Em mim habita Epimeteu,
mãos velozes, gesto sem previsão,
age antes mesmo que o tempo seja seu,
acende o risco sem calcular direção.

É a vertigem viva do excesso em chama,
o mundo possível na pressa do agora,
tudo se expande, tudo se inflama,
até que a queda se imponha sem demora.

Sem nome antigo que explique o declive,
o abismo surge em súbita condição,
é o corpo que falha, a mente que vive
o peso mudo da própria implosão.

Um peso denso que apaga o dia,
onde o fogo se cala sem reação,
a vida arrasta sua melancolia,
presa à gravidade da estagnação.

No raro instante em que o tempo se equilibra,
sou Prometeu em contenção,
fogo consciente que já não delira,
aprende o limite na própria razão.

É a fase neutra, difícil medida,
não o excesso, tampouco a privação,
é o ato sutil de sustentar a vida
sem se perder na oscilação.

E quando o vazio lentamente se instala,
surge Pandora sem curiosidade,
não há desejo, nem impulso que fala,
apenas silêncio e imobilidade.

Com a caixa aberta e os ruídos cessados,
resta um fundo que insiste em ficar,
nem dor nem pulso nos gestos calados,
um quase nada difícil de nomear.

A bipolaridade é travessia instável,
um eixo em constante reorganização,
remédios passam, efeito mutável,
o corpo reaprende em adaptação.

Busca-se o equilíbrio como quem se inclina,
sobre um fio tênue de sustentação,
um passo na lucidez que se disciplina,
outro à beira da dissolução.


Bakunin fala como quem desconfia do amanhã:
toda autoridade, mesmo a vermelha,
traz no bolso a semente da dominação.
Não existe Estado inocente,
nem ditadura pedagógica.
Quem governa em nome do povo
aprende rápido a governar contra ele.

Marx responde com a frieza da análise:
a liberdade não nasce do desejo,
mas da matéria.
Enquanto houver classes,
o poder não desaparece
apenas muda de mãos.
Negar o Estado sem abolir o capital
é confundir efeito com causa.

Bakunin retruca, incisivo:
abolir o capital com um novo Estado
é trocar o chicote de dono.
A burocracia não é acidente,
é consequência.
Toda vanguarda se autonomiza,
todo poder provisório cria raízes.

Gramsci entra com cuidado, mas firme:
o erro é pensar o poder
apenas como polícia e decreto.
O domínio se reproduz no consenso,
na linguagem,
no cotidiano aceito como natural.
Sem disputar a hegemonia,
a revolta se esgota no gesto.

Bakunin não cede:
hegemonia também é condução.
Quem dirige o pensamento
governa o corpo depois.
A liberdade não se ensina,
se exerce.
O povo não precisa de intérpretes,
precisa de condições.

Marx insiste:
a espontaneidade sem direção
serve ao inimigo.
O capital é totalidade,
organizado, internacional.
Enfrentá-lo exige estratégia,
não apenas negação.

Gramsci observa o impasse:
não há pureza fora da história.
Ou se constrói força coletiva,
ou se herda a força do adversário.
A questão não é evitar o poder,
mas impedir que ele se cristalize
em dominação.

Bakunin encerra, sem síntese:
todo poder cristaliza.
A revolução começa
quando ninguém manda
e ninguém obedece.
Se a liberdade espera a vitória final,
ela já foi adiada demais.

Silêncio.

Não há acordo possível.
Entre a abolição imediata
e a mediação histórica,
a fratura permanece aberta.

E talvez seja nela
que a política
revele seu limite.


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Nota de rodapé: 

Mikhail Bakunin (1814–1876) – Filósofo e revolucionário anarquista russo, pensador do século XIX. Desenvolveu uma crítica radical ao Estado, à autoridade e à religião, defendendo a abolição imediata de toda forma de dominação institucional. Sua obra mais conhecida, Deus e o Estado, escrita entre 1870 e 1871 e publicada postumamente em 1882, constitui uma das mais contundentes críticas ao poder político e à transcendência.

Karl Marx (1818–1883) – Filósofo, economista e pensador social alemão do século XIX, formulador do materialismo histórico-dialético e da crítica da economia política. Sua obra exerceu influência decisiva na constituição do pensamento sociológico e da teoria social crítica. Entre seus trabalhos centrais destacam-se O Manifesto do Partido Comunista (1848, com Friedrich Engels) e O Capital.

Antonio Gramsci (1891–1937) – Filósofo e teórico político marxista italiano do século XX. Desenvolveu o conceito de hegemonia para explicar a dominação para além da coerção econômica e estatal, enfatizando o papel da cultura, da ideologia e do senso comum. Suas reflexões estão reunidas nos Cadernos do Cárcere, escritos entre 1929 e 1935.

Há em mim uma fúria antiga.

Não é explosão breve,

é incêndio lento,

é magma contido sob a crosta da civilidade.

Aprendi cedo a chamar de “calma”

o que sempre foi repressão.

Mas a fúria permanece,

respira comigo,

arde silenciosa

enquanto o mundo exige compostura.


Sou ateia.

Não por rebeldia rasa,

mas por lucidez dolorosa.

Neguei os deuses

porque eles sempre exigiram silêncio

diante da injustiça,

resignação diante da dor,

docilidade diante do absurdo.

Prometeram céu

enquanto a vida ardia no inferno do agora.

Não me ajoelho diante de ausências.

Não consolo meu sofrimento com promessas vazias.

Prefiro a verdade nua

à mentira vestida de esperança.


Viver dói

porque se espera de mim serenidade.

Sorrisos moderados.

Palavras polidas.

Um comportamento aceitável,

como se sentir demais fosse falha de caráter.

Este mundo ama os dóceis,

os adaptáveis,

os que engolem a própria revolta

e chamam isso de maturidade.

Mas eu não sei ser mansa

num mundo que me violenta todos os dias.


Há momentos em que quero gritar.

Não metáforas, mas verdades. Cruas.

Sem ornamentos,

sem piedade,

sem o cuidado de não ferir sensibilidades frágeis.

Quero lançar aos quatro ventos

o que todos sabem,

mas fingem não ver.

Quero rasgar os véus da hipocrisia,

expor as feridas que chamam de normalidade,

nomear o que se prefere esconder

sob discursos gentis.


Minha fúria não é destruição gratuita.

Ela nasce do excesso de lucidez,

da consciência de viver num mundo

que exige silêncio dos que sangram

e bons modos dos que sofrem.

Ser educada, aqui,

é muitas vezes consentir.

E eu não consinto.


Sou ateia, sim

Pois minha moral não vem do medo do castigo,

vem do reconhecimento da dor alheia.

Se não creio em deuses,

creio na responsabilidade brutal

de existir sem desculpas celestes.

Nada nos salvará.

E é justamente por isso

que tudo importa.


Sou fúria porque me negaram espaço.

Sou fúria porque me pediram calma

quando o mundo ardia.

Sou fúria porque a serenidade imposta

é apenas outra forma de violência.


E se minhas palavras incomodam,

é porque a verdade raramente sabe

se sentar direito à mesa.


 

Vendem mistério com maquininha de cartão,
tarôs plastificados, mapas astrais genéricos,
promessas de cura embrulhadas em lilás
(sagrado feminino com certificado digital).

Invocam deusas que cabem em apostilas,
misturam incenso com discurso raso,
tentam articular feminismo
com a mesma lógica que sempre explorou mulheres
(o lucro travestido de iluminação).

Já dizia Simone:
não se nasce mulher, torna-se.
Ser mulher é construção social,
não destino místico,
não energia lunar,
não carta virada na mesa.

Não há sagrado.
Somos animais,
frutos do acaso da evolução,
corpos moldados por mutações e sobrevivência.
Não somos escolhidas,
somos existentes
(e isso basta).

Não somos deusas.
Somos seres humanos
da espécie Homo sapiens,
demasiadamente humanos,
inventando transcendências
para suportar o vazio que nos constitui.

Projetamos o sagrado em algo distante
porque aceitar o chão assusta.
Criamos novas eras, alienígenas benevolentes,
forças superiores recicladas,
a mesma superstição antiga
com verniz contemporâneo.

Enquanto isso, o patriarcado segue intacto,
observando de camarote,
rindo de quem parcela em doze vezes
um curso para “encontrar o eu feminino”
(como se a emancipação fosse mercadoria).

Misticismo barato de botequim,
vendido como libertação,
explorando fragilidades reais
para manter tudo exatamente como está.
Para isso há outro nome
e ele não é espiritualidade:
é estelionato.

Nova era, sagrado feminino,
mapas, rituais, promessas de despertar.
Mesma baboseira de toda religião
falsa, falha e fajuta,
que não rompe estruturas,
não enfrenta o poder,
não toca o patriarcado
(apenas o perfuma).

A revolução não cabe em cursos,
não aceita parcelamento,
não vem das cartas nem das estrelas.
Ela nasce do conflito,
da crítica,
da recusa em ser enganada.

Há em mim um abismo que nunca se cala,
um redemoinho voraz, sem direção,
bebe dos becos, da cidade que fala,
e engole em silêncio a própria solidão.

Carrego cidades sob a pele ferida,
umas em cinza, outras em combustão,
sou ruína que insiste em refazer a vida,
sou incêndio e também sua extinção.

O caos me habita sem pátria ou bandeira,
onde a dor se impõe como lei natural,
e o riso é contrabando em terra estrangeira,
um gesto proibido no corpo social.

Nessa nação que em mim se inventa,
não há governo, nem contenção,
cada memória é revolta violenta,
cada pensamento, insurreição.

Sou o corpo político do cansaço profundo,
a febre que arde sem redenção,
um grito disperso no meio do mundo,
eco tardio de uma implosão.

O caos é princípio, ruína e fogueira,
laboratório daquilo que sou,
é nele que arde a matéria primeira,
sem fé, sem promessa, sem o que restou.

Ali onde o sentido se desfaz no nada,
descubro o fluxo, cruel e real,
não há punição nem estrada sagrada,
apenas o tempo, vasto e brutal.

Às vezes me habito como estrangeira,
num corpo que nunca aprendi a ocupar,
vejo minha vida como quem beira
um filme antigo prestes a apagar.

Reconheço e perco o que me define,
num jogo instável entre ser e não ser,
há um fragmento que nunca termine,
vagando sem nunca se compreender.

A ordem em mim é delírio tardio,
a lucidez é um cárcere sutil,
prefiro o abismo, o salto vazio,
à paz calculada que finge existir.

Quero o grito que rompe o silêncio,
mesmo perdido no eco final,
meu sangue é rua, é manifesto denso,
é fúria contida no corpo social.

Sou contradição que nunca se encerra,
sonho disperso na razão que falhou,
trago o niilismo gravado na terra,
mas planto esperança onde tudo acabou.

O caos em mim não é só destruição,
é parto contínuo, ferida a pulsar,
um ciclo eterno de transformação,
morro e renasço no mesmo lugar.

E talvez existir seja esse ensaio,
de ser o impossível, de ainda tentar,
um diálogo bruto, sem qualquer atalho,
entre o que resta e o que quer ficar.

O caos que me habita não pede perdão,
não busca sentido nem quer redenção,
é minha verdade em exposição,
um grito por tempo, por continuação.

Sou terremoto buscando repouso,
flor que insiste em romper o chão,
poesia viva no peso monstruoso
de um universo em combustão.

E se há um fim nesse corpo tardio,
que venha em forma de reinvenção,
pois é no caos, vasto e sombrio,
que enfim encontro minha condição.