Houve um tempo em que chamei de amigos aqueles que apenas caminhavam ao meu lado enquanto era conveniente. Eu acreditava na permanência, na lealdade silenciosa, na mão estendida nos dias escuros. Mas a vida, em sua crueza, tratou de me mostrar outra face das relações.
Quando adoeci por dentro, quando a depressão me roubou o riso fácil e o lugar de alegria que eu ocupava nos grupos, o silêncio se instalou ao redor. Não houve perguntas verdadeiras, nem escuta, nem cuidado. Eu já não era leve, já não animava encontros, já não sustentava a função que esperavam de mim. E, quando deixei de servir, deixei também de existir. Doeu perceber que o afeto era condicionado, que a presença dependia da minha capacidade de continuar inteira quando eu já estava em ruínas.
A dor veio em camadas: a da doença, a do abandono e a da desilusão. Em meio ao caos interno, precisei encarar que algumas das pessoas a quem chamei de amiga estava ali por interesse. Saía comigo porque eu trabalhava, porque eu podia bancar, porque eu facilitava. Nunca fiz disso uma moeda, dividir sempre me pareceu natural, mas levei tempo até compreender que aquilo não era amizade. Era utilitarismo. E processar essa verdade exigiu um luto longo e silencioso.
Só mais tarde entendi algo ainda mais sutil e perverso: havia competitividade onde eu via cumplicidade. As roupas cada vez mais parecidas com as minhas, a maquiagem, os acessórios repetidos, a minha bota calçada por outros pés. Naquele momento, jamais enxerguei como usurpação. Li tudo como admiração, proximidade, afeto. Anos depois, com distância e maturidade, compreendi que havia ali uma tentativa de ocupar o meu lugar, de apagar meus contornos, de diluir quem eu era.
Depois dessa compreensão, outras peças começaram a se encaixar. Não foi apenas a minha identidade que tentaram roubar, mas também os meus vínculos. Aos poucos, todos os meus amigos foram se afastando, até mesmo os da adolescência, que carregavam comigo memórias fundadoras. Amigos que eu mesma apresentei, acreditando na partilha, mas que ela quis apenas para si, como se também as relações pudessem ser apropriadas.
A ficha demorou a cair. Só anos depois, quando um desses colegas confirmou ter percebido o mesmo movimento, é que a verdade se impôs: o isolamento sutil, os ruídos plantados, os afastamentos cuidadosamente provocados. Não era exagero meu. Havia método.
O que mais dói é lembrar do grau de intimidade concedido. Levei essa pessoa para dentro da minha casa. Dormiu na minha cama. Tomou café da manhã comigo e com a minha família. Compartilhou meu cotidiano, meus silêncios, minha fragilidade. Eu abri a porta, ofereci abrigo e confiança. E, no fim, descobri que não passava de alguém disfarçado, atento, pronto para dar o bote. E deu. Quando percebi, eu estava cercada pelo vazio, não apenas pela depressão, mas por um isolamento construído a partir de dentro.
Afastei-me de todos. Como sobrevivência. O afastamento virou escolha, proteção, reconstrução. Foi preciso reaprender a olhar, a estabelecer limites, a entender que nem toda proximidade é cuidado e que nem toda intimidade é lealdade. O amadurecimento veio caro, mas veio.
Então houve também o momento em que o corpo e a mente cederam de vez, e eu precisei ser internada em uma clínica psiquiátrica para não desaparecer por completo. Foi ali, no lugar onde eu mais precisava ser lembrada como gente, que o abandono ganhou forma definitiva. Nenhuma visita daquela colega. Nenhuma tentativa de atravessar o desconforto para me ver. Nenhum gesto. As paredes brancas, os dias longos e a sensação de suspensão da vida foram acompanhados por um silêncio que dizia muito. Foi a partir dali que os afastamentos começaram a se consolidar, como se a minha internação tivesse autorizado a exclusão, como se a minha dor tivesse se tornado oficialmente inconveniente. Estar doente me tornou indesejável. E essa constatação doeu mais do que qualquer diagnóstico.
Com uma exceção. Houve quem enxergasse o que estava acontecendo enquanto ainda acontecia. Esse colega, o mesmo que mais tarde confirmou ter percebido o movimento dela, me visitava todos os dias. Todos. Ele sentava ao meu lado quando eu mal conseguia sustentar conversas, quando minhas palavras vinham quebradas, quando eu só conseguia existir em silêncio. Sua presença não tentava me consertar, não exigia melhora, não cobrava leveza. Ele apenas ficava. E foi ali que aprendi, na prática mais dura, o que é amizade. Enquanto muitos desapareceram quando eu precisei parar, alguém escolheu permanecer quando não havia nada em mim além de fragilidade. Essa presença diária foi uma âncora. Uma prova viva de que cuidado não se afasta diante da dor, mas se aproxima com mais delicadeza.
Com o passar dos anos, passei a construir relações mais realistas: menos de grupo, menos barulho, menos espetáculo. Mais pessoais, mais honestas, mais humanas. Aprendi que amizade não se mede pela quantidade de presenças, mas por quem permanece quando não há nada a oferecer além da própria presença.
Dei a volta por cima. Hoje, sigo inteira. Continuo sendo eu, com minhas marcas, minha história, minha voz. Reconstruí-me longe do roubo simbólico, das presenças que sugavam em vez de somar. O que sou agora não depende de plateia. É fruto de resistência. E você, ex-colega, de quem suga a nova identidade agora? Eu sigo criando a partir de mim. Eu permaneci. Você passou. E isso, por si só, diz tudo.
Não escrevo para acusar, nem para lançar culpas. Em nenhum momento a coloco como origem absoluta da minha dor ou como responsável por tudo o que vivi. Nomeio acontecimentos, reconheço atravessamentos e assumo também a minha parte, a confiança entregue, a vulnerabilidade daquele tempo, a demora em compreender. E há, sim, perdão. Um perdão que não romantiza o que aconteceu, mas que me liberta do peso de carregá-lo. Perdoei para seguir em frente, para não permanecer presa ao passado. O que ficou foi entendimento e paz.
Hoje consigo olhar para aquela versão de mim com uma ternura que antes não existia. Não me julgo mais pela ingenuidade, nem pela entrega excessiva, nem pela dificuldade em perceber o que estava diante dos olhos. Eu fiz o que pude com as ferramentas que tinha, com a carência que me atravessava, com a esperança legítima de quem acreditava que afeto era abrigo e não armadilha. Honrar essa versão de mim foi parte essencial da cura. Reconhecer que a minha sensibilidade não foi fraqueza, mas humanidade, devolveu dignidade à minha história.
Há cicatrizes que não pedem apagamento, pedem sentido. Tudo o que vivi me ensinou a distinguir presença de permanência, aproximação de vínculo, interesse de cuidado. Hoje caminho com mais consciência e menos pressa. Não preciso ocupar espaços que não me acolhem, nem disputar lugares que nunca foram meus. Aprendi a confiar novamente, mas com raízes mais profundas e fronteiras mais claras. O que permanece em mim agora não é o medo de perder pessoas, mas a certeza de que jamais voltarei a me perder para caber em ninguém.
Hoje, o que me define não é a história do que tentaram me tirar, mas a consciência do que ninguém conseguiu destruir. Permaneci fiel a mim quando tudo ao redor desmoronou, quando a solidão foi imposta, quando o amor precisou ser reaprendido a partir do chão. Sou feita também do que sobrevivi, do que compreendi tarde, do que doeu fundo e, ainda assim, não me endureceu. Carrego menos gente, mas carrego verdade. Caminho mais sóbria, mais inteira, mais minha. E isso não é fechamento, é culminância. Porque quem atravessa a própria ruína e segue criando sentido não termina em ferida. Termina em força.
P.S.: Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Luany de Macedo Nascimento, 11/01/2026
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