Sou feita de escolhas que nem sempre foram fáceis e de caminhos que não vieram prontos. Carrego a marca de quem aprendeu a decidir sem garantias, de quem entendeu cedo que agradar não pode ser condição para existir. Minha postura não se dobra para caber no olhar do outro, nem se ajusta para sustentar afetos frágeis, construídos à custa do meu silêncio. Quem sou não está à venda, nem em negociação, porque já custou caro demais me reconhecer inteira.

Não fui criada para a docilidade obrigatória, essa forma disfarçada de apagamento. Trago no corpo e na memória as marcas de quem precisou se virar, observar o mundo com atenção, resistir quando não havia amparo. Há em mim firmeza e delicadeza, coragem e contradição, porque a força verdadeira não é lisa nem perfeita. Não devo explicações por não ser santa, por não ser moldável, por recusar papéis que me diminuem e expectativas que me estreitam. Minha força nasce justamente dessa recusa: da escolha consciente de não me violentar para ser aceita.

Sou mulher que conhece seus limites e seus desejos, não como fronteiras fixas, mas como territórios em constante construção. Sei quando fico e sei quando parto, porque aprendi que permanecer não é virtude em si, assim como ir embora não é fracasso. Permanecer só faz sentido quando não exige que eu me desfigure. Partir, muitas vezes, foi o gesto mais honesto que pude oferecer a mim mesma. Escolho o que me preserva, o que me respeita, o que não exige que eu me apague para caber em relações, espaços ou narrativas que não me reconhecem.

Minha história me ensinou autonomia não como isolamento, mas como responsabilidade sobre mim. Não precisei de chão firme para aprender a caminhar, nem de abrigo constante para construir identidade. Fiz morada em mim quando o mundo não oferecia teto. Aprendi a sustentar o próprio nome, a própria voz, a própria presença, mesmo quando isso significava estar só. Carrego comigo a ética de quem se sustenta sem endurecer, de quem não muda o tom da própria voz para ser aceita, de quem não confunde pertencimento com submissão.

Ser forte, para mim, não é resistir a tudo em silêncio, nem romantizar a dureza do caminho. É existir com verdade, mesmo quando isso custa caro. É não ceder à expectativa alheia, é não suavizar quem sou para parecer menos ameaçadora ou mais palatável. É ocupar o mundo com a minha inteireza, afirmando que não devo nada à norma que tentou me domesticar. Ser forte é permanecer fiel a mim mesma, sem culpa, sem concessões que me custem a alma, e, sobretudo, sem pedir desculpas por isso.


Luany de Macedo Nascimento, 09/01/2026



 Ainda vale escrever
quando a palavra precisa competir
com dedos apressados
e reels de quinze segundos?

Escrever dói porque exige demora.

Exige ficar
onde tudo manda passar.
Enquanto o mundo desliza,
a frase pede corpo,
pede fôlego,
pede atenção.

Vivemos de lampejos:
rostos que não permanecem,
ideias que não aprofundam,
emoções descartáveis
como histórias que expiram ao amanhecer.
A vida virou rascunho
que ninguém revisa.

E ainda assim,
há algo na escrita que não aceita pressa.
Ela não dança para o algoritmo,
não se curva ao gesto automático do “próximo”.
A escrita pede permanência
num tempo que odeia raízes.

Escrever hoje
é escolher não ser raso.
É alongar o pensamento
quando tudo exige redução.
É dizer: eu fico
num mundo que só sabe partir.

Talvez ninguém leia.
Talvez fique perdido entre tantos outros,
Mas escrever nunca foi sobre aplauso
foi sobre sustentar o que ainda pensa
numa época que desaprendeu a escutar.

Enquanto houver alguém
disposto a permanecer numa frase
mais tempo do que dura um vídeo,
escrever ainda vale.

Porque onde tudo escorre,
a palavra que permanece
é um gesto de insubmissão.


Luany de Macedo Nascimento
09/01/2026

Estas palavras nasceram da vontade de transpor para o papel de como enxergo minha travessia do torna-se docente. Escrevi na época da escrita do TCC, mas ele continua sendo uma espécie de síntese do que vivi.

Não falo de dom, nem de vocação mística. Pois não acredito nisso. Fui incompreendida por colegas algumas vezes, por não enxergar a profissão docente como um sacerdócio. Ser professora não é dom, não é algo inato ao sujeito e não deveria ser feito de "qualquer forma". Pra mim, é um torna-se professora, é uma construção (desconstrução e também reconstrução). Falo de tropeços, de inseguranças, de escolhas difíceis, de estudo, de pesquisa. Falo de ser professora como quem se faz na caminhada, aprendendo e ensinando, ensinando e aprendendo, ao mesmo tempo, dialogicamente, dialeticamente e sem atalhos.

Tornar-se é verbo em movimento, é processo. É a consciência de que o ser professora não nasce pronto, mas se faz na experiência, na escuta, na alteridade, na disposição de rever o que se pensa e refazer o que se é. Tornar-se é estar em permanente inacabamento, como diria Paulo Freire. É reconhecer-se aprendiz, mesmo quando se ensina. É habitar o entre, o intervalo entre o que já se sabe e o que ainda se busca. Tornar-se é resistir à ideia de que a formação tem um ponto de chegada. É compreender que a docência não é uma posse, é uma prática ética em constante devir.


Cada palavra carrega minhas experiências, o peso e a beleza de conciliar maternidade, estudo e problemas pessoais, e de acreditar de que ensinar é, acima de tudo, um ato político.


Ensinar é também um compromisso ético com a vida e com o outro. É compreender que cada gesto docente implica responsabilidade. Quando se escolhe ensinar, assume-se o risco e a grandeza de interferir na formação de alguém. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, mas de criar possibilidades para que o outro se perceba capaz de pensar, de questionar, de transformar o mundo. Por isso, ser professora não é repetir fórmulas prontas, é reinventar o sentido da educação todos os dias.


Me entristece em certa medida que alguns pensem que o meu caminho foi fácil. Ou que fui privilegiada em alguma medida. Seja pelo tom da minha pele ou porque, na visão deles, os professores "iam com a minha cara". Nunca pararam para ver o tanto de coisa que precisei abrir mão para estar ali. Quantas noites mal dormidas, quantos finais de semana imersa nas leituras. Mesmo nas férias, estudando. Correndo atrás de bolsas acadêmicas (Monitorias, Residência Pedagógica, PIBIC) para conseguir me manter financeiramente no curso, mesmo que seja em uma instituição pública. Quantas vezes precisei abdicar do tempo (precioso) com minha filha. E quantas vezes abri mão de um simples divertimento em prol dos estudos. Quantas vezes precisei dizer "não posso", pois eu tinha uma pilha de textos para ler. Sem romantismo barato ou discurso neoliberal meritocrático. Cada um faz o seu caminho do jeito que quiser, mas que não venham me invalidar.


É foda ouvir (não há outra palavra para expressar) isso de quem passou a graduação inteira colando, plagiando e usando IA para serem aprovados nas disciplinas. Porque sim, dessa forma é fácil pra caramba!


Não foi fácil pra mim, assim como sei que não foi e nem é fácil para tantos outros.  Pois, nunca é fácil para quem leva as coisas com seriedade e responsabilidade. Meu objetivo nunca foi apenas obter o diploma e levar o curso de qualquer jeito. Se fosse, eu sequer teria começado.


E é aqui que entra a dimensão ética da docência. A ética não é uma virtude decorativa, mas sim um alicerce da formação. Há quem tenha tido todos os recursos, o tempo, o suporte, o aparato pedagógico, mas escolheu não aprender. E essa escolha é, acima de tudo, uma escolha moral. Não se trata de falta de capacidade, mas de renúncia à responsabilidade com o conhecimento. A ética, como aprendi lá atrás, na Filosofia, nasce do hábito, da prática consciente, do compromisso com a verdade e com o outro. Ser ético é reconhecer o dever de pensar. Negar o pensar é negar a própria humanidade.


Por isso, quando vejo pessoas tratando a formação docente como qualquer coisa, sinto a urgência de reafirmar que a educação não se sustenta sem ética. Que a docência exige compromisso com o saber, com a escuta e com o outro. Pois a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir a responsabilidade por ele. Ensinar por essa ótica, é, portanto, um gesto de amor ético. Um humanismo! É cuidar da permanência do mundo e das novas gerações.


Tornar-se professora é, assim, um ato de coragem. Coragem de se olhar, de se reconhecer inacabada, de se reconstruir no encontro com os outros e com as ideias. É o exercício constante de escutar e ser escutada, de interrogar o próprio fazer, de não se acomodar. Tornar-se é verbo de movimento e também de ética.


No fim, esse texto é meu registro sobre o meu entender em ser professora e estar em constante vir-a-ser, construindo-se no cotidiano, no encontro com o outro e na coragem de seguir adiante, apesar de tudo e de todos.


Entendo que ser professora é isso: estar disposta a recomeçar, a duvidar, a aprender de novo. É compreender que a docência não se esgota no diploma, mas se reinventa a cada dia, no olhar de uma criança, na palavra de um estudante, no silêncio de quem reflete. Ser professora é, para mim, antes de tudo, permanecer em travessia.


Tornar-se professora sendo mãe também me ensinou sobre limites, sobre tempo e sobre prioridades que não cabem em currículos. Aprendi que estudar com uma criança ao lado não é obstáculo, é outra forma de ler o mundo. Que educar não se divide entre casa e universidade: atravessa tudo. E talvez por isso mesmo eu nunca tenha conseguido tratar a docência como algo leve ou superficial, porque sei, na prática, o peso que um gesto educativo pode ter na vida de alguém.


Dito isso, sigo! Não como quem conclui, mas como quem aceita continuar a aprender. Há ainda perguntas sem respostas, caminhos que não se revelaram e encontros que não aconteceram. E é justamente isso que sustenta o passo seguinte.


Luany de Macedo Nascimento.