Há temas que crescem no silêncio,
como ervas nas frestas do chão,
brotam lentos no tempo denso,
sem voz, sem nome, na escuridão.

A laicidade, entrelaçada ao esquecimento,
permanece à margem da atenção,
central no tecido do pensamento,
mas ausente da problematização.

Na escola, o sagrado se insinua,
como neutro a se apresentar,
como se a tradição fosse rua
única por onde caminhar.

E a pesquisa, quando silencia,
também ensina a não enxergar,
naturaliza o que fere a via
da democracia a se afirmar.

Onde faltam palavras ditas,
os conflitos vão se esconder,
outras crenças tornam-se aflitas,
sem espaço para aparecer.

A não crença vira ausência,
o diverso perde seu lugar,
e o cuidado, em falsa aparência,
faz o proselitismo avançar.

Não é falta de fundamento,
nem carência de produção,
é resistência, é deslocamento
de um nó feito de fé e poder em tensão.

Formam-se então educadores
sem instrumentos pra questionar,
com éticas frágeis, sem rumos, sem cores,
consciências que dormem sem despertar.

Pesquisar é romper o véu,
é gesto ético, ato político,
é rasgar as sombras do céu
com compromisso público e crítico.

A escola não é altar erguido,
nem espaço de imposição,
é travessia de sentido,
é chão comum em construção.

Educar é abrir caminhos,
é garantir o direito de ser,
de crer, de não crer, sozinhos,
ou juntos, livres para viver.

Luany de Macedo Nascimento 29/01/2026

Escrever é abrir véus do indizível,
Tocar a própria sombra em mansidão,
Fazer do silêncio uma pulsação
Onde o sentir se torna quase audível.

No verso, o eu se perde, imperceptível,
Como fumaça em lenta dissolução;
A dor se faz perfume em suspensão,
Num gesto íntimo, vago e inaudível.

Escrevo para ouvir o que não digo,
Para habitar espelhos sem contorno,
E reconhecer-me estranha e antiga.

Cada poema é um abismo e um retorno,
Onde me encontro e logo me desligo,
E a palavra é névoa em eterno entorno.

Luany de Macedo Nascimento 29/01/2026

Depois do estrondo das vozes,
dos nomes lançados como pedras,
fica o silêncio
não o que acalma,
mas o que reverbera
e dói por dentro.

Abriu-se um buraco no meu peito
não desses que o tempo costura
mas um vão fundo, escuro
onde a tristeza se senta
e aprende a morar
como se sempre tivesse sido dali.

A noite veio curta, quebrada
sono em migalhas
olhos ardendo em vigília
e eu sei
corpo cansado é fósforo
mente bipolar é pólvora.

Sinto-me bomba-relógio
tic-tac no pensamento
tic-tac no coração
não só por raiva
mas pelo peso de sentir demais.

Dá vontade de partir
juntar o pouco que resta
deixar o resto para trás
como se ir embora
doesse menos
do que continuar ficando.

De repente, aqui,
já não parece lar.
As paredes me olham torto,
os gestos não me reconhecem,
sou ave sem galho,
estranha no próprio ninho

Carrego o desejo de fuga
como quem carrega febre.
Não é escolha
é sintoma.
É o corpo pedindo distância
antes de virar estilhaço.

Se eu partir
talvez seja só para respirar.
Que o amanhã venha menos pesado
e que essa vontade de ir
não precise mais gritar.


Luany de Macedo Nascimento

Pertencer a si é ser vasta e inteira,
é ter no peito o sol que acende o dia.
É ser do mundo o sopro verdadeiro,
Sem algemas, sem grades, sem vigia.

Estar com outro, sim, mas por amor. 
Jamais pra preencher o que é só meu,
pois quem se basta transborda calor, 
E o laço nasce onde já floresceu.

Amar não é buscar o que me falte,
mas partilhar o vinho da vida,
Ser dois inteiros, lado a lado.

E quando assim dois inteiros se encontram,
não há prisão, só dança, luz e calma:
um elo forte, livre e que transcende a alma. 

Luany de Macedo Nascimento, 19/01/2026

 No alto, a luz me toma de repente, 
erguendo o mundo aos tons da claridade;
depois, a noite chega imponente,
e afunda o peito em fria imensidade.

O ciclo segue, instável, soberano,
trocando o riso pelo desalento; 
sou sol e sombra no correr humano,
metade brisa, e a outra, vendaval lento.

Na mão , repousam remédios serenos, 
que aplacam ventos, mas não são guarida;
são véus sutis, pitando as minhas cenas, 
sem apagar da carne a velha ferida. 

Sigo entre extremos, sempre repartida,
buscando centro que não se alcançará;
pois mesmo mansa, a maré desta vida
traz em seu pulso o que sempre voltará.

Luany de Macedo Nascimento