"Disciplina é liberdade"

Este blog nasceu em 2008, quando eu tinha 18 anos. Surgiu como escrita livre, tentativa de dizer o mundo e a mim mesma. Com o tempo, mudou comigo. Após um silêncio de dez anos, volto a escrever sobre o que me atravessa hoje: educação, transtorno bipolar, amor, família, alegrias e tristezas. Sem perder o essencial: a escrita como travessia, onde memória e experiência se encontram. Luany de Macedo Nascimento


Não é contra ninguém.
É a favor de vocês.

É para as mulheres
que aprenderam a baixar a voz
antes mesmo de terminar a frase.
Para as que confundiram amor com obediência
e cuidado com silêncio.

Disseram que ser mulher
era ceder,
esperar,
compreender demais.

Mas nenhuma vida nasce
para caber no medo.

Este manifesto não acusa homens,
porque a prisão não é um indivíduo 
é um sistema antigo
que ensinou às mulheres
a se explicarem,
a se diminuírem,
a se colocarem por último.

Às que perguntam
se podem,
se devem,
se convém:

Não precisam de autorização
para pensar, escolher, sonhar, romper.

Não é rebeldia.
É dignidade.

Ser companheira não é ser submissa.
Ser amada não é ser controlada.
Respeito não exige renúncia de si.

A emancipação feminina
não destrói relações,
ela as torna possíveis,
justas,
inteiras.

Que outras mulheres saibam:
nenhuma existência precisa ser validada
por um olhar externo
para ser legítima.

Este é um chamado,
não um ataque.
Uma abertura,
não uma ruptura cega.

Que cada mulher reconheça em si
o direito de ser sujeito da própria história,
sem culpa,
sem medo,
sem pedir desculpas por existir.

Emancipar-se
é rasgar o roteiro
que escreveram para nossas vidas,
é recusar expectativas alheias,
sobretudo aquelas lançadas
por um olhar masculino
que tentou, por séculos,
delimitar nossos passos.

É dizer, em voz firme:
nenhuma mulher precisa ser guiada,
corrigida
ou autorizada
para existir como é
e como deseja ser.

Emancipar-se também
é negar a armadilha da rivalidade,
tecida pelo patriarcado
para nos dividir e enfraquecer.
É escolher a solidariedade,
a sororidade
como gesto político.

Não disputamos migalhas.
Alargamos caminhos.
Não competimos entre nós.
Caminhamos juntas.

Porque a liberdade
não é individual e solitária:
ela só se sustenta
quando todas podem viver
com autonomia,
com dignidade,
de pé.

Há algo de curioso e talvez contraditório na forma como celebramos o tempo. A virada do ano é tratada como um rito de passagem quase sagrado, como se o calendário tivesse o poder de suspender o que fomos e inaugurar, por decreto, algo novo. Mas o tempo não se dobra às nossas contagens. Ele não começa nem termina à meia-noite. Apenas segue.

Nunca compreendi totalmente essa alegria ruidosa por mais uma volta ao redor do sol. O movimento é o mesmo, a órbita se repete, e nós permanecemos atravessados pelas mesmas inquietações, pelas mesmas faltas, pelos mesmos desejos ainda inacabados. O que muda, afinal? O número? A convenção? A necessidade humana de organizar o caos em marcos visíveis?

Entendo, e respeito, o sentimento de recomeço. Ele nasce do cansaço, da esperança ferida que precisa de um ponto de apoio para não desistir. Mas talvez o problema esteja em condicionar a possibilidade de mudança a uma data específica. Como se o amanhã só pudesse ser melhor quando autorizado por um novo ano, e não por uma decisão íntima, silenciosa, cotidiana.

Se o recomeço é legítimo, ele deveria ser permanente. Um compromisso diário com a possibilidade de ser outro , ou, quem sabe, um pouco mais fiel a si. Pensar que amanhã pode ser melhor do que hoje não deveria ser exceção comemorável, mas exercício constante de resistência.

Talvez a verdadeira virada não esteja no tempo que passa, mas em como habitamos o tempo que nos é dado. E isso não exige fogos, nem brindes, nem aplausos. Exige consciência. E, sobretudo, coragem para recomeçar mesmo quando o mundo não está

em festa.