Não me acusem de escrever de forma "marginal"
Minha pena conhece o tom formal;
Fui moldada por Machado, Álvares, Goethe e dos Anjos em dor
Sei sim vestir meus lamentos com nobre rigor. 

Se escrevo livre, é porque assim escolhi, 
não por ausência do que já aprendi;
sei domar a métrica, o verso preciso,
mas prefiro a alma solta no improviso.

Não gosto de regras, nem grades no chão,
meu poema é incêndio, é contramão;
Não me venham com normas, compasso e medida,
que a poesia, pra mim, é sopro e é vida.

Sou mulher de palavras, de asas e que arde em chamas,
que escreve o que sente, que rasga e que ama;
Se meu verso é torto, é porque ele é real:
minha alma não cabe em uma poesia formal. 

Luany de Macedo Nascimento

Caro leitor, você mesmo que está agora me lendo, pare por um instante. Não passe os olhos por estas palavras como quem consome mais um texto qualquer. Leia como quem se coloca em risco. Pensar é isso. Um risco silencioso que começa quando a pergunta não pede permissão.

Você já percebeu como é fácil viver sem se dar conta de si? Os dias passam, as decisões se acumulam, e chamamos de escolha aquilo que muitas vezes foi apenas condicionamento. Ajustar-se ao mundo é mais seguro do que confrontá-lo. 

Viver parece simples enquanto não pensamos demais. A dificuldade começa quando o pensamento insiste. Quando a pergunta não se cala. Quando a vida deixa de ser apenas rotina e passa a exigir sentido. Pensar é um ato perigoso. Quem pensa demais começa a perceber as rachaduras do mundo e, pior ainda, as próprias.

A maior parte das pessoas não vive, elas funcionam. Acordam, cumprem tarefas, repetem gestos, reproduzem discursos. Não por imaturidade, mas por exaustão. Pensar cansa! Questionar desestabiliza. É mais confortável aceitar as respostas prontas do que sustentar o peso de uma dúvida que não promete solução. Mas o preço desse conforto é alto: a anestesia de si.

Há uma fragilidade que todos carregam e quase ninguém admite. O medo de olhar para dentro e descobrir que muito do que somos é resultado de expectativas que não escolhemos. Ideias herdadas, valores emprestados, desejos fabricados. Chamamos isso de identidade, mas talvez seja apenas adaptação. Um modo de sobreviver sem incomodar demais.

O questionamento não consola. Ele cutuca. Ela arranca o chão e pergunta o que sustenta seus passos quando a certeza falha. Ele não quer saber se você está feliz, quer saber se você está acordado. Se consegue suportar a própria finitude, a própria incoerência, o fato desconcertante de que não há garantias. Nem de sentido, nem de permanência, nem de justiça.

Quantas decisões suas foram realmente escolhas e quantas foram respostas ao medo de não pertencer, de decepcionar, de ficar só? Quantas vezes você disse sim quando o corpo gritava não? Quantas vezes chamou de maturidade aquilo que, no fundo, era desistência?

Talvez o que mais nos assuste não seja a dor, mas o silêncio que surge quando paramos de nos enganar. Nesse silêncio, não há aplauso, não há validação, não há manual. Só você diante da pergunta que evita há anos. Quem é você quando ninguém está olhando? O que sobra quando os papéis caem?

Não responda depressa, caro leitor. Respostas rápidas costumam ser defesas. Fique um pouco na pergunta. Ela revela. Ela incomoda. Ela humaniza. E talvez seja justamente isso, nesse desconforto partilhado, que um diálogo honesto possa começar. Diga, querido leitor, você vive por escolha ou por hábito? E, se pudesse escolher agora, teria coragem de escolher diferente?


Luany de Macedo Nascimento, 08/01/2026


Fui, um dia, quase só promessa.
Uma jovem que acreditava em cantos de sereia,
que confundia doçura com verdade
e chamava de amor tudo aquilo que falava bonito.
Havia em mim certa inocência,
não como falta de inteligência,
mas como excesso de esperança.

O mundo, então, foi se encarregando de me ensinar
com a rudeza que só a experiência conhece.
Aprendi que nem toda voz suave salva,
que há discursos que embalam para melhor afogar.
E foi assim, entre quedas e reerguimentos,
que deixei de ser apenas quem sonhava
para me tornar quem escolhe.

Hoje, sou mulher de chão firme.
Mãe, corpo que gera, braços que sustentam,
olhar que protege e, ao mesmo tempo, liberta.
Esposa, não por submissão,
mas por encontro, parceria, decisão cotidiana
de caminhar junto sem apagar quem sou.

Sou pedagoga porque acredito
que o mundo se transforma na sala de aula,
no gesto, na palavra, no silêncio que escuta.
Ensinar, para mim, nunca foi neutralidade:
é posição, é escolha, é compromisso histórico.

Sou atéia porque não delego à fé
aquilo que cabe à responsabilidade humana.
Feminista porque meu corpo e minha vida
não pedem permissão para existir.
Anti jovem místico porque não romantizo
a alienação vestida de espiritualidade rasa.
Anti fascista porque sei, na pele e na leitura,
o que a violência do poder faz com os corpos dissidentes.

Eu leio o mundo pelas condições concretas,
pelas relações de classe,
pelas estruturas que produzem desigualdades
e insistem em chamá-las de destino.
Politicamente situada,
porque quem diz não ter lado
geralmente já escolheu o lado da manutenção.

A travessia me tirou o véu,
mas não me roubou a sensibilidade.
Perdi ilusões, ganhei lucidez.
Troquei encantamentos fáceis
por compreensões construídas a muitas mãos,
em diálogo, em luta, em reflexão.

Não sou mais a jovem que se deixava seduzir
por promessas sem lastro.
Sou a mulher que olha, analisa, decide.
Feita de afeto e de crítica,
de cuidado e de enfrentamento.

Sou tudo isso
e sigo sendo.
Porque me constituo no movimento,
na história,
na recusa de ser menos
do que posso e escolho ser.


Luany de Macedo Nascimento 07/01/2026








 Há uma pergunta que Nietzsche fez
quando pensou no amor que atravessa o tempo.
Não é sobre promessas,
nem sobre eternidades gritadas,
mas sobre conversa.

Terei prazer em te ouvir
quando os dias forem longos?
Quando o silêncio pedir abrigo?
Quando a vida não couber em palavras?


Desde agosto de 2015
meu coração já sabia a resposta.

Elly-Berto,
conversar com você é casa.


É a inteligência que me toca antes da mão,
o pensamento que me seduz
com delicadeza e fogo.
Te ouvir é desejar ficar.


É querer mais tempo,
mais tarde,
mais nós.

Há beleza no jeito como você pensa,
no modo como lê o mundo
e o reorganiza com palavras.
Seu talento nasce sem esforço,
mas carrega verdade.

E sua presença ensina
que amor não é espetáculo,
é permanência.


Ver você amar assim
me faz te amar ainda mais.

Eu te amo
no gesto simples,
na rotina que aquece,
na paixão que não se apaga.


Te amo no diálogo que sustenta,
no silêncio que não pesa,
no cotidiano que floresce.


Se a vida me perguntasse de novo,
eu responderia sem hesitar: Sim.
Quero estar com você
pelo resto dos meus dias.

Luany de Macedo Nascimento
07/01/2026


Entre tantos gêneros que habitam a universidade,
aprendi a atravessar o resumo com rigor,
a resenha com diálogo,
o fichamento com disciplina,
o artigo com método
e o relato de experiência com compromisso.
Todos importantes. Todos necessários.

Mas é na carta pedagógica Freireana
que a escrita em mim perde as amarras.

Nela, o texto não corre em linhas curtas.
Ele se alonga.
Respira.
Ocupa dez, quinze páginas sem pedir desculpas.
Porque há muito a dizer quando o pensamento
não se separa de quem pensa.

A carta não exige neutralidade.
Ela pede presença.
Pede que eu me coloque inteira,
como sujeito que lê o mundo antes de ler a palavra,
como alguém que estuda, mas também sente,
que teoriza, mas não se ausenta.

Na carta, não escrevo para provar.
Escrevo para dialogar.
Não organizo apenas conceitos,
organizo atravessamentos.
O texto vira encontro.
Com o autor, com a experiência, comigo.

É ali que penso com o corpo,
reflito com a memória,
me implico com o que estudo.
Não falo de fora.
Falo desde dentro.

A carta pedagógica me permite questionar com consciência,
duvidar com coragem,
afirmar sem arrogância.
Ela acolhe a pergunta que ainda não tem resposta
e o saber que nasce do chão da experiência.

Por isso, entre normas, estruturas e métodos,
é na carta que me reconheço.
Porque nela, aprender não é acumular.
É se transformar enquanto escreve.

Luany de Macedo Nascimento