O transtorno bipolar tipo 1 habita em mim como algo antigo, anterior à minha própria memória. Ele corre nas veias como um segredo herdado, um sussurro genético que atravessou gerações até encontrar abrigo no meu corpo. Não nasceu comigo por escolha, nem se instalou por descuido. Ele simplesmente chegou. E ficou. Não é fraqueza, não é falta de vontade. É uma forma intensa, desmedida e sensível de o cérebro sentir, reagir e existir no mundo.

Dentro de mim, a química não é silenciosa. Os neurotransmissores se movem como se não conhecessem repouso. Há dias em que aceleram demais, outros em que se chocam, se confundem, se perdem. É como se o pensamento e o afeto resolvessem brincar de extremos, sem pedir permissão. O equilíbrio existe, eu sei. Mas é frágil, quase translúcido. Basta um vento mais forte para tudo sair do lugar.

A fase mista, onde estou agora, não é um lugar confortável. É um território ambíguo, de fronteiras borradas. Nela, não há só euforia nem só dor. Há as duas coisas juntas, misturadas, coexistindo. A mente dispara, cria, projeta, enquanto o corpo pesa. O coração cansa antes do pensamento. É viver com o pé no acelerador e o peito em exaustão. Uma convivência estranha entre luz e sombra, sem que uma apague a outra.

A mania, em mim, acende sem aviso. É como um motor que liga sozinho. De repente, faço muito. Produzo muito. Crio muito. As ideias brotam em velocidade, a criatividade transborda, o mundo parece cheio de possibilidades. O sono se torna secundário, quase um detalhe. As noites encurtam e os dias se expandem. Tudo parece urgente, possível, necessário. Mas essa energia nem sempre é gentil. Às vezes ela vem áspera, impaciente, irritada. Há uma pressa que machuca por dentro, um incômodo que não sei nomear, uma sensação de que o mundo anda devagar demais para o ritmo que pulsa em mim.

Viver assim é aprender, todos os dias, a me escutar com honestidade. É perceber quando o brilho começa a queimar, quando a força começa a se confundir com desgaste. É aceitar que nem toda potência é sustentável e que cuidado também é limite. Não sou apenas o diagnóstico, mas ele faz parte de mim. Negá-lo seria negar a minha própria história.

Me considero forte. Não porque nunca caí, mas porque caí muitas vezes. Porque atravessei diagnósticos errados, caminhos tortos, dores sem nome e um sofrimento que parecia não ter fim. Houve confusão, medo, exaustão. Houve momentos em que tudo parecia demais. Ainda assim, permaneci. Aprendi a existir no meio do caos, a respirar mesmo quando faltava ar, a resistir quando tudo ameaçava ruir.

E aqui estou. Não intacta. Não ilesa. Mas inteira. Com cicatrizes, com consciência, com uma lucidez construída a duras travessias. Apesar de tudo, sigo. E isso, para mim, também é poesia.

Luany de Macedo Nascimento


Há um silêncio que não pede socorro,
apenas chega e fica sem razão,
um cansaço antigo, denso e morno,
que aprende a morar no corpo em vão.

Como um móvel gasto pelo tempo,
cuja origem já se perdeu,
permanece ali, sem movimento,
como algo que nunca partiu nem cedeu.

Os dias pesam na existência,
não por excesso, mas por falta,
há um vazio feito de ausência
que lentamente me ressalta.

O tempo passa em tom contido,
sem urgência ou direção,
um fluxo lento e esmaecido,
sem promessa ou redenção.

Não é dor que sangra aberta,
é ausência cheia de lugar,
um vazio que se desperta
nos restos que não sei nomear.

Nomes que aos poucos desaprendi,
afetos sem forma ou cor,
fragmentos que perdi em mim
no esvaziar do próprio amor.

Sinto pouco, quase nada,
e isso dói sem tradução,
uma dor que não é falada,
mas ocupa o coração.

Como se o pulso diminuísse,
para poupar o próprio existir,
como se a vida decidisse
cansar antes de prosseguir.

Rir tornou-se coisa distante,
uma lembrança que não é mais,
chorar exige o bastante
de uma força que não se faz.

Há um incômodo silencioso,
sentado ao lado a observar,
um olhar manso e nebuloso
que já não tenta explicar.

A solidão não faz ruído,
não invade, não anuncia,
ela fica, sem ter sido
convidada a algum dia.

Fica entre mim e o que fui,
entre o agora e a lembrança,
no espaço que já não flui
onde antes havia esperança.

Fica no centro da sala vazia,
ocupando o que restou,
onde antes havia energia,
agora só o eco ficou.

E ainda assim respiro,
mesmo em exaustão,
raso, lento, quase um suspiro,
movido mais por inércia que ação.

Viver tornou-se sustentar
o mínimo que ainda há,
manter-se em pé, sem desabar,
com o pouco chão que resta cá.

Confiar que o corpo aguenta
mais um dia sem ceder,
mesmo quando tudo tenta
me puxar para não ser.

Não é vontade de partida,
é um cansaço de continuar,
uma fadiga antiga da vida
que não aprende a cessar.

Não grita, não ameaça,
não rompe em explosão,
apenas insiste e traça
seu ciclo de repetição.

Esse pensamento que vem e recua,
não pede fim nem solução,
quer silêncio na alma nua,
outra forma de percepção.

Outro jeito de existir,
que não doa tanto em mim,
um modo leve de seguir
sem carregar tanto assim.

É um estado-limite, contido,
não escolha nem decisão,
um pedido quase esquecido
por alguma abertura no chão.

Por uma vida que aconteça
sem esforço de sustentar,
que o existir não endureça
nem precise se arrastar.

Que não seja só ausência
evitando o colapso final,
mas presença em existência
menos dura, menos brutal.


Luany de Macedo Nascimento

Tem dias em que a vida não tropeça em nós, ela empurra. E empurra com força. Justo quando a gente junta coragem, ajeita os ossos, respira fundo e decide tentar mais uma vez. Existe uma ironia quase cruel nesse movimento, como se o simples ato de levantar acionasse um gatilho invisível que chama o próximo tombo.

Tudo dá errado em sequência. Não como tragédia grandiosa, mas como acúmulo. O desgaste. A soma das pequenas derrotas que corroem por dentro. A sensação de estar sempre recomeçando, mesmo sem nunca ter saído do lugar. Enquanto alguns avançam com passos largos, há quem caminhe carregando o mundo nas costas. E quando se ousa dar um passo à frente, a vida puxa pelo tornozelo e arrasta muitos outros para trás. Não por falta de esforço, não por incompetência, não por escolha errada. Simplesmente porque o chão é mais escorregadio para uns do que para outros.

Viver entre tempestades cansa. Cansa planejar, sonhar pequeno, comemorar migalhas e ainda assim ver tudo ruir diante dos olhos. Cansa viver em estado de alerta, esperando o próximo rompimento, a próxima falta, a próxima falha. Como se a estabilidade fosse sempre provisória, sempre prestes a escapar das mãos.

O amargor não nasce apenas da vida difícil, mas da repetição. Da sensação constante de queda livre. De perceber que o esforço não garante retorno, que a persistência às vezes só prolonga a dor. A gente segue porque parar não é opção, mas seguir também machuca. Há dias em que tudo o que cabe é admitir, sem maquiagem e sem lição de moral, que está pesado demais. E continuar respirando, um dia de cada vez.

Ainda assim, mesmo quando tudo parece reduzido ao esforço de apenas continuar, a vida não se apresenta em grandes respostas. Ela não vem como virada, nem como consolo pleno. O que aparece são frestas. Pequenos gestos que não anulam o cansaço, mas o tornam habitável. Não aliviam a dor, mas a atravessam. É nesse território mínimo, onde nada se resolve por inteiro, que algo insiste em permanecer.

A vida, quando vista de perto, não faz alarde. Ela se revela em gestos pequenos, quase silenciosos, e é neles que a vida encontra motivos para querer acordar no dia seguinte. Às vezes é o riso da minha filha, solto e inteiro, desses que não pedem licença e reorganizam o mundo sem esforço. Um riso que atravessa a casa e me lembra que ainda existe beleza no agora, mesmo quando o dia amanhece pesado.

Há também o abraço do meu esposo, lugar de descanso antes mesmo do pensamento. Um abraço que não resolve tudo, mas sustenta. Que não promete respostas, mas oferece presença. E isso, tantas vezes, basta. Como basta ouvir a voz dos meus pais pelo telefone, esse fio delicado que me ancora, que me devolve ao lugar de onde vim e me lembra que continuo sendo filha.

Entre um pensamento e outro, acendo um cigarro. Não como fuga, mas como pausa. Um breve acordo com o silêncio, em que o tempo desacelera e as palavras começam a se ajeitar por dentro. A fumaça sobe, os pensamentos se espalham, e fico ali, tentando escutar o que quer ser escrito em seguida.

A simplicidade da vida mora nesses instantes quase invisíveis para quem vive com pressa. Ela não grita, não exige atenção. Ela se oferece. E quando a gente aprende a olhar com cuidado, percebe que é isso, o riso, o abraço, a voz, o instante suspenso, que faz com que a gente queira acordar novamente no dia seguinte. Não por grandes acontecimentos, mas porque viver assim, simples e atravessado de afeto, ainda vale a pena.


Luany de Macedo Nascimento

 Fui chamada de desvio
antes mesmo de saber
que existiam trilhas prontas.


Desde a infância,

meu passo não cabia no compasso imposto.

Perguntava o porquê das cercas,

testava a firmeza das regras,

aprendi cedo que obedecer

não era sinônimo de viver.


Disseram que eu era demais.

Pergunta demais.

Voz demais. 

 Corpo demais que não se encolhia.


Carreguei o peso de um feminino

que não era o esperado.

Não por perversidade,

mas porque o desenho que sonharam para mim

não comportava meus contornos.


Hoje, adulta,

não busco mais provar nada.

Abro.

Abro espaço.

Abro caminho.


À minha filha ofereço o chão

que me foi negado,

o direito de existir inteira,

sem pedir licença para ser quem é.


E aqueles que antes temiam minha força

agora a nomeiam.

Reconhecem.

Sabem:


se fui ovelha fora do rebanho,

foi porque alguém precisava aprender

que também há vida

do lado de fora da cerca.


Luany de Macedo Nascimento


Às vezes escrevo como quem acende uma luz em quarto um vazio e escuro.
As palavras nascem quentes, pulsantes, mas o mundo passa ao lado,
olhos apressados, mãos cheias, silêncios largos demais.

Ser invisível é falar com o eco da própria voz, é existir entre parênteses,
é sentir que o que dói e o que salva em mim, não encontra pouso em ninguém.

Escrevo...
não porque tenho certeza de que alguém me lerá,
mas porque, se não escrevesse,
eu mesma desapareceria.


Luany de Macedo Nascimento