Eu não pedi essa coisa torta crescendo dentro da minha cabeça,
não assinei contrato algum para morar nessa mente em ruínas,
não levantei a mão concordando com essa distorção feroz,
essa engrenagem quebrada girando onde devia haver silêncio,
essa fodida aberração química chamada bipolaridade.

Dói medir a vida em comprimidos,
De segunda a domingo, marcados não por dias, mas por doses,
um comprimido pra calar o excesso, outro pra acordar o nada,
tamanhos e formatos diferentes prometendo equilíbrios que nunca chegam,
e eu contando cápsulas como quem conta derrotas.

Remédio pra isso, pra aquilo, pra mim, pra quem eu era,
bulas que falam mais de mim do que meus próprios diários,
efeitos colaterais sussurrando novas versões de mim mesma,
e a esperança virando pó no fundo de cada cartela,
porque melhorar parece sempre um verbo adiado.

A mente não clareia, ela embaralha, embaralha, embaralha,
pensamentos tropeçam uns nos outros como móveis no escuro,
nomes somem, vontades evaporam, sentidos se confundem,
o mundo fala alto demais, sente forte demais, gira rápido demais,
e tudo piora mesmo quando dizem que era pra melhorar.

Agora o que resta não é grito nem tempestade,
é o vazio parado depois do desastre,
é um silêncio espesso grudado nos ossos,
é existir sem cor, sem peso, sem eco,
a mais pura e angustiante apatia.

As palavras não pedem licença,
elas só vêm,
quentes, rápidas, atravessadas,
como se nascessem prontas demais
dentro da minha garganta.

É irritação sem motivo visível,
um nervo aceso sob a pele,
sons que ferem, portas que explodem,
vozes que pesam toneladas
sobre um coração já apertado.

E junto disso, algo endurece:
fico distante, áspera, quase ausente,
uma insensibilidade estranha
que me rouba o cuidado
antes mesmo que eu perceba.

Então tudo estoura,
um caos súbito, incontornável,
e quanto mais tento consertar
mais espalho faíscas
num quarto cheio de gás.

Quando passa, não vem calma.
Vem o nada.
A apatia senta ao meu lado em silêncio
e me olha nos olhos
como se fosse o único sentimento que restou.

Há em mim uma vontade estranha de sair pela noite sem destino, como se as ruas vazias soubessem guardar segredos que eu ainda não consegui nomear. Como se o asfalto úmido, os postes acesos e o vento frio entendessem melhor do que qualquer palavra aquilo que pulsa por dentro. Não é exatamente tristeza. Também não é felicidade. É uma urgência mansa, quase febril, um desejo de tocar algo que torne o mundo menos áspero, menos pesado de atravessar.

Às vezes penso em quando dividimos o banco de trás de um carro qualquer, sem mapa, sem roteiro, apenas as luzes da cidade correndo pela janela como estrelas apressadas. Não havia promessas grandiosas, não havia juramentos eternos. Havia só o calor próximo, o silêncio confortável, a respiração que encontra outra respiração e, por alguns minutos, a sensação rara de não estar sozinha dentro de mim. Como se o corpo dissesse: aqui, agora, é suficiente.

Há dias em que tudo parece excessivo demais: o ruído, as cobranças, o cansaço de existir. E então me lembro que a vida pode ser mais leve quando é compartilhada. Mesmo que seja só um instante roubado do cotidiano, mesmo que o mundo continue lá fora com suas pressas e seus abismos. Porque naquele pequeno recorte de tempo, a solidão perde força. A angústia recua. E o coração encontra abrigo.

Essa intensidade incontrolável não nasce do drama, mas da consciência de que há momentos que salvam. Momentos em que penso que, se tudo terminasse ali, naquela curva da estrada, sob aquela luz amarelada que atravessa o vidro, ainda assim teria valido a pena. Não pelo fim. Mas pelo encontro. Pela presença que transforma o medo em ternura.

Existe uma luz que não se apaga quando alguém nos vê de verdade. Não com exigência, não com julgamento, não com a intenção de moldar. Mas com uma quietude firme que diz, sem alarde: "fica. Eu aguento teus silêncios. Eu suporto teus dias nublados. Eu não me assusto com tua intensidade".

E talvez seja isso que me move nessa noite sem destino. Não a fuga. Não o perigo. Mas a vontade quase desesperada de pertencer a um momento que brilhe o bastante para atravessar qualquer escuridão. Um momento que me lembre que, mesmo quando o mundo parece grande demais e eu pequena demais dentro dele, há uma luz acesa. E ela não se apaga.


Luany de Macedo Nascimento, 11/02/2026

Quando eu tinha 16 anos, escrevi um poema tentando responder quem eu era. Não porque soubesse, mas porque precisava perguntar. Era uma tentativa meio urgente, meio confusa, de caber em mim mesma, de dar nome ao que transbordava e ao que faltava. Naquela época, eu acreditava que identidade fosse algo que se descobria de uma vez, como quem encontra uma resposta escondida no fundo de uma gaveta.

Hoje entendo que aquele poema não estava errado. Ele só estava incompleto, como eu. A menina de 16 anos escreveu com o que tinha: inquietações, sonhos grandes demais, medos que ainda não sabiam se esconder, uma sensibilidade à flor da pele e uma vontade imensa de ser compreendida, acolhida. Ela não sabia, mas já era travessia.

O que mudou não foi a pergunta, foi o jeito de escutar a resposta. Continuo tentando responder quem sou, mas agora sei que não se trata de um retrato fixo. Sou feita de camadas, de tempos que se sobrepõem, de versões minhas que ainda conversam entre si. A adolescente que escreveu aquele poema ainda vive em mim, menos ingênua talvez, mas igualmente sensível, igualmente inquieta.

Se hoje eu reescrevesse aquela pergunta, não buscaria um rótulo, nem uma definição final. Diria que sou processo, construção diária, escolha. Sou o que resiste, o que aprende, o que ama com coragem. Sou continuidade daquela menina e, ao mesmo tempo, superação dela. E sigo escrevendo, não mais para descobrir quem sou, mas para continuar me tornando.

Hoje, quase 20 anos depois, ao responder quem sou eu, sou travessia, movimento constante entre o que fui e o que ainda estou aprendendo a ser. Não me defino por pontos finais, mas por reticências, por processos, por caminhos que se abrem enquanto caminho. Sou feita de perguntas que resistem às respostas fáceis, de silêncios que dizem mais do que palavras e de uma sensibilidade que sente antes de compreender, mas que insiste em compreender mesmo quando dói.

Sou força que nasceu da fragilidade e fragilidade que nunca significou fraqueza. Trago marcas, memórias e cicatrizes que não me diminuem; ao contrário, contam a história de onde resisti, de onde me refiz, de onde aprendi a permanecer inteira mesmo quando parti em pedaços. Sou afeto profundo, desses que acreditam no simples, no cotidiano compartilhado, no cuidado que não aprisiona e na presença que acolhe.

Sou crítica, mas não perdi a ternura. Sou idealista sem negar as contradições do mundo, romântica sem fechar os olhos para a realidade. Caminho com os pés fincados no chão, enquanto os sonhos insistem em me puxar para cima. Sou professora em construção, aprendiz das infâncias, das palavras, dos encontros e de mim mesma. Carrego a escuta como gesto político e o cuidado como escolha ética.

Sou amor que escolhe ficar, que não precisa controlar para existir. Sou casa e também estrada, raiz e movimento, permanência e transformação. Não caibo em rótulos nem em definições rígidas. Mudo, me contradigo, cresço. Sou inacabada, e é justamente nesse inacabamento que encontro minha potência. Quem sou eu? Sou tudo isso e ainda aquilo que o tempo, com paciência e delicadeza, continuará me ensinando a ser.


Amar de verdade
é chegar sem armadura,
sem ensaio,
sem esconder os cantos tortos da alma.

É dizer: sou isso,
com minhas manias, meus silêncios,
meus dias nublados
e ainda assim querer ficar.

O nosso amor nunca pediu licença para nada.
Não precisou gritar,
não precisou ferir,
não precisou controlar para existir.

Ele cresceu no gesto simples:
no café dividido,
no riso que surge do nada,
no conversa compartilhada no fim do dia.

Amar assim
é não ter receio de ser inteira,
de falar demais,
de sentir fundo,
de ser quem se é sem pedir desculpa.

Ao teu lado, aprendi
que amar não aperta,
não diminui.

Amar de verdade é repouso.
É casa.
É lugar onde não se pisa em ovos,
onde não se mede palavras,
onde o afeto não machuca.

São dez anos caminhando juntos,
dez anos de mãos dadas mesmo quando a vida pesa.
Caminhamos para onze não por hábito,
mas por escolha.

E se ainda há beleza no mundo,
ela mora nisso:
no amor que não assusta,
que não adoece,
que não exige versões menores de nós.

Amar assim
é coragem diária.
É liberdade compartilhada.
É a forma mais bonita
de existir a dois.

Poema para meu amado esposo, com quem escolho caminhar todos os dias. 

Há temas que crescem no silêncio,
como ervas entre as frestas do chão.
A laicidade é um deles:
central, e ainda assim esquecida,
pairando à margem dos textos,
pedindo coragem para ser dita
onde o hábito prefere não olhar.

Na escola, o sagrado se insinua
como se fosse neutro,
como se tradição fosse destino.
E a pesquisa, quando se cala,
também ensina:
ensina a não ver,
a aceitar como natural
o que fere a democracia.

Onde faltam palavras,
os conflitos aprendem a se esconder.
Outras crenças se tornam sombra,
a não crença, ausência,
e o proselitismo caminha em silêncio,
travestido de cuidado,
ocupando o espaço público
sem jamais pedir licença.

Não é escassez de fontes,
é resistência histórica.
É o medo de tocar o nó
onde educação, fé e poder se apertam.
E assim, forma-se professores
sem ferramentas para questionar,
éticas fragilizadas,
consciências adormecidas.

Pesquisar a laicidade é romper véus.
É gesto político,
é escolha ética,
é responsabilidade com o comum.
A escola pública não é altar:
é travessia.
E educar, afinal,
é defender a liberdade
de crer, de não crer,
e de ser.

Luany de Macedo Nascimento 29/01/2026

Escrever é abrir véus do indizível,
Tocar a própria sombra em mansidão,
Fazer do silêncio uma pulsação
Onde o sentir se torna quase audível.

No verso, o eu se perde, imperceptível,
Como fumaça em lenta dissolução;
A dor se faz perfume em suspensão,
Num gesto íntimo, vago e inaudível.

Escrevo para ouvir o que não digo,
Para habitar espelhos sem contorno,
E reconhecer-me estranha e antiga.

Cada poema é um abismo e um retorno,
Onde me encontro e logo me desligo,
E a palavra é névoa em eterno entorno.

Luany de Macedo Nascimento 29/01/2026

Depois do estrondo das vozes,
dos nomes lançados como pedras,
fica o silêncio
não o que acalma,
mas o que reverbera
e dói por dentro.

Abriu-se um buraco no meu peito
não desses que o tempo costura
mas um vão fundo, escuro
onde a tristeza se senta
e aprende a morar
como se sempre tivesse sido dali.

A noite veio curta, quebrada
sono em migalhas
olhos ardendo em vigília
e eu sei
corpo cansado é fósforo
mente bipolar é pólvora.

Sinto-me bomba-relógio
tic-tac no pensamento
tic-tac no coração
não só por raiva
mas pelo peso de sentir demais.

Dá vontade de partir
juntar o pouco que resta
deixar o resto para trás
como se ir embora
doesse menos
do que continuar ficando.

De repente, aqui,
já não parece lar.
As paredes me olham torto,
os gestos não me reconhecem,
sou ave sem galho,
estranha no próprio ninho

Carrego o desejo de fuga
como quem carrega febre.
Não é escolha
é sintoma.
É o corpo pedindo distância
antes de virar estilhaço.

Se eu partir
talvez seja só para respirar.
Que o amanhã venha menos pesado
e que essa vontade de ir
não precise mais gritar.


Luany de Macedo Nascimento

Pertencer a si é ser vasta e inteira,
é ter no peito o sol que acende o dia.
É ser do mundo o sopro verdadeiro,
Sem algemas, sem grades, sem vigia.

Estar com outro, sim, mas por amor. 
Jamais pra preencher o que é só meu,
pois quem se basta transborda calor, 
E o laço nasce onde já floresceu.

Amar não é buscar o que me falte,
mas partilhar o vinho da vida,
Ser dois inteiros, lado a lado.

E quando assim dois inteiros se encontram,
não há prisão, só dança, luz e calma:
um elo forte, livre e que transcende a alma. 

Luany de Macedo Nascimento, 19/01/2026

 No alto, a luz me toma de repente, 
erguendo o mundo aos tons da claridade;
depois, a noite chega imponente,
e afunda o peito em fria imensidade.

O ciclo segue, instável, soberano,
trocando o riso pelo desalento; 
sou sol e sombra no correr humano,
metade brisa, e a outra, vendaval lento.

Na mão , repousam remédios serenos, 
que aplacam ventos, mas não são guarida;
são véus sutis, pitando as minhas cenas, 
sem apagar da carne a velha ferida. 

Sigo entre extremos, sempre repartida,
buscando centro que não se alcançará;
pois mesmo mansa, a maré desta vida
traz em seu pulso o que sempre voltará.

Luany de Macedo Nascimento

Fechou-se o ciclo, mas não o afeto,
parti com os olhos cheios de mar.
Levo no peito cada gesto discreto,
um desenho, um sorriso, um jeito de amar. 

Ficaram em mim como tinta na pele,
as vozes, os passos, os olhos brilhando, 
talvez em seus corações algo revele,
a escuta atenta que fui ofertando.

Nas tardes partilhadas, entre risos, sonhos e colo,
a vida aprendia a nascer devagar.
Cada gesto pequeno virou um tesouro,
lições de afeto que ensinam a ficar.

Chorei, sim, ao dizer até logo,
mas sei que o tempo não apaga o calor. 
Há marcas que ficam além do relógio,
nos gestos miúdos que brotam amor. 


Luany de Macedo Nascimento


P.S.: Estes versos nasceram no fim do meu Estágio Supervisionado III, após o momento da despedida das crianças do 1º ano dos anos iniciais de uma escola municipal.

Caro leitor,

talvez você esteja lendo este texto no intervalo de alguma obrigação. Talvez tenha chegado aqui por acaso, como quem cai de paraquedas em um espaço desconhecido. Talvez não me conheça, e tudo bem.
Escrevo porque, em algum momento, percebi que estava vivendo no automático. Este espaço nasceu dessa inquietação e da tentativa de nomear o incômodo que surge quando a vida parece apenas funcionar.

Talvez você também esteja lendo entre um compromisso e outro, entre o cansaço e alguma distração qualquer. E isso já diz muito. Vivemos ocupados demais para perceber quando a vida deixa de ser experiência e passa a ser apenas continuidade. Você já sentiu isso? A sensação de estar sempre em movimento, mas sem saber exatamente para onde?

Aprendemos cedo a funcionar. A cumprir papéis, horários, expectativas. Pouco se fala, no entanto, sobre o que acontece quando o sujeito se adapta tanto que já não se reconhece. Marx chamaria isso de alienação: quando o indivíduo se distancia daquilo que produz, do que sente e, por fim, de si mesmo. Mas talvez você não precise do conceito para reconhecer o incômodo. Basta lembrar das vezes em que viveu no automático, repetindo gestos que não escolheu conscientemente.

Essa alienação não mora apenas no trabalho. Ela atravessa os afetos, as relações, os sonhos que parecem nossos, mas não nasceram de nós. Quantas ideias sobre sucesso, amor e felicidade você adotou sem perceber? Quantas dores silenciou por falta de tempo, espaço ou permissão para senti-las? A quem pertence a vida que você está vivendo agora?

Questionar isso não é simples, nem confortável. Pensar demais costuma ser tratado como fraqueza ou improdutividade. Mas talvez seja justamente o contrário. Talvez pensar seja uma forma de recuperar o que foi perdido no excesso de adaptação. Um gesto pequeno, porém radical, de retomada da própria existência.

Este texto não pretende ensinar nem conduzir a conclusões. Ele existe como pausa. Um fragmento de experiência transformado em palavra, nascido de um processo longo de sentir, cair, compreender e, sobretudo, aprender a colocar limites.

Se, em algum trecho, você se reconheceu ou se algo lhe causou estranhamento, resistência ou inquietação, isso já é diálogo. Este espaço existe para troca, escuta e encontro. Sinta-se à vontade para comentar, discordar, acrescentar ou compartilhar sua leitura.

A palavra só ganha sentido quando encontra outra.
Vamos conversar, caro leitor.

 (Inspirado no filósofo pré-socrático Heráclito)

O rio corre, incessante e profundo,
não há repouso, nem fim neste mundo.
Quem nele entra, já não é o mesmo,
pois tudo flui, o ser é o que vemos. 

O ser não é, mas está sempre a ser,
como rio que jamais para de crescer.
Não há o mesmo, nem o imutável,
Tudo é transformação, nada é estável. 

O que hoje é, amanhã já não será,
como a água que o tempo levará.
No rio, a morte não é o fim, é passagem,
e o ser, em movimento, se faz miragem. 

Não se entra duas vezes no mesmo rio, 
pois o rio, como o ser, está a mudar, 
O movimento é o princípio da vida,
o que é fixo, a corrente se faz perdida. 

Assim é o ser: não é uma verdade pronta. 
É viagem constante, estrada enredada
Heráclito nos mostra, no fluir do rio
Que o ser é mudança, eterno desafio. 


Luany de Macedo Nascimento

 (Inspirado no pensador Mikhail Bakunin)


A liberdade é fio que se estende ao vento,
Quanto mais se espalha, mais ganha fundamento. 
Não há correntes quando o ser se liberta,
a sua liberdade, ao outro desperta. 

Cada passo dado em busca do ser, 
É um abraço ao próximo, a força de crescer.
A liberdade é feita de mão dada,
a minha estende a tua, em jornada.

Não é prisão a liberdade de um só, 
É chama que acende, fogo que vai eufórico,
O  grito que ecoa em todos os corações, 
Porque somos livres nas mesmas aspirações. 

Se a liberdade do outro amplia comigo, 
somos todos um, num só grito, 
Não há espaço para muros ou opressão,
a verdadeira liberdade se conquista com revolução. 


Luany de Macedo Nascimento


Nas tramas do poder dominante, 
A hegemonia sussurra em silêncio.
Não força, mas idealiza,  moldando o semblante, 
Do senso comum, calmo e tão denso.

Mas por entre brechas, nasce a ruptura, 
A contra hegemonia levanta a voz.
Questiona o discurso, revela a estrutura,
E lembra que o mundo não cabe em um "nós".

O poder que convence é o que mais perdura,
Está na escola, no templo, no lar.
Mas o ser critico com astúcia,
consegue pensar, lutar, transformar. 

Gramsci apontou: não há neutralidade, 
A cultura é campo de intensa disputa, 
Cabe ao oprimido, com coragem
romper as correntes da velha conduta. 


Luany de Macedo Nascimento

 Às vezes, ela se sente invisível,

como quem atravessa o mundo em estado translúcido,

presente sem deixar sombra,

existindo num intervalo que ninguém repara.

é como se o ar a atravessasse sem resistência,

como se o mundo a visse, mas não a enxergasse.


Ela se percebe brinquedo com defeito de fábrica,

daqueles que não passam pelo controle de qualidade da vida.

Não por quebrar com facilidade,

mas por não cumprir a função esperada.

Foi deixada de lado na prateleira do tempo,

não por falta de cor ou brilho,

mas por excesso de sensibilidade num mundo que pede rigidez.


Há dias em que ela se observa de fora,

como quem analisa uma peça fora de lugar.

Pergunta-se em que ponto falhou,

em que curva se desviou do que chamam normalidade.

Mas a resposta nunca vem clara:

talvez o erro não esteja nela,

talvez seja o molde que nunca lhe coube.


Carrega no peito um cansaço antigo,

feito de silêncios acumulados e tentativas frustradas de caber.

Ela aprendeu cedo que existir dói,

mas aprende também a calar essa dor

para não incomodar, para não pesar o ambiente.

Sorri quando pode, recolhe-se quando não aguenta,

vai sobrevivendo entre ausências e pequenos respiros.


Ainda assim, algo nela não cede.
Nem ao silêncio, nem ao esquecimento.
Ela não permanece por vitória,
permanece por teimosia. Por recusa.
Respirar já não é gesto vital, é afronta.
Quando tudo ordena a queda,
ela insiste em não desaparecer.
E talvez não haja sentido algum
além disso: continuar
como quem fere o próprio fim.


Luany de Macedo Nascimento, 15/01/2026


 Sou feita de permanências discretas.
Ardo em silêncio.
Carrego nos olhos a fadiga de quem pensou demais
e no peito a delicadeza dos que ainda sentem
mesmo quando o mundo já não promete.

Habito a fronteira entre o impulso e o recuo,
entre o desejo de partir
e a estranha fidelidade ao que dói.
Não sou heroína nem mártir:
sou apenas alguém que permaneceu
quando seria mais fácil dissolver-se.

Há em mim um cansaço antigo,
como se tivesse chegado tarde a todas as certezas
e cedo demais ao desencanto.
Aprendi que viver não é vencer,
mas sustentar o peso dos dias
sem permitir que eles me tornem rasa.

Trago afetos que não se acomodam,
amores que não pedem abrigo
e pensamentos que caminham à noite,
sem mapa, sem promessa de aurora.
Não procuro redenção,
procuro lucidez.

Se sorrio, é com cuidado.
Se amo, é com vertigem.
E quando me recolho,
não é fuga:
é respeito pela profundidade do que sou.

Sou feita de dúvidas férteis,
de uma tristeza que pensa,
de uma esperança que não se anuncia,
mas insiste.
E mesmo quando tudo em mim parece sombra,
há algo que permanece em pé
não por fé,
mas por consciência.

Não desejo eternidade.
Desejo verdade.
E sigo
não para ser vista,
mas porque existir, assim,
é o único gesto que me é possível.


 
Escrevo como quem tenta conter o rio,
mas a água não cabe na margem do papel,
há ideias demais pedindo passagem,
todas falando ao mesmo tempo dentro de mim.

Aprendo, aos poucos, que dizer tudo cansa,
não por falta de sentido,
mas por excesso de fôlego,
como quem grita verdades sem pausa.

Talvez escrever curto seja respirar,
deixar a palavra pousar antes do voo,
oferecer ao leitor um degrau,
não o abismo inteiro de uma vez.

Então sigo cortando sem me ferir,
um verso por vez, uma ideia de cada vez,
sabendo que o que não coube hoje
voltará amanhã, pedindo outro poema.

Luany de Macedo Nascimento, 13/01/2026

Minha filha de nove anos me perguntou, um dia desses, com a sagacidade que só a infância ainda permite: por que algumas pessoas têm tanto dinheiro e outras não têm? Achou injusto. Disse que todos deveriam viver bem, não apenas quem tem muito dinheiro, havia espanto em seu questionamento e na conclusão a que chegou.

Sem saber, ela me perguntava sobre capitalismo, sobre sociedade de classes, sobre desigualdade estrutural. Perguntava aquilo que muitos adultos já não perguntam mais. Talvez não por ignorância, mas por cansaço. Pela sobrecarga de uma vida atravessada pela exploração, que nos ensina cedo demais a naturalizar o que deveria causar indignação.

A infância ainda não aprendeu a justificar o injustificável. Ainda não chama desigualdade de mérito, nem pobreza de falta de esforço. Ela olha e estranha. E esse estranhamento é profundamente político. Porque revela que a desigualdade não é evidente por natureza; ela precisa ser ensinada, explicada, normalizada para continuar existindo.

Talvez seja por isso que pensar incomode tanto. Porque começa, quase sempre, com uma pergunta simples demais para ser ignorada.

Caro leitor, antes de seguir, faça um pequeno exercício de honestidade: observe o mundo ao seu redor ou pense nele. Não como quem passa por ele apressado, mas como quem tenta enxergar as engrenagens. Aquilo que chamamos de “normalidade” não é neutro. É um projeto. E, quase sempre, não foi pensado para você.

Vivemos sob um sistema que naturalizou a desigualdade como mérito e a exploração como oportunidade. O capitalismo não se impõe apenas pela força econômica, mas pela produção de sentidos. Ele ensina a desejar, a competir, a culpar a si mesmo pelo fracasso e a aplaudir o sucesso alheio como promessa futura. Trabalhe mais, esforce-se mais, adapte-se melhor. Se não deu certo, o problema foi você.

A sociedade de classes não desapareceu, apenas aprendeu a se disfarçar. Já não se fala abertamente em exploradores e explorados, opressor e oprimidos, ou proletários e burguesia (a depender de qual autor) mas em vencedores e perdedores. O conflito estrutural é maquiado por discursos de empreendedorismo, inovação e superação individual. A exploração não some, ela muda de vocabulário.

Você já percebeu como seu tempo, seu corpo e sua inteligência são tratados como recursos? Não como vida, mas como investimento. Eis o coração da mais-valia: você produz mais do que recebe, mas aprende a agradecer pelo pouco que sobra. O excedente do seu esforço não retorna a você, retorna ao capital. E ainda lhe dizem que isso é liberdade.

Hoje, nem mesmo a força física é suficiente. Exige-se algo a mais: sua subjetividade. Seu entusiasmo. Sua criatividade. Sua capacidade de sorrir enquanto é consumido, sua proatividade, sua resiliência. Surge então o conceito de capital humano. Você não é mais apenas trabalhador, é empresa de si mesmo. Precisa se qualificar, se atualizar, se vender, se reinventar. O risco agora é todo seu. O lucro, não.

Na lógica do capital humano, descansar vira culpa e adoecer vira fracasso. Questionar vira improdutividade e não há espaço para fragilidade, apenas para performance. O sujeito não pode falhar, porque, se falhar, falhou sozinho. O sistema permanece intacto, enquanto o indivíduo se despedaça tentando caber nele.

E tudo isso acontece sob holofotes. Guy Debord já nos alertava: vivemos na sociedade do espetáculo, onde a realidade é substituída por sua representação. Não importa mais o que você vive, mas o que consegue mostrar. A vida vira vitrine. A luta vira estética. A miséria vira conteúdo. A indignação vira engajamento e, rapidamente, mercadoria.

O espetáculo não apenas distrai, ele neutraliza. Transforma a crítica em produto, a rebeldia em estilo, a revolta em slogan. Você consome imagens de sofrimento enquanto continua produzindo sofrimento. Assiste à desigualdade como quem assiste a uma série de tv: choca, emociona, mas termina com um próximo episódio.

E, nesse teatro permanente, o capitalismo se fortalece. Porque, enquanto você compara sua vida com imagens editadas, não percebe quem lucra com sua insatisfação. Enquanto disputa reconhecimento, não questiona a estrutura que o mantém em permanente escassez. Enquanto acredita que “basta se esforçar”, não vê que o jogo foi pensado para que poucos ganhem e muitos continuem tentando.

Nada disso se sustenta apenas pela força. Gramsci já nos advertia que o poder mais eficiente é aquele que governa com consentimento. A hegemonia se constrói quando os interesses da classe dominante passam a ser vividos como interesses da classe dominada. Não é preciso polícia o tempo todo quando o próprio sujeito se vigia, se cobra e se ajusta. A coerção continua existindo, mas atua de forma silenciosa, difusa, quase pedagógica. Ela aparece no medo do desemprego, na ameaça da exclusão, na culpa que recai sobre quem não consegue render. O consentimento, por sua vez, se produz quando a exploração é aceita como escolha, quando a desigualdade é interpretada como fracasso pessoal e quando o sistema deixa de ser percebido como problema. Assim, o capitalismo não apenas domina, ele convence e vence.

O neoliberalismo que vivemos atualmente não é apenas uma política econômica. É uma pedagogia social. Ele ensina como viver, como desejar, como se culpar. Sob sua lógica, o mercado deixa de ser uma esfera e passa a ser critério moral. O sujeito vale pelo que produz, pelo que acumula, pelo que consegue transformar em desempenho. Direitos se convertem em privilégios. Proteção social vira dependência. Solidariedade passa a ser vista como fraqueza.

Nesse cenário, a hegemonia se aprofunda. Já não é necessário impor pela força quando o próprio indivíduo internaliza a lógica da concorrência e da meritocracia. Cada um se torna rival do outro e, sobretudo, de si mesmo. O fracasso deixa de ser social e passa a ser falha pessoal. O desemprego vira falta de qualificação. A precarização vira flexibilidade. O esgotamento vira falta de resiliência.

O neoliberalismo radicaliza a ideia de capital humano. Não basta vender a força de trabalho; é preciso investir constantemente em si, atualizar-se, performar, competir, sorrir. O sujeito neoliberal é permanentemente em dívida consigo mesmo. Nunca é suficiente. Nunca rende o bastante. Vive sob avaliação contínua, mesmo quando ninguém está olhando.

E o espetáculo cumpre aqui um papel decisivo. Ele oferece narrativas de sucesso, imagens de superação, histórias de vencedores solitários que funcionam como promessa e ameaça. Se eles conseguiram, você também poderia. Se você não conseguiu, a culpa é sua. O espetáculo, assim, não apenas entretém, ele disciplina. Produz desejo, adesão e silêncio.

O mais perverso talvez seja isso: o neoliberalismo não precisa de sujeitos conscientes, precisa de sujeitos ocupados. Exaustos demais para pensar, endividados demais para recusar, culpados demais para resistir. A coerção permanece, mas se apresenta disfarçadamente de escolha. O consentimento se constrói como falsa liberdade.

Pergunte-se, leitor: quem ganha quando você se culpa? Quem lucra quando você aceita a exploração como escolha? Quem se beneficia quando você chama de sonho aquilo que é apenas sobrevivência?

Talvez o maior triunfo do capitalismo não seja a concentração de riqueza, mas a colonização do pensamento. Fazer com que o explorado defenda o sistema que o oprime. Fazer com que a desigualdade pareça natural. Fazer com que a injustiça pareça inevitável.

Pensar isso dói, porque desmonta a fantasia da neutralidade. Obriga a reconhecer que não estamos todos no mesmo barco. Alguns mal sabem nadar, enquanto outros controlam o leme. Obriga a admitir que a desigualdade não é acidente, é método.

Não espere conforto aqui, caro leitor. A crítica não consola, ela expõe. E expor é perigoso. Mas talvez seja o primeiro gesto de lucidez em um mundo que prefere sujeitos produtivos à sujeitos conscientes.

Diga-me, então: você vive para existir ou para render? Seu tempo é seu ou do capital? E, sobretudo, até quando chamaremos de liberdade aquilo que nos mantém exaustos, endividados e silenciosos?

Fique na pergunta. Ela não gera lucro. Mas talvez gere consciência.
Caso queira comentar algo, sinta-se convidado. Vamos dialogar! 

Luany de Macedo Nascimento, 12/01/2026


Volto ao passado como quem embaralha a própria memória. As cartas não estão mais sobre a mesa, mas ainda escuto, de forma nítida, íntima, o som das fichas deslizando entre os dedos. Como eu amava aquele barulhinho. Era quase um mantra: metal contra metal, promessa de jogo, de risco. Cada ficha carregava uma história, cada pote, um pequeno abismo.

Lembro dos campeonatos, das mesas cheias, dos olhares que mediam mais do que cartas. No poker, aprendi cedo que nem todo blefe está na mão, muitos estavam nos rostos que duvidavam de mim antes mesmo de abrir o flop. Enfrentei o machismo como quem encarava um all-in inevitável, um atrás do outro: com medo, sim, mas sem recuar. Fui ficando. Fui jogando. Fui vencendo algumas mãos. Até que, meu nome ecoou como algo improvável e real: a primeira mulher a vencer um torneio misto no estado. Não foi só um troféu. Foi uma fissura aberta num lugar que insistia em me negar. Não exatamente a mim, mas a figura feminina.

Eu encarava os jogadores. Encará-los fazia parte do meu jogo e eu encarava sem medo. O olhar firme era minha primeira aposta. Antes mesmo das cartas, antes das fichas, havia esse gesto silencioso de presença. Eu estou aqui. Não desviava. Não recuava. Ia fundo.

Psicologicamente, isso dizia muito sobre quem eu era naquele momento. Não se tratava de imprudência, mas de coragem. Eu conhecia o risco e, ainda assim, escolhia avançar. O medo até podia existir em algum lugar distante, mas não governava minhas decisões. Eu confiava na minha leitura e na minha capacidade de sustentar as consequências do que escolhia jogar. Encarar os jogadores era também encarar a mim mesma. 

Uma vez eu disse que encarava cada torneio de poker como um gladiador na antiga Roma. E não era exagero. A mesa era a arena, os olhares ao redor funcionavam como julgamento, e cada aposta carregava o peso de algo irreversível. Eu entrava sabendo que ali nada era garantido. Era resistência, estratégia e coragem. Como os gladiadores, eu não lutava apenas contra o outro, mas contra o erro, a impulsividade e a dúvida. 

Não era impulso. Era cálculo. Probabilidade. Leitura corporal. Psicologia. Cada decisão nascia do cruzamento entre números e comportamento humano. As cartas diziam uma parte da história, mas os corpos entregavam outra. Um olhar que vacila, uma mão inquieta, uma respiração fora do ritmo. Jogar poker era decifrar sinais mínimos, antecipar movimentos, compreender como cada pessoa reagia sob pressão.

Agora, ao relembrar sobre o poker não apenas como quem revisita um esporte,  mas como quem revisita um estado de espírito. Sentar à mesa era, antes de tudo, um exercício psicológico profundo, um mergulho silencioso em mim mesma e nos outros. O barulho das fichas era mais do que som. Era ancoragem. Organizava o pensamento, desacelerava o caos interno, lembrava que ali o tempo obedecia a outra lógica.

O poker me ensinou a sustentar o olhar, a habitar o silêncio, a tolerar a incerteza. Era um campo constante de tensão interna. Controlar o impulso, acolher o erro, aceitar a perda sem permitir que ela definisse quem eu era. Cada mão exigia presença plena. Não havia espaço para dispersão nem para máscaras frágeis. O jogo pedia leitura fina do outro, escuta do que não era dito, atenção aos detalhes mínimos que escapam quando havia vacilos.

Enfrentar o machismo também foi uma batalha psíquica. Não era apenas vencer mãos, era suportar o peso de ser subestimada, testada, provocada. Muitos apostavam contra mim antes mesmo de eu tocar nas cartas. Permanecer ali exigiu construir uma fortaleza interna. Não reagir ao deboche, não internalizar o descrédito, não permitir que o ruído externo sabotasse a clareza mental. Vencer esse primeiro torneio misto foi, nesse sentido, um marco psicológico antes de ser esportivo. A confirmação de que minha mente permanecia firme onde tentaram me fragilizar...

Sinto falta do jogo porque sinto falta desse espelho psicológico. Sempre gostei de observar o comportamento humano sob pressão. O poker escancara defesas, revela traços, desnuda estratégias. No ao vivo, o corpo fala, o olhar trai, a respiração entrega. O online nunca me ofereceu isso. Faltava o confronto real, a presença, o jogo invisível que acontece quando se está frente a frente.

Minha trajetória foi curta, tal um cometa. Intensa, veloz. Durou cerca de um ano e meio. Tempo suficiente para me atravessar inteira. Meu último campeonato foi em 2015. Despedi-me com um “até logo” silencioso e mais um troféu nas mãos, como quem fecha um ciclo sabendo que ele não se esgota ali.

Já são dez anos desde o último troféu. Dez anos desde que deixei as mesas de poker. Ainda assim, a memória corporal permanece. Quero retornar em breve, não para competir com o passado, mas para reencontrar esse lugar interno onde eu me sentia viva. Jogar poker era um modo de existir com intensidade e consciência. Um espaço onde eu me regulava, me observava e me afirmava. Talvez voltar seja apenas isso. Escutar novamente essa parte de mim que sabia respirar fundo, calcular riscos, encarar, ir fundo e seguir. Viva. Sem medo.





Não procuro respostas no metafísico porque não acredito nele. Sou ateia e faço questão de dizer: não apenas em relação ao cristianismo, mas a toda e qualquer forma de espiritualidade, energia invisível, plano superior ou força transcendental que se pretenda explicação do mundo ou da experiência humana.

Minha recusa não nasce do desconhecimento, do ressentimento ou de alguma “ferida espiritual mal curada”, como gostam de insinuar. Ela nasce de uma posição intelectual, ética e política. O metafísico, para mim, não explica, ele desloca. Ele tira os problemas do chão da realidade concreta e os lança num plano abstrato, intangível, onde não podem ser verificados, confrontados ou transformados de forma efetiva.

Não acredito em destino, vibração, propósito cósmico ou energia universal porque essas ideias, embora muito reconfortantes, funcionam como atalhos explicativos que suspendem o pensamento crítico. Quando tudo se resolve no “campo energético”, nada precisa ser explicado em termos históricos, sociais ou materiais. A desigualdade vira desarmonia espiritual. A violência vira aprendizado da alma. A opressão vira prova kármica. E, nesse movimento, aquilo que é produzido por estruturas humanas deixa de ser responsabilidade humana.

Escolho o chão, não o céu. O concreto, não o invisível. A história, não o mistério. A ciência, a filosofia, a política e a análise material da realidade me oferecem algo que o metafísico jamais oferece: a possibilidade de compreender o mundo sem recorrer à fantasia, e de transformá-lo sem pedir permissão ao universo.

Não busco sentido fora de mim nem acima de mim. O sentido, quando existe, é construído na experiência humana: nas relações, no trabalho, na cultura, na linguagem, no conflito, na criação e na luta. A vida não me deve explicações transcendentes, nem eu devo a ela submissão espiritual. O acaso não me ofende, a finitude não me apavora, e a ausência de um plano divino não me desampara, ao contrário, me responsabiliza.

Ser ateia, para mim, é recusar a infantilização do pensamento. É não terceirizar a dor, o desejo ou a esperança para forças invisíveis. É encarar o mundo sem anestesia mística, sabendo que não há salvadores cósmicos, guias espirituais ou energias protetoras que façam o trabalho que cabe a nós. Tudo o que existe de belo, cruel, injusto ou possível nasce das ações humanas e é nelas que reside qualquer chance real de mudança.

Não procuro o metafísico porque ele promete consolo onde eu busco lucidez. Promete harmonia onde eu enxergo conflito. Promete sentido pronto onde eu prefiro a tarefa difícil de construir sentido. E, sobretudo, porque toda vez que o humano se ajoelha diante do invisível, algo muito visível permanece de pé: o poder, a dominação e a desigualdade.

Já ouvi diversas vezes que sou existencialista, mas rótulos sempre me pareceram insuficientes para dar conta de um pensamento em movimento. Reconheço, sem resistência, a proximidade com o existencialismo ateu, principalmente o sartreano, sobretudo na recusa de essências dadas e na afirmação de que nos constituímos na experiência. Concordo que não somos, estamos sendo: em processo, em conflito, em construção permanente. Esse entendimento, no entanto, não se esgota na interioridade do sujeito nem na ideia abstrata de liberdade individual, pois o movimento do vir-a-ser humano acontece sempre em um mundo já organizado, atravessado por relações de poder, por condições materiais e por determinações históricas que não escolhemos, mas com as quais precisamos lidar.

É nesse percurso concreto que o marxismo se torna um interlocutor indispensável. Não penso o sujeito isolado de suas determinações, nem a liberdade apartada das estruturas que a limitam ou a possibilitam. Talvez por isso me seja difícil habitar uma única caixa teórica: penso no entre, no tensionamento e no percurso, no qual o humano não se define por uma essência nem por um destino, mas pelo modo como age, resiste e se transforma no mundo enquanto está vivo.

É também por essa razão que recuso o metafísico. Não busco explicações fora da realidade concreta nem sentidos deslocados para planos invisíveis. Escolho o chão da história, das relações humanas e das condições materiais, porque é ali que os conflitos se produzem, as responsabilidades se colocam e qualquer possibilidade real de transformação se torna efetivamente possível.


Algumas pessoas me perguntam por que escrevo.

E eu nunca sei responder.
Não há uma explicação que caiba em frases prontas, nem um motivo que eu consiga alinhar com começo, meio e fim. Eu apenas escrevo. Como quem respira sem perceber o ar, como quem segue porque parar doeria mais.

Escrever não começou como escolha. Começou como abrigo.
Eu tinha dez anos, estava na quinta série, e carregava nos ombros um silêncio pesado demais para uma criança. Vinha de outra escola, onde aprendi cedo que o sotaque pode virar sentença, que ser nordestina, em certos lugares, é motivo de riso, de exclusão, de feridas que não sangram por fora. Eu falava pouco, me retraía muito, e guardava tudo dentro de mim como quem não sabe onde deixar a dor.

Foi então que uma professora (dessas que mudam destinos sem jamais saber) me sugeriu escrever. Um diário, ela disse. Para registrar as coisas boas e ruins do dia. E, se conseguisse, que eu também narrasse acontecimentos. Não era uma tarefa escolar comum. Era um convite silencioso para existir de outro jeito. Eu aceitei sem saber que ali começava algo maior do que eu.

Passei a escrever para não explodir.
Para organizar o caos.
Para dar nome ao que me atravessava e não encontrava voz.
No papel, eu podia falar sem ser interrompida. Podia errar sem ser julgada. Podia ser eu mesma sem pedir desculpas. Cada palavra era um passo para fora do medo, um gesto tímido de coragem.

Com o tempo, escrever deixou de ser só refúgio e virou caminho.
Nessa época, eu já lia muito, os livros sempre foram janelas abertas quando o mundo parecia estreito demais; mas escrever era novidade, descoberta, espanto. E quanto mais eu escrevia, mais algo em mim se alargava. As frases começaram a ganhar corpo, intenção, desejo. Até que um dia veio um concurso de frases para um slogan do projeto da escola de conscientização ecológica. E eu ganhei. Estavam competindo todas as séries. Da antiga 5º série ao 3º ano do Ensino Médio. Lembro do riso meio desacreditado, meio orgulhoso. Lembro até hoje da sensação acolhedora. E todo o ensino fundamental comemorando, como algo coletivo. 

De lá pra cá, só foi aumentando.
Não a certeza, mas a necessidade de escrever.
Escrever nunca foi sobre saber exatamente o que dizer, mas sobre não conseguir ficar em silêncio. É gesto de sobrevivência, de memória, de resistência. É o lugar onde a menina tímida do passado encontra a mulher de hoje que não aceita mais se encolher. Onde a dor vira linguagem e a linguagem vira ponte.
A dor, sozinha, é caos. Ela existe, pulsa, pesa... mas não comunica. Enquanto permanece apenas como sensação, ela isola, fecha, separa. É matéria bruta. Quando a dor vira linguagem, algo decisivo acontece: ela deixa de ser apenas sentida e passa a ser significada. A linguagem não elimina a dor, mas a organiza, lhe dá forma, ritmo, respiração. Ela transforma o indizível em algo que pode ser sustentado.

A linguagem é esse lugar intermediário entre o que fere e o que pode ser partilhado. É nela que a experiência deixa de ser apenas ferida e passa a ser sentido. Ao virar palavra, a dor ganha bordas e tudo que tem borda pode ser atravessado. É por isso que a linguagem vira ponte.

Porque a linguagem não fica. Ela se lança. Palavra nenhuma nasce para permanecer intacta em quem escreve. Toda linguagem verdadeira carrega em si um desejo de alcance. A ponte é essa vocação da palavra para o outro. Ela se estende sobre o vazio que separa as experiências humanas, sobre o silêncio que existe entre um corpo e outro, entre uma história e outra.

A linguagem é ponte porque conecta sem igualar.
Ela não exige que o outro tenha vivido o mesmo, apenas que reconheça algo.
Ela permite que a minha dor atravesse sem invadir, e que o outro atravesse sem se perder.

A beleza está nesse movimento contínuo:
a dor se transforma em linguagem para não me aprisionar,
e a linguagem se transforma em ponte para não me fechar em mim.

Enquanto a dor é só dor, há ruptura.
Quando vira linguagem, há elaboração.
Quando vira ponte, há encontro.

E escrever acontece exatamente nesse lugar:
onde a palavra não é fim, mas passagem.
Onde aquilo que nasceu como ferida se torna caminho.

Quando me perguntam por que escrevo, eu ainda não sei responder.
Talvez eu escreva porque um dia alguém acreditou em mim quando eu mal acreditava.
Talvez porque escrever me salvou antes mesmo de eu perceber que estava me afogando.
Ou talvez porque algumas histórias não suportam ficar presas no peito.

Eu escrevo porque foi assim que aprendi a existir.


Luany de Macedo Nascimento