Há algo contraditório na forma como nós, brasileiros, vivemos a política. Muitas vezes, transformamos a eleição em uma espécie de Carnaval. Escolhemos cores, vestimos camisas, repetimos palavras de ordem e tratamos candidatos como ídolos e adversários como inimigos. A política vira torcida, e o voto, que deveria ser uma das expressões mais importantes da democracia, acaba reduzido a um espetáculo.

Mas o voto não é Carnaval.

Depois que as bandeiras são recolhidas e os jingles deixam de tocar, a vida continua. Continuam o preço dos alimentos, as dificuldades na saúde e na educação, a busca por moradia, trabalho, segurança e dignidade.

Por isso, uma eleição não é apenas a escolha de pessoas para ocupar cargos. É também uma escolha entre diferentes projetos de sociedade. Em 2026, milhões de brasileiras e brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados. Essas escolhas terão consequências sobre as leis, as políticas públicas, o orçamento e, principalmente, sobre a vida cotidiana de todos nós.

Votar exige mais do que escolher um lado. Exige compreender que, depois da festa, ficam as consequências.

Talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja justamente termos transformado a política em identidade e esquecido que ela é, antes de tudo, responsabilidade coletiva.

Eu não consigo mais olhar para a extrema direita brasileira apenas como mais uma corrente política entre tantas outras. Há algo profundamente perturbador no que ela representa. Não porque todo eleitor de direita seja uma pessoa má, seria intelectualmente preguiçoso afirmar isso. Mas porque determinados setores da extrema direita transformaram o ressentimento, o medo, o preconceito e a negação de direitos em instrumentos de mobilização política.

E há uma diferença enorme entre defender uma política econômica conservadora e construir uma política baseada na fabricação permanente de inimigos. A extrema direita precisa de inimigos.

Precisa da narrativa do professor "doutrinador", da universidade "inútil", do artista "vagabundo", do pobre "dependente", da mulher que reivindica autonomia, da população LGBTQIA+, dos movimentos sociais, dos ambientalistas, dos intelectuais, dos jornalistas, dos imigrantes, dos militantes de esquerda. Precisa de alguém para apontar e dizer: "o problema está ali."

Porque é muito mais fácil apontar um inimigo do que explicar a complexidade de uma sociedade desigual.

É muito mais fácil dizer que o pobre recebe demais do que discutir concentração de renda. É muito mais fácil culpar o trabalhador desempregado do que discutir a precarização do trabalho. É muito mais fácil atacar a universidade pública do que discutir o papel da ciência. É muito mais fácil transformar professor em inimigo do que admitir que educação produz pensamento crítico. É muito mais fácil dizer que direitos humanos "protegem bandidos" do que discutir as raízes sociais da violência. E é muito mais fácil gritar "Deus, Pátria, Família" do que explicar por que tantas famílias brasileiras continuam vivendo sem o básico.

Esse é um dos grandes truques da extrema direita, transformar problemas estruturais em conflitos morais simplificados. E quando a política vira uma disputa entre "cidadãos de bem" e "inimigos da sociedade", o pensamento crítico começa a morrer. A política do ódio é também uma política de distração. Pois enquanto pobres brigam com pobres, trabalhadores brigam com trabalhadores, professores brigam com professores e famílias brigam à mesa do jantar por causa de candidatos, as estruturas econômicas continuam funcionando.

O trabalhador olha para o outro trabalhador e pensa que seu problema é o benefício social que o vizinho recebe, não olha para a concentração de riqueza. Olha para a mulher que recebe uma política pública, não olha para quem acumula patrimônio em uma escala que jamais alcançará. Olha para quem está na universidade por meio de uma política de inclusão, não olha para as desigualdades históricas que tornaram essa política necessária. É uma engenharia política extraordinariamente eficiente, fazer os que têm pouco disputarem entre si enquanto os que têm muito permanecem protegidos.

E aqui o neoliberalismo encontra a extrema direita de maneira particularmente perigosa. Porque o neoliberalismo ensina a pensar que somos indivíduos isolados, responsáveis exclusivamente pelo próprio destino. A extrema direita acrescenta a esse individualismo uma narrativa de ressentimento, se você não conseguiu, alguém está tomando aquilo que deveria ser seu. E pronto. O vizinho vira inimigo.

O pobre vira ameaça. O servidor público vira privilégio. A universidade vira desperdício. O movimento social vira desordem. O direito vira privilégio. E o Estado social passa a ser apresentado como obstáculo à liberdade. Enquanto isso, a desigualdade permanece.

O neoliberalismo vende a ideia de que ninguém precisa de ninguém Talvez essa seja uma das maiores crueldades do nosso tempo, convencer uma sociedade inteira de que cada indivíduo está sozinho. Você não precisa de direitos; precisa de esforço. Não precisa de sindicato; precisa negociar. Não precisa de política pública; precisa empreender. Não precisa de Estado; precisa se virar. Não precisa de solidariedade; precisa competir. Não precisa perguntar por que existem pobres; precisa perguntar por que você ainda não ficou rico. A pobreza deixa de ser uma questão social e vira defeito individual. O desemprego deixa de ser problema econômico e vira falta de competência. A precarização deixa de ser exploração e vira "flexibilidade". A desigualdade deixa de ser injustiça e vira "meritocracia".

E assim conseguimos produzir uma sociedade na qual o indivíduo se culpa por problemas que nunca foram exclusivamente individuais. Essa lógica é brutal porque transforma sofrimento em fracasso pessoal. E uma sociedade que aprende a culpar o indivíduo por tudo deixa de cobrar responsabilidades daqueles que possuem poder.

E há algo que a esquerda precisa admitir. Mas aqui chegamos a uma ferida que a esquerda precisa ter coragem de tocar. A extrema direita entendeu uma coisa que parte da esquerda parece ter esquecido: política também é linguagem.

Não adianta possuir uma análise sofisticada da sociedade se você não consegue conversar com quem está sofrendo dentro dela. Não adianta saber explicar a financeirização do capital se você não consegue explicar por que o salário não dá para chegar ao fim do mês. Não adianta falar em "reprodução das estruturas de dominação" para alguém que está preocupado em pagar o aluguel. Não adianta discutir "epistemologias contra-hegemônicas" quando a pessoa só quer saber se haverá médico no posto de saúde. Não adianta dizer "neoliberalismo" como se a palavra, sozinha, explicasse alguma coisa.

É preciso dizer: estão tentando convencer você de que seu sofrimento é culpa sua. Não é.

É preciso falar simples sem pensar simples. É preciso abandonar a arrogância acadêmica sem abandonar a profundidade. É preciso sair das bolhas universitárias. Porque enquanto uma parte da esquerda escreve textos para pessoas que já concordam com ela, a extrema direita conversa com quem está no supermercado, no salão de beleza, no ônibus, na oficina, na igreja, no bar, na feira e no grupo da família.

A esquerda muitas vezes quer dar uma aula. A direita radical muitas vezes quer contar uma história. E histórias chegam mais longe do que conceitos. Não basta estar certo, é preciso ser compreendido Talvez essa seja uma das derrotas mais dolorosas da esquerda contemporânea. Não necessariamente a falta de argumentos. Mas a incapacidade de transformar argumentos em linguagem popular. 

O povo está trabalhando. Está criando filhos. Está pagando contas. Está enfrentando filas. Está tentando sobreviver. E quem não consegue falar com esse povo deixa um espaço aberto. E alguém ocupará esse espaço. A extrema direita ocupou. O algoritmo ocupou. O discurso de ódio ocupou. As fake news ocuparam. Os vendedores de soluções fáceis ocuparam. E depois a esquerda pergunta: "Como essas pessoas puderam acreditar nisso?" Talvez a pergunta devesse ser outra: por que nós não estávamos conversando com elas?

O eleitor não é torcida. É cidadão. É justamente por isso que me incomoda tanto quando política é tratada como Carnaval. Não porque o Carnaval seja superficial,  muito pelo contrário. O Carnaval também é cultura, memória, resistência e expressão popular. Mas porque a eleição não termina na festa.

O candidato não entra no governo carregando apenas a camisa que você vestiu. Ele leva consigo o poder de decidir sobre vidas que não conhece. O voto que você dá pensando apenas no seu bolso pode atingir o bolso de milhões. O voto que você dá pensando apenas na sua família pode atingir famílias completamente diferentes da sua. O voto que você dá por raiva pode produzir consequências para quem não teve nenhuma participação naquilo que despertou a sua raiva. Por isso, votar é um ato profundamente coletivo.

Eu não voto mais apenas por mim. Voto pela criança que está numa escola pública. Pelo trabalhador que depende do SUS. Pela mulher que precisa de proteção contra a violência. Pelo idoso que depende da Previdência. Pela pessoa com deficiência que precisa de acessibilidade. Pelo estudante que depende da universidade pública. Pelo trabalhador que precisa de direitos. Pelo rio que não pode ser destruído em nome do lucro. Pelo futuro de quem sequer nasceu.

A democracia começa a morrer quando acreditamos que o voto é apenas uma extensão do nosso interesse individual. Não é. O voto é uma responsabilidade diante do outro Talvez devêssemos entrar na cabine eleitoral com menos euforia e mais consciência. Menos "meu candidato" e mais "qual projeto de sociedade está sendo colocado diante de nós?" Menos "ele ganhou!" e  mais "o que essa vitória significa para quem tem menos poder?"

Menos camiseta. Mais memória. Menos meme. Mais responsabilidade. Menos idolatria. Mais pensamento crítico. Porque nenhum político deveria ser tratado como salvador. Nem de esquerda. Nem de direita. Político não é santo. Partido não é religião. E eleitor não deveria ser torcedor.

A democracia exige cidadãos capazes de cobrar inclusive aqueles com quem concordam. E talvez seja disso que estamos precisando Precisamos recuperar a capacidade de discutir política sem transformar o outro em inimigo. Mas também precisamos recuperar a capacidade de reconhecer quando determinados projetos políticos atacam direitos, aprofundam desigualdades ou corroem instituições democráticas.

Não precisamos fingir que todas as posições políticas são iguais para sermos democráticos. Não são. Existem projetos de sociedade diferentes. Existem interesses econômicos diferentes. Existem concepções diferentes de Estado, de direitos, de democracia e de liberdade. E existem escolhas que terão consequências muito concretas sobre a vida das pessoas.

É por isso que eu não quero uma política anestesiada, educadinha, incapaz de se indignar. Quero uma política que tenha memória. Que saiba reconhecer a violência quando ela aparece. Que não chame de "opinião" aquilo que pretende retirar direitos de outras pessoas. Que não transforme desigualdade em mérito. Que não transforme pobreza em culpa. Que não transforme preconceito em liberdade de expressão. Que não transforme trabalhador em mercadoria. Que não transforme educação em privilégio. Que não transforme o Estado em instrumento exclusivo dos que já possuem poder.

E, sobretudo, quero uma esquerda que tenha coragem de voltar para onde a política realmente acontece: na vida das pessoas. Que fale bonito quando for necessário, mas que saiba falar simples. Que leia Marx, Gramsci, Freire e tantos outros, mas que consiga explicar suas ideias para Dona Maria na fila do posto de saúde.

Que conheça a universidade, mas não fique presa dentro dela. Que tenha teoria, mas também tenha escuta. Que tenha princípios, mas não tenha soberba. Que saiba dizer uma coisa fundamental: você não é pobre porque fracassou sozinho. Você não precisa odiar quem está ao seu lado para melhorar de vida. O trabalhador não é inimigo do trabalhador. O pobre não é inimigo do pobre. Seu vizinho não é seu inimigo. Seu adversário político não precisa ser seu inimigo pessoal. E que consiga transformar essa compreensão em uma linguagem que alcance quem mais precisa ouvi-la.

Porque a política não pode continuar sendo Carnaval. Não quando o resultado da festa é decidido por milhões e a conta é paga por todos. No dia seguinte à eleição, não existem vencedores e derrotados apenas nas redes sociais. Existem pessoas que continuarão vivendo. Crianças continuarão crescendo. Professores continuarão ensinando. Trabalhadores continuarão trabalhando. Doentes continuarão esperando atendimento. Famílias continuarão tentando sobreviver. E o governo continuará tomando decisões.

É por isso que votar é muito mais sério do que escolher uma camisa. Muito mais sério do que escolher um lado numa briga de torcida. Muito mais sério do que publicar uma bandeira. O voto é um pedaço daquilo que fazemos com a vida dos outros. E talvez seja justamente por isso que a pergunta mais importante diante de uma eleição não seja: "Quem vai ganhar?" Mas sim "Que sociedade estamos ajudando a construir quando apertamos aquele botão de confirmar?"


Nada no universo é verdadeiramente silencioso. O silêncio é, muitas vezes, apenas aquilo que ainda não aprendemos a traduzir.

Há uma linguagem em tudo. Não necessariamente uma linguagem feita de palavras, sons ou sinais reconhecíveis, mas uma linguagem própria de cada existência, uma gramática íntima pela qual cada ser anuncia, à sua maneira, que está no mundo. As árvores falam pelo modo como se inclinam diante do vento. Os rios, pela insistência de seu movimento. Os animais, pela delicadeza ou pela violência de seus gestos. O céu, pelas suas mudanças. O corpo, pelas marcas que carrega. E o ser humano, essa criatura tão convencida de possuir a palavra, fala também por aquilo que não consegue dizer.

Viver é habitar um mundo de idiomas estrangeiros.

Encontramo-nos todos os dias com pessoas cujas palavras acreditamos compreender. Escutamos suas frases, reconhecemos seus vocábulos, respondemos às suas perguntas. E, ainda assim, quantas vezes permanecemos completamente distantes daquilo que o outro realmente quis dizer? Porque uma língua não é apenas aquilo que se pronuncia.

Existe uma língua anterior às palavras: aquela formada pela história de cada um.

Cada pessoa chega ao encontro com o outro carregando um dicionário que ninguém vê. Nele estão as perdas, os afetos, os abandonos, os medos, as lembranças, os lugares onde doeu, os lugares onde foi acolhida. Há palavras que, para alguém, significam abrigo e, para outro, significam ameaça. Há silêncios que são paz e silêncios que são pedidos de socorro. Há distâncias que significam desprezo e outras que significam apenas a necessidade de respirar.

A mesma palavra pode nascer em duas bocas e significar dois mundos.

É por isso que compreender alguém é uma tarefa muito mais difícil do que ouvi-lo. Ouvir é receber o som. Compreender é tentar alcançar o lugar de onde o som veio. É nesse movimento que acontece a verdadeira tradução.

Traduzir o outro não significa reduzi-lo àquilo que conseguimos entender. Ao contrário. Significa aceitar que sempre haverá algo que escapa. Toda tradução é, de certo modo, uma aproximação. Tentamos transportar um sentido de um universo para outro, sabendo que alguma coisa inevitavelmente se perde no caminho.

E talvez seja justamente nessa perda que exista uma das maiores verdades sobre o encontro. Nunca acessamos o outro por inteiro. Nunca atravessamos completamente a distância entre duas consciências. Existe sempre uma margem de mistério, uma região à qual não chegamos, por mais íntima que seja a relação, por mais atenta que seja a escuta.

Amar é uma forma ainda mais radical dessa tradução.

Amar alguém é aprender uma língua que não foi escrita para nós. É perceber que existem gestos que dizem mais do que frases inteiras. É aprender a reconhecer o silêncio de quem precisa de companhia e o silêncio de quem precisa de espaço. É descobrir que determinada irritação pode esconder medo, que determinada frieza pode ser defesa, que determinada insistência pode ser uma maneira desajeitada de pedir para não ser abandonado.

Amar é aprender significados que não aparecem nos dicionários.

Mas há algo ainda mais difícil: compreender sem transformar o outro em nós mesmos.

Existe uma violência sutil em acreditar que só compreendemos aquilo que se parece conosco. Quando não conseguimos decifrar alguém, somos tentados a julgá-lo a partir da nossa própria gramática, do nosso próprio mundo. Interpretamos o outro utilizando as regras do nosso idioma interior e, então, estranhamos aquilo que não cabe nele.

Uma das maiores dificuldades humanas é que queremos que o outro fale uma língua que já conhecemos. Queremos que ele ame como sabemos amar, sofra como sabemos sofrer, peça perdão como pediríamos, demonstre afeto como demonstraríamos. E, quando ele não o faz, muitas vezes concluímos que não ama, não sente, não se importa. Mas ele pode estar apenas falando outra língua. E não existe maior exercício de humanidade do que permanecer diante dessa diferença sem imediatamente condená-la.

Há pessoas que precisam de palavras para dizer "eu te amo". Outras precisam permanecer. Há quem peça cuidado aproximando-se, há quem peça cuidado afastando-se. Há quem fale muito quando está com medo, há quem desapareça dentro do silêncio. Há quem ofereça o que tem nas mãos, enquanto outros oferecem apenas a presença.

Somos estrangeiros uns para os outros.

E, ao mesmo tempo, passamos a vida inteira tentando construir pontes entre esses estrangeiros. Talvez seja isso que chamamos de encontro. Não o momento em que finalmente deciframos alguém, mas aquele instante raro em que aceitamos não compreender tudo e, ainda assim, decidimos continuar escutando. Compreender não é possuir a tradução definitiva do outro. É ter humildade suficiente para reconhecer que o outro jamais caberá completamente na nossa interpretação.

Cada existência guarda uma língua que ninguém mais possui exatamente da mesma maneira. Uma combinação irrepetível de memórias, experiências, feridas, desejos, afetos e silêncios. Somos, cada um de nós, um idioma que está sendo inventado enquanto é falado. E isso não diz respeito apenas aos seres humanos.

O universo inteiro parece composto por formas de expressão que coexistem sem necessariamente se compreenderem. A matéria possui sua linguagem. O movimento possui a sua. A luz possui a sua. As estrelas possuem a sua. Os animais possuem a sua. O corpo possui a sua. A morte possui a sua. O amor possui muitas. Existir é, de alguma maneira, dizer.

E viver é estar constantemente diante de algo que diz sem necessariamente utilizar a linguagem que conhecemos.

É por isso que a escuta exige mais do que atenção. Exige deslocamento. Para compreender verdadeiramente, é preciso abandonar por alguns instantes a segurança da própria língua e aceitar que o mundo pode significar coisas que ainda não sabemos nomear.

Nesse  movimento nos tornamos mais pacientes e dispostos, não por ter capacidade de  traduzir tudo, mas na disposição de reconhecer aquilo que ainda não conseguimos traduzir. Porque o contrário do amor não é necessariamente o ódio. Pode ser a recusa em traduzir.

É olhar para o outro e decidir, antes mesmo de escutá-lo, que já sabemos o que ele significa. É substituir a curiosidade pelo julgamento, a escuta pela interpretação apressada, o encontro pela certeza.

Amar, então, é o movimento contrário. É aproximar-se do outro como quem se aproxima de uma língua desconhecida, sem dicionário, sem certezas, sem a arrogância de acreditar que já sabe.

Perguntar. Escutar. Observar. Errar. Tentar novamente. Não para alcançar uma tradução perfeita, mas para construir uma compreensão possível. Porque talvez nunca sejamos capazes de traduzir completamente o universo, os outros ou sequer a nós mesmos. Mas podemos aprender a escutar.

E há uma diferença imensa entre viver em um mundo que julgamos compreender e viver em um mundo que aceitamos continuar aprendendo a traduzir. No fim, talvez seja isso que nos torna humanos, não a capacidade de possuir todas as palavras, mas a disposição de permanecer diante do mistério até que alguma coisa, mesmo sem nome, comece a fazer sentido.

Cada ser é uma linguagem. Cada encontro, uma tradução. E toda tradução é uma tentativa de atravessar a distância entre dois mundos sem destruir aquilo que os torna diferentes.


Luany de Macedo Nascimento, 24/09/2026


Há um frio existente em meu ser,
que gela tudo ao redor;
há uma dor que me faz padecer,
e torna meu peito ainda mais só.

Há uma frieza escondida em meu peito,
que cobre de cinzas meu coração;
e tudo que sinto perde o seu jeito,
morrendo em silêncio na escuridão.

Quisera chorar tudo aquilo que sinto,
dar fim ao tormento que insiste em ficar;
mas guardo no peito o meu grito indistinto,
e os olhos se negam, teimosos, a chorar.

Há noites em que imploro à lua distante
que leve consigo a minha aflição;
mas ela contempla, tão fria e constante,
o pranto escondido em meu coração.

Quisera que a lágrima enfim encontrasse
o rosto cansado de tanto sofrer;
que toda a tristeza de mim se soltasse,
antes que eu me esqueça de como viver.

Mas nada escorre por meus olhos cansados,
embora meu peito implore por dor;
meus prantos permanecem todos trancados,
morrendo em silêncio, sufocados de amor.

E quanto mais tento arrancar o que sinto,
mais fundo se esconde a minha aflição;
transformo em silêncio o grito infinito,
que há muito aprisiono dentro do coração.

Talvez minha frieza não seja desprezo,
talvez seja apenas temor de sentir;
talvez seja o preço, terrível e aceso,
de tudo que amei e não pude impedir.

Por isso me calo, me isolo, por isso não choro,
por isso meu rosto conserva o vazio;
por dentro, em segredo, ainda imploro,
enquanto por fora me cubro de frio.

Se um dia meus olhos chorarem, enfim,
talvez minha alma consiga descansar;
talvez toda a dor que habita em mim
encontre nas lágrimas onde repousar.

Houve um jardim onde aprendi a existir,
vestindo de calma a feroz escuridão;
mas a cura partiu sem sequer se despedir,
e deixou-me sozinha diante da imensidão.

A noite desceu sobre o osso e a pele fria,
como um véu costurado de névoa e carvão;
cada estrela morria naquilo que eu dizia,
cada prece voltava sem encontrar perdão.

Veio o lítio, austero, mineral soberano,
sepultando as marés que habitavam meu ser;
fez do caos um silêncio profundo e insano,
onde até minha dor parecia esquecer.

Mas o mesmo cristal que selava o abismo
fez da carne um relicário de febril languidez;
meu equilíbrio tornou-se um frágil cinismo,
como um vitral rachado por sua própria lucidez.

Minha boca era sal, era inverno, era cinza,
desfazendo-se lenta em silenciosa aflição;
cada beijo tornava-se amarga carniça,
cada palavra sangrava dentro da solidão.

Minha vista vestia cortinas de breu,
e o chão dissolvia seu antigo rigor;
eu caía em mim mesma, distante do céu,
como um lírio vergado pelo excesso da dor.

Então cessei os remédios. E o vazio sorriu.
Não ouvi despedidas, nem promessas de paz;
só o eco das sombras que enfim consentiu
que a antiga tormenta voltasse voraz.

Meu cérebro, órfão da química serena,
fez da insônia um castelo de pedra e marfim;
cada nervo cantava uma marcha pequena,
conduzindo o inverno para dentro de mim.

Dormir tornou-se um país que perdi,
acordar era sempre um funeral sem altar;
cada aurora dizia que eu ainda vivi,
mas meu peito recusava a arte de respirar.

Os espelhos, piedosos, desviavam o olhar,
como monges cansados diante da aflição;
pois nenhuma beleza consegue ocultar
o lento apodrecer de um aflito coração.

Se Byron colhesse esta rosa sem cor,
reconheceria nela o perfume do fim;
não pisaria as pétalas, por mero pudor,
pois saberia que elas floresceram em mim.

Há tristezas antigas que jamais têm repouso,
feito heras abraçando colunas em ruína;
elas fingem dormir sob um manto piedoso,
até que a ausência desperte sua fome assassina.

E, se um dia encontrarem meu nome gravado,
entre lápides frias e ciprestes sem voz,
não digam que fui apenas um sonho quebrado;
digam que lutei contra uma noite feroz.

Porque fui mulher feita de sangue e de sal,
atravessando o inverno sem jamais florescer;
e aprendi que o silêncio é um rito final,
quando a alma se cansa, mas insiste em viver.


Luany de Macedo Nascimento, 26/07/2026


Aprendi a escrever com as mãos vazias,
Como quem varre o quintal depois da chuva.
Nunca procurei palavras extraordinárias;
Bastava uma que ainda respirasse.

Há dias em que o papel me reconhece
Antes mesmo que eu me encontre.
Então me sento diante do papel em branco
Como quem retorna à casa depois de muito tempo.

Escavo o silêncio sem pá nem enxada.
É a memória quem revolve a terra,
E eu apenas recolho os pedaços
Que insistem em sobreviver ao esquecimento.

Algumas frases chegam mancando,
Outras trazem perfume de café recém-passado.
Há também as que entram sem pedir licença,
Como o vento que conhece todas as frestas.

Escrever nunca curou minhas ausências.
Mas lhes deu um nome,
E às vezes basta nomear uma dor
Para que ela deixe de ser estrangeira.

Quando a última palavra repousa na página,
Não me sinto maior nem mais leve.
Apenas devolvo ao mundo
Aquilo que ele sussurrou em mim.


Luany de Macedo Nascimento, 09/07/2026