Não falo de dom, nem de vocação mística. Pois não acredito nisso. Fui incompreendida por colegas algumas vezes, por não enxergar a profissão docente como um sacerdócio. Ser professora não é dom, não é algo inato ao sujeito e não deveria ser feito de "qualquer forma". Pra mim, é um torna-se professora, é uma construção (desconstrução e também reconstrução). Falo de tropeços, de inseguranças, de escolhas difíceis, de estudo, de pesquisa. Falo de ser professora como quem se faz na caminhada, aprendendo e ensinando, ensinando e aprendendo, ao mesmo tempo, dialogicamente, dialeticamente e sem atalhos.
Tornar-se é verbo em movimento, é processo. É a consciência de que o ser professora não nasce pronto, mas se faz na experiência, na escuta, na alteridade, na disposição de rever o que se pensa e refazer o que se é. Tornar-se é estar em permanente inacabamento, como diria Paulo Freire. É reconhecer-se aprendiz, mesmo quando se ensina. É habitar o entre, o intervalo entre o que já se sabe e o que ainda se busca. Tornar-se é resistir à ideia de que a formação tem um ponto de chegada. É compreender que a docência não é uma posse, é uma prática ética em constante devir.
Cada palavra carrega minhas experiências, o peso e a beleza de conciliar maternidade, estudo e problemas pessoais, e de acreditar de que ensinar é, acima de tudo, um ato político.
Ensinar é também um compromisso ético com a vida e com o outro. É compreender que cada gesto docente implica responsabilidade. Quando se escolhe ensinar, assume-se o risco e a grandeza de interferir na formação de alguém. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, mas de criar possibilidades para que o outro se perceba capaz de pensar, de questionar, de transformar o mundo. Por isso, ser professora não é repetir fórmulas prontas, é reinventar o sentido da educação todos os dias.
Me entristece em certa medida que alguns pensem que o meu caminho foi fácil. Ou que fui privilegiada em alguma medida. Seja pelo tom da minha pele ou porque, na visão deles, os professores "iam com a minha cara". Nunca pararam para ver o tanto de coisa que precisei abrir mão para estar ali. Quantas noites mal dormidas, quantos finais de semana imersa nas leituras. Mesmo nas férias, estudando. Correndo atrás de bolsas acadêmicas (Monitorias, Residência Pedagógica, PIBIC) para conseguir me manter financeiramente no curso, mesmo que seja em uma instituição pública. Quantas vezes precisei abdicar do tempo (precioso) com minha filha. E quantas vezes abri mão de um simples divertimento em prol dos estudos. Quantas vezes precisei dizer "não posso", pois eu tinha uma pilha de textos para ler. Sem romantismo barato ou discurso neoliberal meritocrático. Cada um faz o seu caminho do jeito que quiser, mas que não venham me invalidar.
É foda ouvir (não há outra palavra para expressar) isso de quem passou a graduação inteira colando, plagiando e usando IA para serem aprovados nas disciplinas. Porque sim, dessa forma é fácil pra caramba!
Não foi fácil pra mim, assim como sei que não foi e nem é fácil para tantos outros. Pois, nunca é fácil para quem leva as coisas com seriedade e responsabilidade. Meu objetivo nunca foi apenas obter o diploma e levar o curso de qualquer jeito. Se fosse, eu sequer teria começado.
E é aqui que entra a dimensão ética da docência. A ética não é uma virtude decorativa, mas sim um alicerce da formação. Há quem tenha tido todos os recursos, o tempo, o suporte, o aparato pedagógico, mas escolheu não aprender. E essa escolha é, acima de tudo, uma escolha moral. Não se trata de falta de capacidade, mas de renúncia à responsabilidade com o conhecimento. A ética, como aprendi lá atrás, na Filosofia, nasce do hábito, da prática consciente, do compromisso com a verdade e com o outro. Ser ético é reconhecer o dever de pensar. Negar o pensar é negar a própria humanidade.
Por isso, quando vejo pessoas tratando a formação docente como qualquer coisa, sinto a urgência de reafirmar que a educação não se sustenta sem ética. Que a docência exige compromisso com o saber, com a escuta e com o outro. Pois a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir a responsabilidade por ele. Ensinar por essa ótica, é, portanto, um gesto de amor ético. Um humanismo! É cuidar da permanência do mundo e das novas gerações.
Tornar-se professora é, assim, um ato de coragem. Coragem de se olhar, de se reconhecer inacabada, de se reconstruir no encontro com os outros e com as ideias. É o exercício constante de escutar e ser escutada, de interrogar o próprio fazer, de não se acomodar. Tornar-se é verbo de movimento e também de ética.
No fim, esse texto é meu registro sobre o meu entender em ser professora e estar em constante vir-a-ser, construindo-se no cotidiano, no encontro com o outro e na coragem de seguir adiante, apesar de tudo e de todos.
Entendo que ser professora é isso: estar disposta a recomeçar, a duvidar, a aprender de novo. É compreender que a docência não se esgota no diploma, mas se reinventa a cada dia, no olhar de uma criança, na palavra de um estudante, no silêncio de quem reflete. Ser professora é, para mim, antes de tudo, permanecer em travessia.
Tornar-se professora sendo mãe também me ensinou sobre limites, sobre tempo e sobre prioridades que não cabem em currículos. Aprendi que estudar com uma criança ao lado não é obstáculo, é outra forma de ler o mundo. Que educar não se divide entre casa e universidade: atravessa tudo. E talvez por isso mesmo eu nunca tenha conseguido tratar a docência como algo leve ou superficial, porque sei, na prática, o peso que um gesto educativo pode ter na vida de alguém.
Dito isso, sigo! Não como quem conclui, mas como quem aceita continuar a aprender. Há ainda perguntas sem respostas, caminhos que não se revelaram e encontros que não aconteceram. E é justamente isso que sustenta o passo seguinte.
Luany de Macedo Nascimento.