1- O fogo que me fez gigante

Houve um dia em que o céu não estava acima de mim, mas dentro.

Não era metáfora ainda, era sensação. Uma expansão tão vasta que eu não cabia nos meus próprios ossos. Eu caminhava e o chão me obedecia. O vento me reconhecia. As pessoas pareciam figurantes de uma história que, finalmente, era minha. Eu acordei maior do que o mundo e o mundo, de repente, pareceu pequeno demais para conter meu corpo, minha voz, meus pensamentos. Era como se tivessem retirado um limite invisível da minha cabeça e tudo começasse a transbordar.

Não houve tristeza, não houve aviso, não houve silêncio. Houve fogo!

O fogo começou nos olhos. Eu percebi pelas cores. As coisas tinham bordas mais definidas, sombras mais profundas, uma nitidez quase dolorosa. O céu não era apenas azul, era uma ideia perfeita de azul, tão intensa e bela que me dava vontade de chorar.  As árvores pareciam conscientes da própria beleza. As pessoas falavam e eu entendia não apenas as palavras, mas as intenções, as falhas, os desejos escondidos atrás de cada frase. Eu me sentia lúcida como nunca. Não eufórica no sentido da alegria, mas desperta, desperta demais. Meu corpo acompanhou. Ou tentou.

Passei a dormir duas, três horas por noite, quando dormia. Não por insônia, mas por desnecessidade. O sono parecia uma perda de tempo injustificável diante da urgência de existir daquele jeito. Havia sempre algo mais importante para fazer: escrever, falar, organizar ideias, planejar futuros inteiros em uma única madrugada. Eu acordava antes do despertador, com o coração acelerado, cheia de projetos que pareciam absolutamente possíveis. Tudo parecia possível.

Eu falava rápido. Pensava rápido. Caminhava rápido. As palavras vinham em cascata, se atropelando na minha boca. As pessoas riam, no começo. Diziam que eu estava inspirada, produtiva, brilhante. Algumas se encantavam. Outras se afastavam com um cuidado que eu não percebia, porque naquele estado não existia rejeição que me atingisse. Eu não precisava de aprovação. Eu era suficiente para mim mesma, e isso parecia liberdade.

O corpo começou a dar sinais que eu ignorei. Tremores leves nas mãos. Um cansaço que eu empurrava para longe com mais movimento. Uma fome estranha que desaparecia antes de se completar. Eu esquecia de comer não por descuido, mas porque comer parecia irrelevante. O corpo era um detalhe inconveniente diante da grandiosidade da mente.

As noites eram longas e cheias. Eu escrevia compulsivamente, como se estivesse tentando salvar algo antes que desaparecesse. Textos intermináveis, mensagens longas, confissões que atravessavam a madrugada. Havia uma sensação constante de que, se eu parasse, algo se perderia para sempre. Como se a pausa fosse uma ameaça. Eu não sabia, ainda, que aquilo era um episódio maníaco.

Naquele momento, eu acreditava que tinha, finalmente, acessado minha versão mais verdadeira. Pensava: é isso que eu sou quando não me saboto, quando não me diminuo, quando não me calo. A ideia de que aquilo pudesse ser doença me ofendia. Doença era o que me apagava, não o que me acendia daquele jeito.

Mas o fogo não aquece apenas. o fogo consome. Esse foi o início épico do meu desajuste com o mundo.

Houve um incêndio silencioso que começou nos meus pensamentos e se espalhou pela carne. Meus músculos vibravam. Minha língua tropeçava de tanta palavra. Minha mente era uma constelação em expansão. Eu não sabia, ainda, que aquele brilho tinha um custo. Que toda luz intensa cobra o escuro em algum momento.


2- A queda sem aviso

A queda não teve som.

Não houve estrondo, não houve grito, não houve tempo para entender. Foi como se alguém tivesse desligado o mundo no meio de uma frase. Na noite anterior, eu ainda falava demais, pensava rápido demais, acreditava demais. Na manhã seguinte, eu acordei sem peso próprio, como se o corpo tivesse sido esvaziado durante o sono.

Não era tristeza. Era colapso.

Abri os olhos e tudo estava errado. A luz do quarto doía. O ar parecia denso demais para entrar nos pulmões. Meu coração, que antes corria como cavalo solto, agora batia lento, pesado, desinteressado. Tentei me levantar e o corpo não respondeu. Não por preguiça, mas por falência. Como um sistema que entrou em pane geral.

Sentei na cama e chorei sem entender por quê. Não havia um pensamento triste que justificasse aquele choro. Ele simplesmente aconteceu, bruto, físico, incontrolável. As lágrimas vinham de um lugar anterior à linguagem. Meu rosto inchou, minha garganta fechou, minhas mãos tremeram. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que algo tinha quebrado. A queda pós-mania não é descida. É impacto.

O corpo, que vinha funcionando em sobrecarga, desligou para se proteger. A mente, exausta, perdeu a capacidade de organizar qualquer coisa. Tudo o que antes fazia sentido agora parecia absurdo. Os planos da semana passada eram ridículos. As mensagens enviadas de madrugada me causavam vergonha imediata, quase insuportável. Eu relia coisas que tinha escrito e sentia vontade de desaparecer. A vergonha chegou junto com a lucidez.

Era como acordar depois de um delírio coletivo em que só eu tinha participado. Meu corpo doía inteiro. Músculos cansados, cabeça pesada, olhos ardendo. Era como se eu tivesse corrido uma maratona emocional sem preparo algum. Cada gesto exigia um esforço desproporcional. Levantar da cama era um projeto. Escovar os dentes, uma negociação interna. Comer, uma ideia distante.

O silêncio que veio depois da mania não era descanso. Era abandono.

Eu me sentia vazia de um jeito novo. Não aquela tristeza conhecida, lenta, que se instala aos poucos. Era um buraco aberto de uma vez, um vazio abrupto, assustador. O contraste era tão violento que parecia que duas pessoas diferentes ocupavam o mesmo corpo em dias consecutivos.

Na véspera, eu era excesso. Agora, eu era falta. O pensamento suicida não chegou como drama. Chegou como constatação. Um raciocínio simples, quase lógico: se isso é o que sobrou depois do incêndio, talvez não valha a pena continuar. Não havia desespero explícito ainda, mas havia uma indiferença perigosa. A ideia de não existir parecia confortável, um descanso possível.

Esse é o perigo da depressão bipolar: ela não implora. Ela convence. As mensagens se acumulavam e eu não respondia. Eu não tinha energia para explicar o que nem eu entendia. Qualquer tentativa de contato parecia invasiva. Eu queria silêncio, mas o silêncio não me acolhia. Ele apenas ampliava o vazio.

Meu corpo começou a dormir demais. Não um sono reparador, mas um apagamento. Eu dormia horas a fio e acordava exausta, com a sensação de que não tinha estado em lugar nenhum. Sonhos confusos, fragmentados, cheios de imagens da mania que agora pareciam caricaturas cruéis de mim mesma.

A comida perdeu o gosto. O banho não trazia alívio. A música, antes indispensável, agora irritava. Tudo parecia distante, como se houvesse um vidro grosso entre mim e o mundo. Eu via as coisas acontecerem, mas não conseguia tocá-las emocionalmente.

Foi nesse ponto que procurei ajuda, não por esperança, mas por incapacidade. Eu não confiava mais no meu julgamento. A mente que dias antes parecia brilhante agora era um terreno instável, perigoso. Eu sabia, de algum lugar ainda funcional dentro de mim, que precisava de contenção externa.

O consultório médico não parecia hostil.  Eu tentava explicar o que tinha acontecido, mas as palavras vinham lentas, falhas. Como descrever a queda de algo que ninguém viu voar? Como explicar que eu tinha estado no auge e agora estava no chão, sem transição?

Quando o médico falou em transtorno bipolar, eu ouvi com atraso. As palavras demoraram a alcançar o significado. Bipolar. Duas extremidades. Dois polos. Uma oscilação que não é escolha, nem temperamento. Eu quis negar, quis argumentar, quis fugir.

Mas algo em mim reconheceu. Reconheceu com medo, mas reconheceu. Havia um padrão ali. Uma lógica cruel, mas lógica. O fogo, a queda, o vazio. Não era a primeira vez que algo assim acontecia, era apenas a primeira vez que alguém dava um nome.

A medicação entrou como uma tentativa de conter o desastre. Comprimidos pequenos para uma dor enorme. Eu engolia com resistência, como quem aceita uma rendição forçada. Não confiava neles, mas não confiava mais em mim.

Nos primeiros dias, nada melhorou. Pelo contrário, o corpo parecia ainda mais pesado. A mente, mais lenta. Havia uma sensação de estar sendo empurrada para dentro de um poço já fundo. Eu me perguntava se aquilo era mesmo tratamento ou punição. Mas a queda já tinha acontecido, o impacto já estava dado. O que vinha agora não era o fim do voo, era aprender a respirar no chão quebrado e o chão, eu descobriria em breve, não era estável.


3 - O chão que não sustenta

Depois da queda, eu imaginei que o pior já tivesse passado. Sempre imaginei o sofrimento como um pico, um momento agudo que depois cede, mas eu estava errada. O impacto não encerra nada. Ele inaugura, o chão não sustenta, o chão cede sob o próprio peso.

A depressão bipolar não é um estado de tristeza contínua, é um esvaziamento radical depois do excesso. O corpo fica como uma casa depois de uma festa incendiária: móveis quebrados, garrafas espalhadas, cheiro de fumaça impregnado em tudo. E ninguém vem limpar. É você, sozinha, sem força, olhando para os restos do que foi.

Eu acordava com uma sensação imediata de fracasso, antes mesmo de lembrar quem eu era. Não havia pensamento estruturado ainda, mas o corpo já sabia: existir era pesado demais. Não havia curiosidade pelo dia, não havia expectativa, havia apenas a obrigação de continuar respirando, e até isso parecia excessivo.

A vergonha se instalou como uma segunda pele. Vergonha do que eu tinha sido na mania, vergonha do que eu não conseguia ser agora, vergonha de precisar de ajuda, vergonha de não dar conta das tarefas mais simples, vergonha de existir daquela forma quebrada, dependente, lenta.

O corpo começou a falhar em pequenas coisas. A coordenação parecia imprecisa. Eu derrubava objetos, esquecia palavras básicas, perdia o fio do pensamento no meio da frase, a memória recente falhava. Eu entrava em um cômodo e esquecia o motivo. Lia a mesma página várias vezes sem absorver nada. A mente, antes rápida, agora parecia coberta por uma névoa espessa.

Esse é um aspecto pouco falado da depressão bipolar: o comprometimento cognitivo.

Não é só dor emocional. É dificuldade real de pensar, organizar, decidir. Isso mina a autoestima de um jeito profundo, porque não se trata apenas de sentir-se mal, mas de sentir-se incapaz. Eu duvidava da minha inteligência, da minha competência, da minha identidade. Quem eu era sem aquela mente afiada que a mania me fazia acreditar ser natural?

As medicações começaram a fazer efeito, mas não do jeito que eu esperava. O estabilizador de humor trouxe uma contenção pesada. Eu não despencava mais em abismos tão fundos quanto nos primeiros dias, mas também não subia nada. Eu me sentia amortecida! As emoções vinham filtradas, como se passassem por um pano grosso antes de chegar até mim.

Alguns dias, eu me perguntava se aquela anestesia emocional era o preço da sobrevivência. Se para não morrer eu precisava aceitar não sentir quase nada. A ideia me entristecia, mas até a tristeza vinha fraca demais para virar protesto.

O antidepressivo entrou com cuidado excessivo. A psiquiatria teme, com razão, reacender a mania. Então as doses eram pequenas, ajustadas lentamente e acompanhadas do lítio. Cada alteração vinha acompanhada de medo: e se eu subir de novo? e se eu cair mais ainda? Meu corpo virou um campo minado químico.

Vieram os efeitos colaterais. Náuseas pela manhã. Boca seca constante. Uma sonolência estranha, que não era sono verdadeiro, mas torpor, ganho de peso gradual, silencioso, que afetava minha relação com o espelho. Depois veio o emagrecimento rápido. Num piscar de olhos, menos 10 kilos.

Isso também não se fala o suficiente: as medicações afetam o corpo feminino de forma profunda. Hormônios, ciclo, libido, autoimagem.

Eu me sentia desconectada do meu próprio corpo. Como se estivesse morando em algo que não me pertencia mais. Eu observava meu reflexo e sentia estranhamento, como se aquela mulher fosse uma versão pálida de alguém que eu lembrava vagamente. As pessoas começaram a dizer que eu estava “mais tranquila”, mas eu queria gritar. Tranquila não era a palavra, eu estava contida, amarrada por dentro.

Mas eu sorria e concordava, porque explicar era cansativo demais, contrariar exigia energia que eu não tinha. Porque, no fundo, eu também tinha medo de questionar demais e perder aquele frágil equilíbrio químico.

Os pensamentos suicidas voltaram em outro tom. Não como urgência explosiva, mas como presença constante. Uma ideia de fundo, persistente, como um ruído... Não era exatamente vontade de morrer, era vontade de não precisar continuar. Uma exaustão existencial profunda, difícil de comunicar sem assustar quem escuta.

Eu fazia acordos silenciosos comigo mesma: “Hoje não.”; “Amanhã eu vejo.”; “Só mais essa semana.”

Esse tipo de negociação interna é comum e perigosa. Ela mantém a pessoa viva, mas também normaliza a ideia da morte como alternativa possível. Eu vivia em estado de alerta constante, vigiando meus próprios pensamentos, desconfiando de mim. O isolamento se aprofundou. Não por falta de amor das pessoas, mas por falta de acesso interno. Eu não conseguia sentir conexão. O afeto batia na porta e eu não tinha força para abrir. Isso gerava culpa, mais uma camada pesada sobre um corpo já sobrecarregado.

Havia dias em que eu conseguia funcionar minimamente, conseguia me alimentar, por exemplo.  Em outros, eu não saía da cama. Não por escolha, mas por incapacidade. O corpo simplesmente não obedecia. E cada dia desses parecia confirmar a narrativa interna de inutilidade. O chão não sustentava porque ele próprio estava rachado.

E foi nesse terreno instável, entre a contenção química e o vazio emocional, que algo ainda mais perigoso começou a se formar. Um estado em que o corpo começava a recuperar energia, mas a mente permanecia mergulhada no desespero.

Eu ainda não sabia, mas estava me aproximando do território mais arriscado de todos, um estado onde tudo acontece ao mesmo tempo.


4 - Quando tudo acontece ao mesmo tempo

O primeiro sinal não foi alegria, foi movimento.

Depois de semanas de peso, algo no corpo começou a se mexer. Não era ânimo, não era esperança, não era melhora no sentido que as pessoas gostam de anunciar. Era energia crua, desorganizada, surgindo em um terreno ainda devastado. Eu conseguia levantar da cama com menos esforço. Caminhar pela casa. Falar um pouco mais. O corpo despertava, mas a mente continuava escura. Esse descompasso é traiçoeiro. Por fora, eu parecia “melhor”, por dentro, eu estava em guerra.

O estado misto não tem poesia. Ele é um erro de cálculo do sistema emocional. Uma sobreposição indevida de circuitos. A aceleração da mania encontra o desespero da depressão e cria algo novo, algo instável, algo perigoso. Eu tinha energia para agir, mas os pensamentos continuavam sombrios. Tinha impulso, mas nenhuma esperança. Tinha movimento, mas nenhum sentido e é nesse estado que o risco aumenta, porque agora o corpo obedece às ideias que antes estavam apenas ruminando em silêncio.

Minha mente voltou a correr, mas não em direção a ideias grandiosas e grande criatividade. Ela corria em círculos fechados, obsessivos. Pensamentos repetitivos, invasivos, violentos contra mim mesma, uma autocrítica feroz, incessante. Cada memória da mania era revisitada como prova de falha moral. Cada dificuldade atual era interpretada pela minha mente como confirmação de inutilidade permanente.

Eu falava mais, mas falava de desespero, chorava com raiva, me irritava com facilidade. Qualquer estímulo parecia demais: luz, som, perguntas, conselhos. Meu corpo vibrava por dentro como um fio desencapado. Não havia descanso possível, dormir ficou difícil de novo, mas agora o cansaço não desaparecia, era exaustão com insônia, um dos piores cruzamentos possíveis. A ansiedade explodiu!

Não aquela ansiedade difusa, mas uma angústia física, quase dolorosa. Aperto no peito, falta de ar. Uma sensação constante de iminência, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer, embora nada estivesse acontecendo de fato. O corpo se preparava para fugir ou lutar, mas não havia para onde ir.

As medicações começaram a ser ajustadas às pressas. Redução de antidepressivo. Introdução de antipsicótico. Manutenção do estabilizador. Cada mudança trazia novos efeitos colaterais, novas incertezas. O antipsicótico me deixava sonolenta durante o dia e inquieta à noite. Eu caminhava pela casa sem rumo, incapaz de ficar parada, incapaz de descansar.

Esse tipo de inquietação tem nome: acatisia. Foi assim com o medicamento Aripripazol, um dos antipsicóticos que precisei fazer uso. Mas, antes do nome, tem sofrimento... um desconforto interno tão intenso que parece enlouquecedor. Eu queria sair do meu próprio corpo, arrancar a pele, silenciar a mente. Nada aliviava. Nem deitar, nem andar, nem chorar.

O pensamento suicida, que na depressão vinha como fundo constante, agora ganhou urgência. Não como plano elaborado, mas como impulso. Uma ideia que surgia acompanhada de energia suficiente para ser perigosa. Isso é o que torna o estado misto tão letal: a dor permanece, mas a paralisia não. Eu tive medo de mim.

As pessoas tentavam entender, mas o estado misto confunde até quem vive dentro dele. Não há narrativa clara. Não há linha temporal organizada. Há fragmentos, impulsos, explosões emocionais. Eu chorava e, minutos depois, estava andando rápido pela casa, falando sem parar, gesticulando demais, como se algo precisasse sair de mim à força.

A raiva apareceu com intensidade. Raiva das pessoas que diziam para ter paciência. Paciência com o quê? Com um cérebro que parecia me sabotar o tempo todo? Com uma vida que exigia equilíbrio de alguém que vivia em extremos? Eu me sentia perigosa, não para os outros, mas para mim mesma.

Esse reconhecimento dói. Admitir que você precisa de proteção contra si mesma é uma ferida narcísica profunda. Eu, que sempre valorizei autonomia, lucidez, controle, agora dependia de contenção externa para continuar viva. Isso me humilhava e me salvava ao mesmo tempo.

Foram semanas de ajustes finos, consultas, monitoramento... O estado misto não cede rápido. Ele precisa ser desmontado peça por peça, com cuidado, porque qualquer erro pode jogar o pêndulo para um dos lados com violência.

Aos poucos, muito aos poucos, a energia começou a se alinhar com a contenção. A inquietação diminuiu. O sono voltou em fragmentos mais longos. O pensamento perdeu um pouco da velocidade destrutiva. Não houve alívio súbito, mas houve uma redução do risco.

Eu sobrevivi ao estado misto, mas não saí ilesa.

Algo em mim mudou de forma permanente. Uma consciência aguda da fragilidade da mente, um respeito quase temeroso pelos sinais do corpo. Eu aprendi, da pior maneira possível, que não basta estar triste ou feliz para avaliar minha saúde mental. O perigo mora justamente nas zonas híbridas.

Quando a poeira começou a baixar, o que sobrou foi um corpo medicado, uma identidade em reconstrução e uma pergunta silenciosa: como viver sabendo que a própria mente pode, às vezes, se tornar um território tão hostil? Essa pergunta não se responde rápido. Mas eu ainda estava aqui para tentar.


5 - O corpo medicado

Depois da tempestade mista, não houve celebração. Não existe vitória quando se sobrevive por contenção química e vigilância constante. O que houve foi um silêncio diferente, um silêncio menos ameaçador, mas ainda estranho. Como o som que fica nos ouvidos depois de um barulho muito alto. Meu corpo já não era apenas meu, era também um acordo farmacológico.

Eu passei a medir os dias em horários de comprimidos. Manhã, tarde, noite. Antes de dormir. Ao acordar. Os remédios ocupavam um espaço mental fixo, uma espécie de ritual obrigatório para permanecer do lado de cá. Não havia esquecimento possível sem consequência. O corpo me lembrava. A mente me lembrava. A vida passou a girar em torno da estabilidade como valor supremo.

Eu me perguntava, em silêncio, se havia uma versão minha que pudesse existir sem precisar ser domada dessa forma. Uma versão que não precisasse ser constantemente monitorada, ajustada, corrigida. Mas essa pergunta não levava a lugar nenhum além da frustração. Eu precisava lidar com a realidade que existia, não com a que eu desejava. Isso também é um custo da bipolaridade: a perda da espontaneidade emocional.

Eu passei a analisar cada emoção como possível sintoma. Se eu ria alto, me perguntava se estava subindo. Se eu chorava, temia estar descendo. Se eu me sentia entediada, suspeitava de depressão. Se me sentia animada, suspeitava de mania. O simples ato de sentir virou um campo de vigilância constante.

Dormir virou prioridade absoluta. Não como luxo, mas como tratamento. O sono passou a ser sagrado, inegociável. Aprendi a dizer não, aprendi a parar antes do limite, aprendi a desconfiar do brilho excessivo.

Mas também aprendi algo que não estava nos manuais médicos: a estabilidade pode ser silenciosa e ainda assim legítima. Ela não vem com fogos de artifício, não vem com euforia. Ela vem como dias comuns, como manhãs previsíveis, como tardes sem grandes acontecimentos. E isso, para alguém que conheceu a mania, parece pouco no começo.

Aos poucos, fui reconstruindo minha identidade para além do transtorno. Não como negação, mas como integração. Eu não era apenas bipolar. Eu era uma mulher com um transtorno bipolar. Essa diferença parece pequena, mas muda tudo. Passei a escolher e a me afastar de dinâmicas que alimentavam meus extremos. 

Meu corpo ainda era medicado, mas comecei a fazer as pazes com ele. Não completamente, não romantizando, mas com um respeito novo. Ele tinha me carregado por episódios que poderiam ter me matado. Ele aguentou o fogo, a queda, o caos químico. Ele merecia cuidado, não desprezo.

Aos poucos, muito aos poucos, eu comecei a sentir algo que não sentia há muito tempo: confiança cautelosa. Não aquela confiança grandiosa da mania, mas uma confiança miúda, cotidiana. A confiança de que eu podia atravessar um dia sem me destruir. A confiança de que um dia difícil não significava um colapso iminente. A confiança de que pedir ajuda não me diminuía.

Ainda havia medo. Sempre haverá. A bipolaridade não desaparece. Ela observa, espera, testa limites. Mas eu já não estava completamente à mercê dela. Eu tinha ferramentas. Eu tinha consciência. Eu tinha história suficiente para reconhecer padrões.

E isso me levou, finalmente, ao ponto mais difícil de todos: aceitar que minha vida não seria uma narrativa épica constante, mas algo mais próximo de uma permanência silenciosa. Foi ali que comecei a entender que sobreviver, para mim, não seria um evento extraordinário, seria um trabalho diário. E eu ainda precisava decidir se estava disposta a fazê-lo.


6- O que permanece quando o fogo não dita mais o ritmo

Ninguém acorda um dia e escolhe, com clareza épica, continuar vivendo com um transtorno crônico. O que existe é uma sequência de pequenos gestos repetidos, quase banais, que aos poucos constroem uma permanência. Tomar o remédio mesmo quando o corpo rejeita. Dormir mesmo quando a mente quer correr. Cancelar planos mesmo quando a culpa aperta. Pedir ajuda antes do desespero virar urgência.

Eu não escolhi a bipolaridade, mas precisei escolher o que fazer com ela.

Com o tempo, aprendi que recaídas não são falhas morais e nem fraqueza. São parte da arquitetura do transtorno. Houve outros episódios, menores, contidos antes de explodirem, sinais reconhecidos cedo. Ajustes, conversas difíceis com médico, comigo mesma, com meu esposo. Não romantizei mais o retorno do fogo. Quando ele ameaçava surgir, eu recuava. Não por medo, mas por memória. A memória salva.

Lembrar da queda, do impacto seco, do vazio absoluto, do estado misto em que o corpo queria agir e a mente queria desaparecer. Lembrar do medo real de não sobreviver a mim mesma. Essa lembrança não me paralisava, me orientava. Era um mapa interno desenhado à custa de dor, mas ainda assim um mapa.

Aos poucos, fui reconstruindo projetos menores. Não aqueles que atravessavam décadas em uma noite de mania, mas projetos possíveis. Coisas que cabiam em dias comuns. Escrever um pouco, estudar dentro dos meus limites, tentar criar rotinas simples. 

Eu precisei fazer o luto da mulher que eu achava que seria, aquela que funcionava em picos, que produzia em excessos, que se sentia invencível.

Esse luto foi silencioso e profundo. Porque aquela versão também era sedutora. Ela parecia intensa, admirável, quase mítica, mas ela não sobrevivia. Ela queimava rápido demais. Eu precisei aceitar que intensidade não é sinônimo de verdade, e que estabilidade não é sinônimo de mediocridade.

O corpo segue medicado, ainda há efeitos colaterais, ainda há dias de estranhamento. Ainda há ajustes, consultas. Eu não romantizo isso. É cansativo!  Mas também é o que me mantém viva o suficiente para construir algo que não desmorona a cada ciclo.

O transtorno bipolar não desapareceu. Ele nunca desaparece. Ele observa, espera, testa. Mas eu também observo agora. Eu também reconheço sinais. Eu também ajo antes do colapso. Não porque sou mais forte, mas porque aprendi, às vezes da forma mais dolorosa possível, o que acontece quando ignoro meus próprios limites.

Se há algo épico nesta história, não é o brilho da mania, nem o drama da queda. É a permanência discreta. É o compromisso diário de não se abandonar. É a coragem silenciosa de existir sem excessos, em um mundo que confunde intensidade com valor.

Eu sigo, não em linha reta, sem tropeços... Mas sigo! E isso pra mim, basta. 
Não porque a história terminou, mas porque, pela primeira vez, ela não depende mais do fogo para continuar sendo escrita.


7 – O fogo domesticado

Hoje eu sei que o fogo não era meu inimigo. Ele era desmedido, sim. Imprevisível. Violento. Mas também era parte da matéria que me compõe. O erro nunca foi ter fogo. O erro foi acreditar que eu precisava arder para existir, que intensidade era a única prova de vida possível.

Demorei para entender que não sou apenas os extremos. Não sou apenas a mulher que incendeia madrugadas nem a que afunda em silêncios espessos. Sou também a que acorda e prepara café. A que toma o remédio com um gole d’água e segue. A que escreve sem urgência. A que interrompe o próprio impulso antes que ele a ultrapasse. O fogo ainda existe.

Às vezes ele começa nas bordas da visão, na aceleração das ideias, na sensação elétrica de que tudo pode ser feito agora. Mas hoje eu reconheço o calor antes que vire incêndio. Eu reduzo o ritmo. Eu fecho abas abertas demais. Eu aviso quem precisa saber. Eu aceito ajuda. Eu durmo. Eu me preservo. Eu não preciso mais provar que estou viva através da intensidade.

Há uma dignidade rigorosa na estabilidade que antes me parecia pequena. Há força nos dias comuns. Há grandeza em cumprir rotinas quando ninguém está olhando. Sobreviver deixou de ser espetáculo; tornou-se disciplina.

Eu não sou a doença. Não sou o fogo. Não sou a queda. Eu sou a que atravessou e a que aprendeu a permanecer.

Talvez este texto seja um registro de permanência. Houve incêndio. Houve ruína. Houve reconstrução. E o que ficou não foi o brilho excessivo nem o colapso dramático. Foi algo mais difícil de sustentar: continuidade.

Se antes eu precisava me expandir até romper os próprios limites, hoje eu escolho caber em mim. Não por resignação, mas por consciência. Eu conheço o preço dos extremos. Conheço o que quase perdi. E é por isso que permanecer deixou de ser pouco. Permanecer é a forma mais concreta de vitória que eu conheço.


8 - A medida do que permanece

Não houve anúncio quando ela chegou. Nenhum marco, nenhuma sensação inaugural capaz de dizer com precisão “é agora”. A estabilidade não se apresenta como acontecimento. Ela se instala aos poucos, quase sem ser percebida, como a luz que muda de tom ao longo do dia sem que alguém acompanhe cada minuto da transição. No começo, eu desconfiei.

A ausência de extremos parecia ausência de tudo. Eu procurava sinais mais intensos, algum tipo de confirmação interna de que estava viva da maneira que aprendi a reconhecer. Mas não havia excesso, nem urgência, nem abismo. Havia apenas continuidade. E isso, por um tempo, pareceu insuficiente.

Os dias passaram a ter uma textura diferente. Não eram leves nem pesados. Eram possíveis. Eu acordava e existia dentro de um ritmo que não exigia esforço desproporcional para se manter. As tarefas não eram grandiosas, mas também não eram intransponíveis. Havia uma proporção nova entre o que eu sentia e o que eu conseguia fazer com isso.

O pensamento deixou de ser um território hostil.

Ele não era mais rápido do que eu podia acompanhar, nem lento a ponto de me perder dentro dele. As ideias vinham e iam sem se acumular em excesso, sem se fragmentar em ruído. Pela primeira vez em muito tempo, pensar não era um risco, também não era extraordinário. E foi aí que comecei a entender.

A estabilidade não oferece espetáculo. Ela não amplia nem reduz a vida de forma abrupta. Ela sustenta. Permite que as coisas aconteçam em uma escala habitável. Permite que o tempo exista sem distorções. Permite que o corpo não precise ser vencido para que o dia comece.

Existe uma sobriedade nisso que, no início, pode ser confundida com falta. Mas não é falta. É medida. Com o tempo, percebi que havia espaço. Espaço entre um pensamento e outro. Espaço entre sentir e reagir. Espaço suficiente para escolher, ainda que minimamente, o que fazer com o que me atravessa. Esse intervalo, que antes não existia, tornou-se a base de tudo.

Não é liberdade no sentido amplo. Mas é possibilidade. E possibilidade é o que sustenta qualquer forma de continuidade.

Passei a reconhecer pequenas variações sem transformá-las em ameaça imediata. Nem todo cansaço significa queda. Nem toda animação anuncia descontrole. Há nuances. Há gradações. Há dias comuns que não precisam ser interpretados como sinais de algo maior.

Essa compreensão não veio de uma vez. Foi construída na repetição silenciosa de dias que não exigiam reparo. A estabilidade também não elimina o cuidado.

Ela pede atenção constante, mas não angustiada. Um tipo de presença que não vigia de forma exaustiva, mas acompanha. Como quem observa o próprio caminho enquanto anda, sem a necessidade de prever cada passo com antecedência.

Há limites mais claros agora. Limites de tempo, de energia, de exposição. Eles não surgem como imposição externa, mas como reconhecimento interno. Eu sei quando parar. E, mais importante, aceito parar sem interpretar isso como fracasso. Isso muda tudo.

Porque, durante muito tempo, parar significava perder. Hoje, parar também pode ser manter. A vida, nesse estado, não se expande de forma desmedida, nem se retrai até desaparecer. Ela segue. E seguir, descobri, exige mais constância do que intensidade.

Há uma espécie de confiança que nasce. Não uma confiança absoluta, porque ela não seria honesta. Mas uma confiança suficiente para atravessar o dia sem antecipar um colapso. Uma confiança que não ignora a vulnerabilidade, mas também não se organiza a partir dela. Eu continuo atenta. Mas já não estou em guerra.

E talvez essa seja a mudança mais significativa. A estabilidade não me transforma em alguém imune às variações da mente. Ela me permite coexistir com elas sem ser completamente definida por cada oscilação. Há uma distância possível entre o que acontece e quem eu sou. Essa distância não é afastamento. É sustentação.

No fim, entendi que estabilidade não é ausência de movimento. É a capacidade de permanecer inteira enquanto tudo continua se movendo. E isso, para mim, já é suficiente.


Luany de Macedo Nascimento, 01/03 à 07/04 de 2026.
Um relato sobre conviver com o Transtorno Afetivo Bipolar do tipo 1.

Há um silêncio anterior a qualquer certeza. Não um silêncio vazio, mas um espaço aberto onde nada foi decidido por nós. O mundo não nos espera com respostas, nem nos acolhe com um sentido já traçado. Nós simplesmente surgimos, lançados nessa abertura, sem essência pronta, sem destino assegurado. E, ainda assim, somos convocados a viver.

Não há uma consciência superior que nos tenha pensado antes de existirmos. A ausência de Deus não é apenas uma ideia, é uma condição. Significa que não fomos projetados, que não há um molde a ser preenchido, nenhuma natureza fixa a ser descoberta. Aquilo que somos não está escondido em algum lugar, aguardando revelação. Está por ser feito. E é nesse fazer que a existência se desenrola.

Mas viver não é um gesto neutro. A cada instante, mesmo no mais cotidiano dos atos, escolhemos algo.  Escolhemos falar ou calar, permanecer ou partir, aceitar ou recusar. E não há como escapar disso. Até a recusa em escolher já é, por si só, uma escolha. Há uma liberdade silenciosa que nos atravessa? Uma liberdade que não pede permissão e não oferece descanso?

Se há, essa liberdade pesa. Não como um fardo imposto de fora, mas como algo que brota de dentro. Porque ao escolher, não traçamos apenas um caminho pessoal. Há algo mais amplo que se inscreve em cada gesto, como se disséssemos, ainda que sem palavras, que aquele modo de agir poderia valer para qualquer um. Nossas escolhas ultrapassam o instante e tocam uma ideia de humanidade que estamos, inevitavelmente, ajudando a construir.

Talvez seja por isso que a angústia e a dor apareça. Não como fraqueza, mas como resultado concreto de nossas ações e escolhas. Ela nos lembra que não há garantias, que não existe um fundamento seguro onde possamos repousar. Não há valores prontos, nem princípios eternos que nos isentem de decidir. Tudo aquilo que orienta a vida precisa ser criado, sustentado, assumido, por nós e mais ninguém. 

E, no entanto, não estamos sozinhos nesse movimento. O outro está sempre presente, mesmo quando não o vemos. Seu olhar nos alcança, nos transforma, nos devolve uma imagem que não controlamos. Diante dele, deixamos de ser apenas aquilo que escolhemos ser e passamos a existir também como aquilo que somos para alguém. Há uma tensão delicada nesse encontro, um jogo entre afirmar-se e ser capturado pelo olhar alheio.

Ainda assim, é nesse entrelaçamento que o humano se faz. Não como essência, mas como relação, como construção contínua, como algo que nunca se completa. Não há reconciliação final, não há um momento em que tudo se estabiliza. Há apenas esse movimento incessante de tornar-se, de refazer-se, de existir para além do que já se é.

Viver talvez seja isso. Habitar essa liberdade sem negá-la, sustentar a angústia sem fugir dela, encontrar no vazio não um abismo que paralisa, mas um espaço onde algo pode nascer. Não um sentido dado, mas um sentido criado, frágil e provisório, como tudo aquilo que é verdadeiramente humano. Demasiadamente humano. 

No fim, não somos aquilo que nos disseram que seríamos, nem aquilo que esperamos nos tornar um dia. Somos esse movimento inquieto entre o que já fizemos de nós e aquilo que ainda insistimos em ser. E, nesse intervalo, existe algo raro, quase imperceptível, mas profundamente nosso: a possibilidade de existir com consciência de que somos, ao mesmo tempo, ausência de fundamento e potência de criação.

Escrever cartas pedagógicas na graduação, para mim, nunca foi apenas cumprir uma proposta acadêmica. Era um gesto. Um gesto de pausa, de escuta e de encontro. Diferente de outros textos que, muitas vezes, parecem exigir comprovação, domínio ou rigor, a carta me convocava ao diálogo, não ao convencimento. Eu não escrevia para provar que sabia, mas para compreender melhor aquilo que ainda estava em movimento dentro de mim.

Havia, nesse processo, um prazer muito particular: o de pensar enquanto escrevia e escrever enquanto pensava. As teorias não apareciam como algo externo, frio ou acabado. Elas vinham atravessadas por mim. Eu não me colocava fora do texto, como quem observa de longe; ao contrário, eu me implicava. Era sujeito que pensa, que interpreta, que questiona, que concorda e que discorda, que também se perde. E tudo isso cabia na carta.

As cartas pedagógicas me permitiam falar de conceitos, autores e ideias sem abandonar minha própria voz. Não havia uma separação rígida entre “eu” e “o conhecimento”. Pelo contrário, era justamente no encontro entre esses dois que o texto ganhava vida. Eu podia duvidar, relacionar, tensionar. Podia dizer “isso me atravessa”, “isso me inquieta”, “isso dialoga com aquilo que vivi”. E, nesse movimento, o conhecimento deixava de ser algo dado para se tornar algo construído, tecido lentamente, palavra por palavra.

Talvez por isso, essas cartas nunca tenham sido, para mim, simples atividades curriculares. Eram momentos de profunda reflexão, mas também de afeto. Afeto com o que eu estudava, com o que eu escrevia e com aquilo que eu estava me tornando ao longo do processo. Havia uma espécie de intimidade, como se cada carta fosse também um registro do meu próprio percurso formativo.

Uma reflexão levava a outra. Um texto fazia ponte com outro. Uma disciplina conversava com a anterior, com a seguinte, com a vida. Nada estava isolado. Era como uma cadeia, mas não rígida, uma cadeia viva, em expansão, onde cada novo pensamento se conectava a muitos outros. E, nesse emaranhado, eu ia percebendo que aprender não era acumular conteúdos, mas produzir sentidos.

Escrever cartas pedagógicas, portanto, era mais do que escrever. Era dialogar, era me escutar, era me construir. Era compreender que o conhecimento não se encerra no texto, ele continua, reverbera, se transforma. Assim como eu.


Luany de Macedo Nascimento, 06/04/2026


I – Ser Inacabado
Somos travessia, nunca ponto final,
vento em caminho, sem forma concluída.
No inacabamento pulsa o essencial:
ser mais, refazer-se, reinventar a vida.

II – Amorosidade
Educar é gesto de afeto e presença,
é tocar o outro com cuidado e verdade.
Na amorosidade, floresce a pertença,
e o mundo se humaniza na sensibilidade.

III – Dialogicidade
Na palavra que encontra outra palavra nasce o sentido,
ninguém diz sozinho o que precisa ser dito.
É no encontro que o saber é tecido,
como ponte viva entre o eu e o mundo.

IV – Esperançar
Não é esperar, é verbo que caminha,
é lume aceso mesmo na escuridão.
Esperançar é fazer da dor semente que aninha
um futuro que pulsa no agora em construção.

V – Consciência Crítica
Ler o mundo antes da palavra escrita,
escutar os silêncios, perceber a tensão.
É na consciência que a vida se explicita,
e se transforma em gesto, em luta, em ação.

VI – Consciência Epistemológica
Saber que o saber não nasce neutro ou vazio,
que carrega marcas, história e direção.
É ver-se autor no próprio desafio,
tecendo sentidos na interpretação.

VII – Autonomia
Ser de si, no pensar e no escolher,
é romper correntes que tentam calar.
Na autonomia, aprende-se a ser,
como quem ousa no mundo se afirmar.

VIII – Práxis
Pensar e fazer, um só movimento,
ideia que ganha corpo no viver.
Na práxis, o sonho deixa de ser pensamento
e se torna caminho possível de acontecer.

IX – Opressor x Oprimido
Há vozes feridas na história calada,
e mãos que insistem em dominar.
Mas na luta que nasce da dor compartilhada,
o oprimido aprende também a se libertar.

X – Educação Bancária x Problematizadora
Não é depósito frio de saberes guardados,
mas pergunta viva que insiste em brotar.
Entre mentes silenciadas e olhares despertados,
o mundo se refaz ao problematizar.

XI – Temas Geradores
Do chão da vida nascem perguntas ardentes,
que falam do tempo, do corpo e do lugar.
São sementes que inquietam as gentes,
fazendo do aprender um modo de se implicar.

XII – Educação Popular
É no povo que o saber cria raiz,
na partilha que a palavra ganha voz.
Educação popular é o mundo que se diz
por aqueles que o constroem, por todos nós.

XIII – Educação Libertadora
Educar é abrir caminhos de existência,
é romper as grades do não poder.
É fazer da palavra um ato de resistência,
e do sujeito, um eterno vir a ser.

XIV – Travessia
Educar é um gesto humano e político,
ninguém caminha só, é no encontro que o ser se faz abrigo.
No entrelaço das mãos, no calor do dizer partilhado,
o mundo se refaz, pouco a pouco, reinventado.

É palavra que escuta e também se deixa tocar,
é silêncio fecundo que aprende a significar.
Na troca que pulsa, na escuta que cria raiz,
o saber se humaniza, floresce e se diz.

Não há fim na estrada de quem aprende a viver,
somos rios em curso, sempre a se refazer.
E no gesto de ensinar, que também é aprender,
tece-se, em comunhão, o sentido de ser.

Assim, entre vozes, sonhos e transformação,
ergue-se a esperança em forma de ação.
E no chão da vida, onde o povo insiste em existir,
educar é lutar, e também é florir.


Luany de Macedo Nascimento, 05/04/2026

No âmago obscuro onde a consciência sangra,
Ergue-se um réquiem frio de razão que se desfaz;
Sou átomo errante em lógica que se desmancha,
Um ser que pensa e, ao pensar, perece mais.

No crânio, um templo em ruínas ecoa ideias mortas,
Sinapses são espectros em lúgubre procissão;
A mente, outrora altiva, hoje jaz entrecortada
Por lâminas sutis da própria reflexão.

Oh! Funesta lucidez que a mim se entranha e cresce,
Como um verme a devorar o néctar do ideal;
Pois quanto mais concebo a essência que me tece,
Mais sinto o peso atroz de um vácuo universal.

A vida, este fenômeno de química impassível,
É um cálculo imperfeito em fórmula sem calor;
E o eu, nesta equação de término previsível,
Não passa de um desvio entre a dor e o torpor.

Carrego em cada nervo a falência do sentido,
E em cada pulsação, o anúncio do final;
Pensar tornou-se um fardo lento, apodrecido,
Que nutre a morbidez de um ser racional.

Oh, consciência! Cárcere austero e sem clemência,
Que faz da própria luz um ácido a corroer!
Se a ignorância é paz, por que me deste a consciência 
Que apenas me ensina, em lúcido sofrer?

Assim, prossigo inerte, em lúgubre vigília,
Entre o nada que fui e o nada a que hei de ir;
Sou ruína que raciocina e, em tal agonia fria,
Aprende, pouco a pouco, a arte de não existir.

Durante as férias que me dei, após conclusão de curso e o próximo passo em direção a pós graduação... Reassistir a série Dexter e é, inevitavelmente, revisitar uma pergunta incômoda: o que define o bem e o mal quando quem mata afirma seguir um código moral? Dexter Morgan não é apenas um serial killer ficcional; ele é uma construção narrativa que tensiona diferentes tradições éticas e nos obriga a confrontar os limites da moralidade.

Dexter se apresenta como alguém “vazio”, guiado por um “passageiro sombrio”. No entanto, ao longo da série, vemos afeto, vínculos, escolhas e até conflitos internos, elementos que desafiam a leitura simplista de psicopatia. Ele não mata indiscriminadamente: ele seleciona. Ele justifica. Ele segue um código aprendido com Harry. E é justamente aí que a discussão ética se abre.

A ética utilitarista, associada a Jeremy Bentham e John Stuart Mill, defende que uma ação é moralmente correta se alcança a felicidade para o maior número de pessoas. 
Sob essa ótica, Dexter poderia ser visto como um agente de “justiça paralela”: ele elimina criminosos que escaparam do sistema, potencialmente salvando vidas futuras. Há um cálculo implícito: uma morte (culpado) para evitar muitas outras (inocentes).
Mas essa lógica é perigosa. O utilitarismo, quando radicalizado, pode justificar atrocidades em nome de um suposto bem coletivo. Dexter decide sozinho quem merece viver ou morrer e isso já revela um problema ético profundo: quem lhe deu esse poder?

Conforme Maquiavel e sua ética consequencialista, que aceita em certos contextos, ações moralmente questionáveis podem ser justificadas se levarem a um resultado desejável.
Dexter encarna essa lógica de forma quase exemplar. Ele mente, manipula, encobre crimes, tudo para manter sua “missão”. O código de Harry funciona como uma racionalização: não importa o método, desde que o alvo seja “merecedor”.
Aqui, Dexter não é um herói, é um estrategista moral. Ele opera fora da lei, mas com uma lógica interna coerente. O problema é que, nesse modelo, a moral é exclusivamente instrumental.

A ética humanista valoriza a dignidade humana, a empatia e o reconhecimento do outro como sujeito. Nessa perspectiva, toda vida possui valor intrínseco. É aqui que Dexter mais falha. Mesmo que suas vítimas sejam criminosas, ele as reduz a objetos de sua necessidade. Ele não as reconhece como sujeitos passíveis de mudança, arrependimento ou complexidade. Há uma desumanização, ainda que seletiva. Por outro lado, a série tensiona isso ao mostrar que Dexter aprende a sentir, especialmente em suas relações com Rita, Debra e Harrison. Isso sugere que ele não é totalmente incapaz de humanidade,  apenas fragmentado.

A ética de Kant é talvez a mais incompatível com Dexter. Para Kant, a moral deve ser guiada por princípios universais, o imperativo categórico: devemos agir de tal modo, que nossas ações possam ser consideradas universais.  Dexter faz exatamente o oposto. Ele transforma suas vítimas em meios para satisfazer seu impulso e sua ideia de justiça. Mesmo que siga um “código”, esse código não é universalizável não pode ser aplicado a todos sem colapsar a própria ideia de moral. Sob a lente kantiana, portanto, Dexter não é um herói trágico: ele é moralmente indefensável.

Dessa forma, ao percorrer diferentes matrizes éticas, não se chega a uma validação das ações de Dexter, mas à evidência de sua complexidade moral e de como ele tensiona qualquer tentativa de enquadramento estável. Sua construção narrativa habita justamente as fissuras desses sistemas, revelando seus limites, contradições e insuficiências. Talvez, portanto, a questão nunca tenha sido decidir em qual teoria ele se encaixa, mas reconhecer que ele desorganiza todas elas. É nesse deslocamento do plano teórico para a experiência concreta da narrativa, que o debate deixa de ser apenas abstrato e passa a nos implicar diretamente enquanto espectadores, sobretudo quando nos aproximamos do desfecho da série.

Ao chegar ao final de Dexter, não se trata apenas de encerrar a trajetória de um personagem, mas de confrontar tudo aquilo que foi construído ao longo da narrativa: uma ética particular, cuidadosamente elaborada, que em vários momentos nos seduz, nos convence e, talvez de forma mais inquietante, nos faz concordar. Olhar para esse desfecho com mais atenção, com um olhar crítico, é perceber que a série nunca foi sobre justificar Dexter, mas sobre tensionar o próprio conceito de justiça que carregamos. Ao longo dos episódios, fomos levados a aceitar a lógica de que existem vidas descartáveis, de que há sujeitos que ultrapassaram qualquer possibilidade de redenção e, portanto, poderiam ser eliminados. E o mais perturbador não é que Dexter pense assim, mas que, em muitos momentos, nós também pensamos.

O final expõe as fissuras dessa construção. Ele revela que não há código capaz de conter completamente a violência, que não existe racionalidade que domestique o impulso sem deixar rastros de destruição ao redor. As relações que Dexter constrói, os afetos que ele insiste em negar e, ao mesmo tempo, não consegue evitar, mostram que ele nunca foi apenas um “monstro controlado”. Há humanidade ali fragmentada, contraditória, muitas vezes silenciada, mas suficiente para tornar tudo mais complexo. Porque, se há humanidade, há escolha. E se há escolha, há responsabilidade.

É nesse ponto que a série se torna profundamente incômoda. Ela nos obriga a reconhecer que a linha entre justiça e vingança é mais tênue do que gostaríamos de admitir. Que o discurso de “fazer o que precisa ser feito” pode facilmente escorregar para uma lógica em que qualquer meio se torna justificável. E que, quando abrimos essa brecha, já não estamos tão distantes daquilo que julgávamos condenar. Dexter não é apenas um indivíduo fora da norma; ele é, em certa medida, um espelho distorcido de uma sociedade que, por vezes, também deseja punições rápidas, definitivas e silenciosas.

Assim, o final não fecha a história, ele a desestabiliza. Ele retira qualquer conforto moral que ainda pudesse restar e nos devolve a responsabilidade de pensar. Pensar sobre o valor da vida, sobre os limites da justiça, sobre o perigo de naturalizar a violência quando ela parece estar “a nosso favor”. Para quem se permite olhar mais de perto, Dexter deixa de ser apenas uma série sobre um assassino e se transforma em uma provocação ética contínua, que permanece mesmo depois do último episódio: afinal, o que, de fato, nos autoriza a decidir quem merece viver ou morrer? E o que isso revela sobre nós?



Luany de Macedo Nascimento, 01 de Abril de 2026

 Há algo em mim que nunca aprendeu a se curvar. Não foi uma decisão repentina, nem um rompimento tardio. Foi mais como uma consciência que sempre esteve ali, mesmo quando eu ainda não tinha todas as palavras para nomeá-la. Desde cedo, eu já sentia que o lugar que tentavam desenhar para mim era estreito demais. Havia uma inadequação silenciosa, uma recusa quase instintiva em aceitar que meu existir precisasse caber em limites tão bem definidos por outros.

Enquanto muitas vozes diziam o que uma mulher deveria ser, eu já me colocava em deslocamento. Não por rebeldia vazia, mas por uma espécie de lucidez precoce. Eu não me reconhecia na submissão, não me via na renúncia como destino, nem na ideia de que minha vida precisaria girar em torno de expectativas alheias. Havia em mim um entendimento, ainda que em formação, de que ser mulher não poderia significar ser menos.

Com o tempo, essa percepção não apenas permaneceu, ela se aprofundou. Ganhou corpo, linguagem, consciência. Eu fui compreendendo que aquilo que eu recusava não era individual, mas estrutural. Que as tentativas de me moldar não eram acidentais, mas parte de algo maior, de um sistema que organiza lugares, define vozes e distribui silêncios.

Mas eu nunca me encontrei nesses silêncios.

Minha existência sempre foi uma afirmação, mesmo quando não era dita em voz alta. Uma afirmação de que eu posso ser, pensar, escolher, ocupar, sem precisar me justificar. Não houve um momento de ruptura porque nunca houve, de fato, adesão. O que existiu foi um caminho de fortalecimento, de compreensão mais profunda daquilo que, de algum modo, eu já intuía.

E isso não significa que o mundo tenha sido simples. Pelo contrário. Significa que, muitas vezes, eu precisei sustentar minha posição em meio a olhares que estranham, discursos que tentam diminuir, estruturas que insistem em delimitar. Mas há algo que me atravessa e permanece: eu não negocio a minha existência.

Ser feminista, para mim, não é apenas uma posição política, é uma forma de estar no mundo. É a maneira como eu me reconheço, como me coloco, como me relaciono com o que me cerca. Não se trata apenas de recusar o que oprime, mas de afirmar, todos os dias, a legitimidade da minha voz, do meu corpo, das minhas escolhas.

Eu não luto para me tornar algo que me foi negado. Eu luto para continuar sendo aquilo que nunca me permiti deixar de ser.

E, nesse movimento, eu não estou só. Há outras mulheres, outras histórias, outras vozes que não se dobraram, que também sustentam suas existências com firmeza. Há uma força que não começa em mim, mas que também não passa por mim sem deixar marcas. Uma força que se reconhece, que se amplia, que resiste.

No fim, não se trata de confronto constante, embora ele exista. Trata-se, sobretudo, de permanência.

Eu permaneço inteira.

Escrever para ninguém é um ato estranho, quase um ritual silencioso de entrega. Eu me sento diante do computador como quem se senta diante de um espelho que não devolve reflexo, não por ausência de imagem, mas por excesso de profundidade. Não há superfície onde eu possa me reconhecer com nitidez. Há apenas um mergulho. Eu falo, confesso, sangro palavras e nada responde. Nenhum eco. Apenas o som seco das teclas marcando o tempo, como um relógio que não mede horas, mas vulnerabilidades.

Há algo de desconcertante nisso. Eu me exponho em carne viva sem a garantia de um olhar que sustente. Cada frase é um fragmento arrancado com precisão quase cirúrgica, cada metáfora um nervo exposto que pulsa sem anestesia. Ainda assim, o silêncio não se rompe. Ele se adensa, fica espesso, imóvel, como uma presença que não acolhe nem rejeita. Apenas existe. E, nesse cenário, escrever deixa de ser comunicação. Se aproxima de uma dissecação lenta, inevitável, íntima demais para ser confortável.

Às vezes sinto que tudo se perde no instante em que nasce. Minhas palavras parecem cair num abismo sem fundo, como se se dissolvessem antes de tocar qualquer superfície. Não há retorno, não há confirmação de que chegaram a algum lugar. Mesmo assim, algo permanece. Não é exatamente um eco, mas uma ressonância interna, como se o próprio ato de escrever já fosse suficiente para sustentar o que foi dito.

Eu percebo que o mundo da escrita pode ser sombrio nesse sentido. Não pela ausência de pessoas, mas pela natureza do que acontece dentro de mim enquanto escrevo. O som do teclado ecoa como passos em um corredor longo, onde cada porta aberta revela apenas mais de mim mesma. Eu coloco tudo no texto. Memórias que ainda ardem, feridas que nunca se fecharam por completo, sonhos que se deformaram com o tempo, ruínas que continuam de pé dentro de mim. E tudo isso é lançado ao mundo sem garantia de destino, sem rosto definido para receber.

Em alguns momentos, me pergunto se o que escrevo é triste demais. Se há um excesso de peso nas palavras, uma densidade que afasta em vez de aproximar. Mas, quando olho com mais cuidado, percebo que talvez essa não seja a pergunta certa. No fim das contas, não estamos todos atravessados por alguma forma de dor? Essa euforia coletiva pela busca incessante da felicidade me soa, muitas vezes, como um sonho juvenil, quase ingênuo, como se fosse possível habitar permanentemente um estado que, por natureza, é passageiro.

Felicidade, para mim, nunca se sustentou como permanência. O que existe são momentos. Instantes breves, às vezes quase imperceptíveis, que se acendem e se apagam com a mesma rapidez de uma brisa leve. E talvez seja justamente por isso que se busca tanto por ela, como se fosse possível capturá-la e mantê-la intacta. Eu já não acredito nisso. A duras penas, eu aprendi a reconhecer o movimento do pêndulo, essa oscilação inevitável entre o que pesa e o que alivia.

E, dentro desse movimento, eu faço o que posso. Eu me agarro aos momentos que aquecem, que aliviam, que suspendem por alguns segundos o peso do mundo. Eu os vivo com intensidade porque sei que passam. Sempre passam. Não há permanência, apenas travessia.

Por isso, o que escrevo não é tristeza. O que escrevo é realidade. É o que me atravessa, o que me constitui, o que insiste em existir mesmo quando eu tento silenciar. Minhas palavras não são um exagero do que sinto, são uma forma de dar contorno ao que já está aqui.

E talvez seja isso que sustenta tudo. Minhas palavras não nascem do encontro com o outro. Elas nascem da necessidade. Há coisas dentro de mim que não aceitam permanecer em silêncio. Elas pressionam, latejam, exigem passagem. Escrever deixa de ser escolha e se torna um movimento orgânico, quase involuntário, como respirar depois de tempo demais submersa.

Nesse ponto, o silêncio já não me parece um inimigo. Ele faz parte do processo. É o espaço onde o texto existe por si só, sem depender de resposta, sem precisar ser validado. O que eu escrevo carrega sua própria razão de existir. Não porque será lido, mas porque precisou ser dito.

Eu aceito, então, esse paradoxo. Eu me exponho completamente mesmo diante do vazio. Fico em carne viva diante da tela, mesmo quando nada se move do outro lado. E continuo. Não por esperar algo em troca, mas porque há algo em mim que insiste. Algo que transforma silêncio em palavra, mesmo quando ninguém está ouvindo.

 Não é mudança de opinião ao vento,
não é capricho, nem simples oscilação,
não é fraqueza diante do sofrimento,
nem drama inventado em cada situação.

Não é só rir e logo depois chorar,
não é “coisa da cabeça” a passar,
não é falta de Deus ou de querer,
nem algo que baste esforço pra conter.

É um mundo interno que rompe o eixo,
um corpo que grita sem ter som,
é mente em guerra, sem direito a descanso,
é caos que se instala, profundo e sem tom.

No alto, a euforia que cega e seduz,
promessas de grandeza, energia sem fim,
mas cobra depois um preço que reduz
toda a coragem que ainda há em mim.

No fundo, o abismo sem cor, sem saída,
o peso do nada esmagando o existir,
é a alma cansada, partida, ferida,
sem força sequer para continuar a fingir.

E há dias em que os dois vêm juntos,
um incêndio gelado dentro do peito,
pensamentos velozes, porém tão escuros,
um corpo exausto, um querer insatisfeito.

É rir com vontade de desaparecer,
é tremer com energia a transbordar,
é viver sem conseguir compreender
se é hora de parar ou de continuar.

Estado misto: um campo de batalha,
onde a mente corre e o corpo não vai,
onde a dor grita e a euforia atrapalha,
onde viver e desistir brigam demais.

E então vêm os comprimidos na mesa,
pequenos pactos diários com o existir,
cada dose carregando incerteza,
cada efeito colateral a insistir.

É o tremor, o sono, o corpo pesado,
o gosto amargo de persistir,
é aceitar o cuidado medicado
mesmo sem sempre conseguir sentir.

Mas dói também o olhar atravessado,
a palavra jogada sem pensar,
o rótulo frio, mal interpretado,
a dor de ter que sempre se explicar.

“É frescura”, dizem, sem conhecer,
“é só querer melhorar”, alguém fala,
e cada frase dessas faz doer
mais que a própria dor que não se cala.

O preconceito pesa mais que o sintoma,
silencia, isola, faz duvidar,
transforma a luta em mais um idioma
difícil demais de se pronunciar.

Ainda assim, sigo, mesmo cansada,
mesmo com dias que parecem não ter fim,
há uma força, às vezes apagada,
mas que insiste em existir em mim.

Porque viver também é resistência,
é levantar mesmo sem chão,
é encontrar, na própria existência,
um motivo pequeno, mas não em vão.

E no dia trinta de março eu declaro,
com dor, com verdade, sem romantizar:
ser bipolar é um caminho raro,
mas ainda assim… eu escolho ficar.


Entre risos e lágrimas eu caminho, enfim,
Celebro a conquista que floresce em mim,
Mas deixo pra trás um pedaço de história,
E no peito carrego saudade e memória.

Foram lutas, quedas, dias de incerteza,
Mas segui persistente, com força e firmeza,
Hoje colho os frutos de tanto insistir,
Mesmo com o coração relutando em partir.

Entre sombras densas e picos de euforia,
Depressão e mania teceram minha travessia,
Quase desisti, como na Filosofia um dia,
Mas insisti e na Pedagogia refiz minha poesia.

Aprendi muito além do que está no papel,
Nos caminhos do PIBIC, fui mais longe que o céu,
Na Monitoria e na Residência Pedagógica, fui me fazendo,
Professora em processo, aos poucos me tecendo.

Faltou a Extensão pra fechar o ciclo inteiro,
Mas não falta orgulho do caminho verdadeiro,
Cada passo vivido me fez ser quem sou,
E tudo que passei, de algum modo, ficou.

Agora, Pedagoga, palavra que emociona,
Mas junto com ela, a dúvida ressoa,
Qual estrada seguir nesse novo lugar?
Concurso, mestrado… ou em uma nova graduação recomeçar?

E assim sigo eu, entre o fim e o começo,
Com coragem no peito e um leve tropeço,
Pois se a despedida hoje insiste em doer,
É porque foi bonito demais viver.