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Luany de Macedo
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Em mim habita Epimeteu,
mãos velozes, gesto sem previsão,
age antes mesmo que o tempo seja seu,
acende o risco sem calcular direção.
É a vertigem viva do excesso em chama,
o mundo possível na pressa do agora,
tudo se expande, tudo se inflama,
até que a queda se imponha sem demora.
Sem nome antigo que explique o declive,
o abismo surge em súbita condição,
é o corpo que falha, a mente que vive
o peso mudo da própria implosão.
Um peso denso que apaga o dia,
onde o fogo se cala sem reação,
a vida arrasta sua melancolia,
presa à gravidade da estagnação.
No raro instante em que o tempo se equilibra,
sou Prometeu em contenção,
fogo consciente que já não delira,
aprende o limite na própria razão.
É a fase neutra, difícil medida,
não o excesso, tampouco a privação,
é o ato sutil de sustentar a vida
sem se perder na oscilação.
E quando o vazio lentamente se instala,
surge Pandora sem curiosidade,
não há desejo, nem impulso que fala,
apenas silêncio e imobilidade.
Com a caixa aberta e os ruídos cessados,
resta um fundo que insiste em ficar,
nem dor nem pulso nos gestos calados,
um quase nada difícil de nomear.
A bipolaridade é travessia instável,
um eixo em constante reorganização,
remédios passam, efeito mutável,
o corpo reaprende em adaptação.
Busca-se o equilíbrio como quem se inclina,
sobre um fio tênue de sustentação,
um passo na lucidez que se disciplina,
outro à beira da dissolução.
mãos velozes, gesto sem previsão,
age antes mesmo que o tempo seja seu,
acende o risco sem calcular direção.
o mundo possível na pressa do agora,
tudo se expande, tudo se inflama,
até que a queda se imponha sem demora.
o abismo surge em súbita condição,
é o corpo que falha, a mente que vive
o peso mudo da própria implosão.
onde o fogo se cala sem reação,
a vida arrasta sua melancolia,
presa à gravidade da estagnação.
sou Prometeu em contenção,
fogo consciente que já não delira,
aprende o limite na própria razão.
não o excesso, tampouco a privação,
é o ato sutil de sustentar a vida
sem se perder na oscilação.
surge Pandora sem curiosidade,
não há desejo, nem impulso que fala,
apenas silêncio e imobilidade.
resta um fundo que insiste em ficar,
nem dor nem pulso nos gestos calados,
um quase nada difícil de nomear.
um eixo em constante reorganização,
remédios passam, efeito mutável,
o corpo reaprende em adaptação.
sobre um fio tênue de sustentação,
um passo na lucidez que se disciplina,
outro à beira da dissolução.
Há em mim uma fúria antiga. Não é explosão breve, é incêndio lento, é magma contido sob a crosta da civilidade. Aprendi cedo a chamar de “calma” o que sempre foi repressão. Mas a fúria permanece, respira comigo, arde silenciosa enquanto o mundo exige compostura. Sou ateia. Não por rebeldia rasa, mas por lucidez dolorosa. Neguei os deuses porque eles sempre exigiram silêncio diante da injustiça, resignação diante da dor, docilidade diante do absurdo. Prometeram céu enquanto a vida ardia no inferno do agora. Não me ajoelho diante de ausências. Não consolo meu sofrimento com promessas vazias. Prefiro a verdade nua à mentira vestida de esperança. Viver dói porque se espera de mim serenidade. Sorrisos moderados. Palavras polidas. Um comportamento aceitável, como se sentir demais fosse falha de caráter. Este mundo ama os dóceis, os adaptáveis, os que engolem a própria revolta e chamam isso de maturidade. Mas eu não sei ser mansa num mundo que me violenta todos os dias. Há momentos em que quero gritar. Não metáforas, mas verdades. Cruas. Sem ornamentos, sem piedade, sem o cuidado de não ferir sensibilidades frágeis. Quero lançar aos quatro ventos o que todos sabem, mas fingem não ver. Quero rasgar os véus da hipocrisia, expor as feridas que chamam de normalidade, nomear o que se prefere esconder sob discursos gentis. Minha fúria não é destruição gratuita. Ela nasce do excesso de lucidez, da consciência de viver num mundo que exige silêncio dos que sangram e bons modos dos que sofrem. Ser educada, aqui, é muitas vezes consentir. E eu não consinto. Sou ateia, sim Pois minha moral não vem do medo do castigo, vem do reconhecimento da dor alheia. Se não creio em deuses, creio na responsabilidade brutal de existir sem desculpas celestes. Nada nos salvará. E é justamente por isso que tudo importa. Sou fúria porque me negaram espaço. Sou fúria porque me pediram calma quando o mundo ardia. Sou fúria porque a serenidade imposta é apenas outra forma de violência. E se minhas palavras incomodam, é porque a verdade raramente sabe se sentar direito à mesa.
Vendem mistério com maquininha de cartão,
tarôs plastificados, mapas astrais genéricos,
promessas de cura embrulhadas em lilás
(sagrado feminino com certificado digital).
Invocam deusas que cabem em apostilas,
misturam incenso com discurso raso,
tentam articular feminismo
com a mesma lógica que sempre explorou mulheres
(o lucro travestido de iluminação).
Já dizia Simone:
não se nasce mulher, torna-se.
Ser mulher é construção social,
não destino místico,
não energia lunar,
não carta virada na mesa.
Não há sagrado.
Somos animais,
frutos do acaso da evolução,
corpos moldados por mutações e sobrevivência.
Não somos escolhidas,
somos existentes
(e isso basta).
Não somos deusas.
Somos seres humanos
da espécie Homo sapiens,
demasiadamente humanos,
inventando transcendências
para suportar o vazio que nos constitui.
Projetamos o sagrado em algo distante
porque aceitar o chão assusta.
Criamos novas eras, alienígenas benevolentes,
forças superiores recicladas,
a mesma superstição antiga
com verniz contemporâneo.
Enquanto isso, o patriarcado segue intacto,
observando de camarote,
rindo de quem parcela em doze vezes
um curso para “encontrar o eu feminino”
(como se a emancipação fosse mercadoria).
Misticismo barato de botequim,
vendido como libertação,
explorando fragilidades reais
para manter tudo exatamente como está.
Para isso há outro nome
e ele não é espiritualidade:
é estelionato.
Nova era, sagrado feminino,
mapas, rituais, promessas de despertar.
Mesma baboseira de toda religião
falsa, falha e fajuta,
que não rompe estruturas,
não enfrenta o poder,
não toca o patriarcado
(apenas o perfuma).
A revolução não cabe em cursos,
não aceita parcelamento,
não vem das cartas nem das estrelas.
Ela nasce do conflito,
da crítica,
da recusa em ser enganada.
bebe dos becos, da cidade que fala,
e engole em silêncio a própria solidão.
Carrego cidades sob a pele ferida,
umas em cinza, outras em combustão,
sou ruína que insiste em refazer a vida,
sou incêndio e também sua extinção.
O caos me habita sem pátria ou bandeira,
onde a dor se impõe como lei natural,
e o riso é contrabando em terra estrangeira,
um gesto proibido no corpo social.
Nessa nação que em mim se inventa,
não há governo, nem contenção,
cada memória é revolta violenta,
cada pensamento, insurreição.
Sou o corpo político do cansaço profundo,
a febre que arde sem redenção,
um grito disperso no meio do mundo,
eco tardio de uma implosão.
O caos é princípio, ruína e fogueira,
laboratório daquilo que sou,
é nele que arde a matéria primeira,
sem fé, sem promessa, sem o que restou.
Ali onde o sentido se desfaz no nada,
descubro o fluxo, cruel e real,
não há punição nem estrada sagrada,
apenas o tempo, vasto e brutal.
Às vezes me habito como estrangeira,
num corpo que nunca aprendi a ocupar,
vejo minha vida como quem beira
um filme antigo prestes a apagar.
Reconheço e perco o que me define,
num jogo instável entre ser e não ser,
há um fragmento que nunca termine,
vagando sem nunca se compreender.
A ordem em mim é delírio tardio,
a lucidez é um cárcere sutil,
prefiro o abismo, o salto vazio,
à paz calculada que finge existir.
Quero o grito que rompe o silêncio,
mesmo perdido no eco final,
meu sangue é rua, é manifesto denso,
é fúria contida no corpo social.
Sou contradição que nunca se encerra,
sonho disperso na razão que falhou,
trago o niilismo gravado na terra,
mas planto esperança onde tudo acabou.
O caos em mim não é só destruição,
é parto contínuo, ferida a pulsar,
um ciclo eterno de transformação,
morro e renasço no mesmo lugar.
E talvez existir seja esse ensaio,
de ser o impossível, de ainda tentar,
um diálogo bruto, sem qualquer atalho,
entre o que resta e o que quer ficar.
O caos que me habita não pede perdão,
não busca sentido nem quer redenção,
é minha verdade em exposição,
um grito por tempo, por continuação.
Sou terremoto buscando repouso,
flor que insiste em romper o chão,
poesia viva no peso monstruoso
de um universo em combustão.
E se há um fim nesse corpo tardio,
que venha em forma de reinvenção,
pois é no caos, vasto e sombrio,
que enfim encontro minha condição.