento, 11/02/2026