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Luany de Macedo
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quando pensou no amor que atravessa o tempo.
Não é sobre promessas,
nem sobre eternidades gritadas,
mas sobre conversa.
Cheguei à Educação no Campo
no fim do percurso da graduação,
quando o corpo já traz marcas,
o pensamento já não aceita respostas fáceis
e o aprender deixa de ser obrigação
para se tornar escolha consciente.
mas não um fechamento.
Um alargamento.
Nas disciplinas, não encontrei apenas conteúdos.
Encontrei sujeitos.
Gente de terra, de luta, de tempo próprio.
Gente que não cabe no calendário urbano
nem na pressa da escola que não escuta.
Aprendi que o campo não é ausência.
É presença histórica.
É território de saber,
de memória,
de resistência.
Cada aula me ensinou e continuar a ensinar
a olhar sem reduzir,
a pensar sem generalizar,
a reconhecer a singularidade de quem vive
onde a vida brota do chão.
A Educação no Campo me deslocou.
Fez ruir ideias prontas,
questionou modelos,
desacomodou certezas.
Mostrou que ensinar não é levar saber,
é construir com,
a partir das experiências,
dos ritmos,
dos modos de existir.
Ali, o conhecimento não flutua.
Ele pisa a terra.
Tem cheiro de roça,
voz de comunidade,
tempo de espera e de colheita.
É um saber que nasce do trabalho,
da organização coletiva,
da relação viva com o território.
Viver essas disciplinas estar sendo aprender a respeitar.
Entendendo que não há educação justa
sem escuta verdadeira,
sem compromisso político,
sem reconhecimento do outro
como sujeito histórico.
Chego ao fim da graduação
com o diploma já à vista,
mas atravessada por perguntas.
Porque a Educação no Campo
não é ponto de chegada.
É forma de permanecer em travessia.
Entre tantos gêneros que habitam a universidade,
aprendi a atravessar o resumo com rigor,
a resenha com diálogo,
o fichamento com disciplina,
o artigo com método
e o relato de experiência com compromisso.
Todos importantes. Todos necessários.
Mas é na carta pedagógica Freireana
que a escrita em mim perde as amarras.
Nela, o texto não corre em linhas curtas.
Ele se alonga.
Respira.
Ocupa dez, quinze páginas sem pedir desculpas.
Porque há muito a dizer quando o pensamento
não se separa de quem pensa.
A carta não exige neutralidade.
Ela pede presença.
Pede que eu me coloque inteira,
como sujeito que lê o mundo antes de ler a palavra,
como alguém que estuda, mas também sente,
que teoriza, mas não se ausenta.
Na carta, não escrevo para provar.
Escrevo para dialogar.
Não organizo apenas conceitos,
organizo atravessamentos.
O texto vira encontro.
Com o autor, com a experiência, comigo.
É ali que penso com o corpo,
reflito com a memória,
me implico com o que estudo.
Não falo de fora.
Falo desde dentro.
A carta pedagógica me permite questionar com consciência,
duvidar com coragem,
afirmar sem arrogância.
Ela acolhe a pergunta que ainda não tem resposta
e o saber que nasce do chão da experiência.
Por isso, entre normas, estruturas e métodos,
é na carta que me reconheço.
Porque nela, aprender não é acumular.
É se transformar enquanto escreve.
Luany de Macedo Nascimento
O transtorno bipolar tipo 1 habita em mim como algo antigo, anterior à minha própria memória. Ele corre nas veias como um segredo herdado, um sussurro genético que atravessou gerações até encontrar abrigo no meu corpo. Não nasceu comigo por escolha, nem se instalou por descuido. Ele simplesmente chegou. E ficou. Não é fraqueza, não é falta de vontade. É uma forma intensa, desmedida e sensível de o cérebro sentir, reagir e existir no mundo.
Dentro de mim, a química não é silenciosa. Os neurotransmissores se movem como se não conhecessem repouso. Há dias em que aceleram demais, outros em que se chocam, se confundem, se perdem. É como se o pensamento e o afeto resolvessem brincar de extremos, sem pedir permissão. O equilíbrio existe, eu sei. Mas é frágil, quase translúcido. Basta um vento mais forte para tudo sair do lugar.
A fase mista, onde estou agora, não é um lugar confortável. É um território ambíguo, de fronteiras borradas. Nela, não há só euforia nem só dor. Há as duas coisas juntas, misturadas, coexistindo. A mente dispara, cria, projeta, enquanto o corpo pesa. O coração cansa antes do pensamento. É viver com o pé no acelerador e o peito em exaustão. Uma convivência estranha entre luz e sombra, sem que uma apague a outra.
A mania, em mim, acende sem aviso. É como um motor que liga sozinho. De repente, faço muito. Produzo muito. Crio muito. As ideias brotam em velocidade, a criatividade transborda, o mundo parece cheio de possibilidades. O sono se torna secundário, quase um detalhe. As noites encurtam e os dias se expandem. Tudo parece urgente, possível, necessário. Mas essa energia nem sempre é gentil. Às vezes ela vem áspera, impaciente, irritada. Há uma pressa que machuca por dentro, um incômodo que não sei nomear, uma sensação de que o mundo anda devagar demais para o ritmo que pulsa em mim.
Viver assim é aprender, todos os dias, a me escutar com honestidade. É perceber quando o brilho começa a queimar, quando a força começa a se confundir com desgaste. É aceitar que nem toda potência é sustentável e que cuidado também é limite. Não sou apenas o diagnóstico, mas ele faz parte de mim. Negá-lo seria negar a minha própria história.
Me considero forte. Não porque nunca caí, mas porque caí muitas vezes. Porque atravessei diagnósticos errados, caminhos tortos, dores sem nome e um sofrimento que parecia não ter fim. Houve confusão, medo, exaustão. Houve momentos em que tudo parecia demais. Ainda assim, permaneci. Aprendi a existir no meio do caos, a respirar mesmo quando faltava ar, a resistir quando tudo ameaçava ruir.
E aqui estou. Não intacta. Não ilesa. Mas inteira. Com cicatrizes, com consciência, com uma lucidez construída a duras travessias. Apesar de tudo, sigo. E isso, para mim, também é poesia.
Luany de Macedo Nascimento