No início fui tímida, frágil no olhar,
tremendo em seminários, temendo falar,
mas o tempo, paciente, firmou minha voz,
fez da insegurança um caminho de nós.

Cada disciplina, com seu rigor,
não foi fardo e tampouco temor,
foi sempre horizonte, foi chão a plantar,
foi vida pulsando em saberes no ar.

Na travessia de torna-se professora,
um vir-a-ser tecido em encontros,
nos estágios brotaram bonitezas,
no afeto das crianças, sementes de doçura, mas também de firmeza. 

Conciliar foi luta e também ternura,
ser mãe e estudante em árduo caminho,
no abraço da filha encontrei doçura,
e nos estudos teóricos fui traçando meu destino.

Na reta final, um fantasma insistiu,
a depressão em mim se instalou e feriu,
mas firme fiquei, não deixei de lutar,
da Filosofia desisti, mas na Pedagogia quis ficar.

Sou ponte erguida, sou verbo a brotar,
sou professora em vir-a-ser,
como disse Freire, “inacabado eu sou”,
aprendo ensinando, é no outro que estou.

A história continua, sem ponto a deter,
sou ser inconclusa no ato de aprender,
na travessia sigo, em constante construção,
pois a educação que acredito é política: é poder de transformação!



 
Em mim habita Epimeteu,
mãos velozes, pensamento acelerado,
age antes do juízo, dança no risco,
acende fogueiras sem medir o vento.


É a vertigem da mania: excesso e impulso,
o mundo possível porque tudo parece agora.
Há também a queda, sem nome antigo,
Brusca, abismo sem figura que o explique.


Um peso que apaga o dia por dentro,
onde o fogo se extingue em silêncio
e a vida se arrasta em gravidade espessa,
Tristeza profunda, melancolia imóvel, riso ausente.

No intervalo raro em que o tempo se equilibra,
sou Prometeu em vigília contida:
fogo consciente, limite aprendido,
correntes afrouxadas pelo cuidado.

É a fase eutímica: não o excesso, nem a falta,
mas o difícil ato de permanecer inteira.
E quando tudo cessa, surge Pandora:
não a da curiosidade, mas da apatia.

Com a caixa já aberta, os ruídos calados,
Ainda assim, no fundo, quase invisível,
resta o vazio que não dói e nem pulsa.

A bipolaridade é travessia sem margem fixa,
um ajuste contínuo do próprio eixo.
Remédios que se sucedem, nomes que mudam,
quando o corpo aprende e o efeito se esgota.

Busca-se equilíbrio como quem sustenta um fio:
com um pé na lucidez e outro flertando com a loucura.



Bakunin fala como quem desconfia do amanhã:
toda autoridade, mesmo a vermelha,
traz no bolso a semente da dominação.
Não existe Estado inocente,
nem ditadura pedagógica.
Quem governa em nome do povo
aprende rápido a governar contra ele.

Marx responde com a frieza da análise:
a liberdade não nasce do desejo,
mas da matéria.
Enquanto houver classes,
o poder não desaparece
apenas muda de mãos.
Negar o Estado sem abolir o capital
é confundir efeito com causa.

Bakunin retruca, incisivo:
abolir o capital com um novo Estado
é trocar o chicote de dono.
A burocracia não é acidente,
é consequência.
Toda vanguarda se autonomiza,
todo poder provisório cria raízes.

Gramsci entra com cuidado, mas firme:
o erro é pensar o poder
apenas como polícia e decreto.
O domínio se reproduz no consenso,
na linguagem,
no cotidiano aceito como natural.
Sem disputar a hegemonia,
a revolta se esgota no gesto.

Bakunin não cede:
hegemonia também é condução.
Quem dirige o pensamento
governa o corpo depois.
A liberdade não se ensina,
se exerce.
O povo não precisa de intérpretes,
precisa de condições.

Marx insiste:
a espontaneidade sem direção
serve ao inimigo.
O capital é totalidade,
organizado, internacional.
Enfrentá-lo exige estratégia,
não apenas negação.

Gramsci observa o impasse:
não há pureza fora da história.
Ou se constrói força coletiva,
ou se herda a força do adversário.
A questão não é evitar o poder,
mas impedir que ele se cristalize
em dominação.

Bakunin encerra, sem síntese:
todo poder cristaliza.
A revolução começa
quando ninguém manda
e ninguém obedece.
Se a liberdade espera a vitória final,
ela já foi adiada demais.

Silêncio.

Não há acordo possível.
Entre a abolição imediata
e a mediação histórica,
a fratura permanece aberta.

E talvez seja nela
que a política
revele seu limite.


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Nota de rodapé: 

Mikhail Bakunin (1814–1876) – Filósofo e revolucionário anarquista russo, pensador do século XIX. Desenvolveu uma crítica radical ao Estado, à autoridade e à religião, defendendo a abolição imediata de toda forma de dominação institucional. Sua obra mais conhecida, Deus e o Estado, escrita entre 1870 e 1871 e publicada postumamente em 1882, constitui uma das mais contundentes críticas ao poder político e à transcendência.

Karl Marx (1818–1883) – Filósofo, economista e pensador social alemão do século XIX, formulador do materialismo histórico-dialético e da crítica da economia política. Sua obra exerceu influência decisiva na constituição do pensamento sociológico e da teoria social crítica. Entre seus trabalhos centrais destacam-se O Manifesto do Partido Comunista (1848, com Friedrich Engels) e O Capital.

Antonio Gramsci (1891–1937) – Filósofo e teórico político marxista italiano do século XX. Desenvolveu o conceito de hegemonia para explicar a dominação para além da coerção econômica e estatal, enfatizando o papel da cultura, da ideologia e do senso comum. Suas reflexões estão reunidas nos Cadernos do Cárcere, escritos entre 1929 e 1935.

Há em mim uma fúria antiga.

Não é explosão breve,

é incêndio lento,

é magma contido sob a crosta da civilidade.

Aprendi cedo a chamar de “calma”

o que sempre foi repressão.

Mas a fúria permanece,

respira comigo,

arde silenciosa

enquanto o mundo exige compostura.


Sou ateia.

Não por rebeldia rasa,

mas por lucidez dolorosa.

Neguei os deuses

porque eles sempre exigiram silêncio

diante da injustiça,

resignação diante da dor,

docilidade diante do absurdo.

Prometeram céu

enquanto a vida ardia no inferno do agora.

Não me ajoelho diante de ausências.

Não consolo meu sofrimento com promessas vazias.

Prefiro a verdade nua

à mentira vestida de esperança.


Viver dói

porque se espera de mim serenidade.

Sorrisos moderados.

Palavras polidas.

Um comportamento aceitável,

como se sentir demais fosse falha de caráter.

Este mundo ama os dóceis,

os adaptáveis,

os que engolem a própria revolta

e chamam isso de maturidade.

Mas eu não sei ser mansa

num mundo que me violenta todos os dias.


Há momentos em que quero gritar.

Não metáforas, mas verdades. Cruas.

Sem ornamentos,

sem piedade,

sem o cuidado de não ferir sensibilidades frágeis.

Quero lançar aos quatro ventos

o que todos sabem,

mas fingem não ver.

Quero rasgar os véus da hipocrisia,

expor as feridas que chamam de normalidade,

nomear o que se prefere esconder

sob discursos gentis.


Minha fúria não é destruição gratuita.

Ela nasce do excesso de lucidez,

da consciência de viver num mundo

que exige silêncio dos que sangram

e bons modos dos que sofrem.

Ser educada, aqui,

é muitas vezes consentir.

E eu não consinto.


Sou ateia, sim

Pois minha moral não vem do medo do castigo,

vem do reconhecimento da dor alheia.

Se não creio em deuses,

creio na responsabilidade brutal

de existir sem desculpas celestes.

Nada nos salvará.

E é justamente por isso

que tudo importa.


Sou fúria porque me negaram espaço.

Sou fúria porque me pediram calma

quando o mundo ardia.

Sou fúria porque a serenidade imposta

é apenas outra forma de violência.


E se minhas palavras incomodam,

é porque a verdade raramente sabe

se sentar direito à mesa.


 

Vendem mistério com maquininha de cartão,
tarôs plastificados, mapas astrais genéricos,
promessas de cura embrulhadas em lilás
(sagrado feminino com certificado digital).

Invocam deusas que cabem em apostilas,
misturam incenso com discurso raso,
tentam articular feminismo
com a mesma lógica que sempre explorou mulheres
(o lucro travestido de iluminação).

Já dizia Simone:
não se nasce mulher, torna-se.
Ser mulher é construção social,
não destino místico,
não energia lunar,
não carta virada na mesa.

Não há sagrado.
Somos animais,
frutos do acaso da evolução,
corpos moldados por mutações e sobrevivência.
Não somos escolhidas,
somos existentes
(e isso basta).

Não somos deusas.
Somos seres humanos
da espécie Homo sapiens,
demasiadamente humanos,
inventando transcendências
para suportar o vazio que nos constitui.

Projetamos o sagrado em algo distante
porque aceitar o chão assusta.
Criamos novas eras, alienígenas benevolentes,
forças superiores recicladas,
a mesma superstição antiga
com verniz contemporâneo.

Enquanto isso, o patriarcado segue intacto,
observando de camarote,
rindo de quem parcela em doze vezes
um curso para “encontrar o eu feminino”
(como se a emancipação fosse mercadoria).

Misticismo barato de botequim,
vendido como libertação,
explorando fragilidades reais
para manter tudo exatamente como está.
Para isso há outro nome
e ele não é espiritualidade:
é estelionato.

Nova era, sagrado feminino,
mapas, rituais, promessas de despertar.
Mesma baboseira de toda religião
falsa, falha e fajuta,
que não rompe estruturas,
não enfrenta o poder,
não toca o patriarcado
(apenas o perfuma).

A revolução não cabe em cursos,
não aceita parcelamento,
não vem das cartas nem das estrelas.
Ela nasce do conflito,
da crítica,
da recusa em ser enganada.