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Luany de Macedo
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já não parece lar.
As paredes me olham torto,
os gestos não me reconhecem,
sou ave sem galho,
estranha no próprio ninho
talvez você esteja lendo este texto no intervalo de alguma obrigação. Talvez tenha chegado aqui por acaso, como quem cai de paraquedas em um espaço desconhecido. Talvez não me conheça, e tudo bem.
Escrevo porque, em algum momento, percebi que estava vivendo no automático. Este espaço nasceu dessa inquietação e da tentativa de nomear o incômodo que surge quando a vida parece apenas funcionar.
Talvez você também esteja lendo entre um compromisso e outro, entre o cansaço e alguma distração qualquer. E isso já diz muito. Vivemos ocupados demais para perceber quando a vida deixa de ser experiência e passa a ser apenas continuidade. Você já sentiu isso? A sensação de estar sempre em movimento, mas sem saber exatamente para onde?
Aprendemos cedo a funcionar. A cumprir papéis, horários, expectativas. Pouco se fala, no entanto, sobre o que acontece quando o sujeito se adapta tanto que já não se reconhece. Marx chamaria isso de alienação: quando o indivíduo se distancia daquilo que produz, do que sente e, por fim, de si mesmo. Mas talvez você não precise do conceito para reconhecer o incômodo. Basta lembrar das vezes em que viveu no automático, repetindo gestos que não escolheu conscientemente.
Essa alienação não mora apenas no trabalho. Ela atravessa os afetos, as relações, os sonhos que parecem nossos, mas não nasceram de nós. Quantas ideias sobre sucesso, amor e felicidade você adotou sem perceber? Quantas dores silenciou por falta de tempo, espaço ou permissão para senti-las? A quem pertence a vida que você está vivendo agora?
Questionar isso não é simples, nem confortável. Pensar demais costuma ser tratado como fraqueza ou improdutividade. Mas talvez seja justamente o contrário. Talvez pensar seja uma forma de recuperar o que foi perdido no excesso de adaptação. Um gesto pequeno, porém radical, de retomada da própria existência.
Este texto não pretende ensinar nem conduzir a conclusões. Ele existe como pausa. Um fragmento de experiência transformado em palavra, nascido de um processo longo de sentir, cair, compreender e, sobretudo, aprender a colocar limites.
Se, em algum trecho, você se reconheceu ou se algo lhe causou estranhamento, resistência ou inquietação, isso já é diálogo. Este espaço existe para troca, escuta e encontro. Sinta-se à vontade para comentar, discordar, acrescentar ou compartilhar sua leitura.
como quem atravessa o mundo em estado translúcido,
presente sem deixar sombra,
existindo num intervalo que ninguém repara.
é como se o ar a atravessasse sem resistência,
como se o mundo a visse, mas não a enxergasse.
Ela se percebe brinquedo com defeito de fábrica,
daqueles que não passam pelo controle de qualidade da vida.
Não por quebrar com facilidade,
mas por não cumprir a função esperada.
Foi deixada de lado na prateleira do tempo,
não por falta de cor ou brilho,
mas por excesso de sensibilidade num mundo que pede rigidez.
Há dias em que ela se observa de fora,
como quem analisa uma peça fora de lugar.
Pergunta-se em que ponto falhou,
em que curva se desviou do que chamam normalidade.
Mas a resposta nunca vem clara:
talvez o erro não esteja nela,
talvez seja o molde que nunca lhe coube.
Carrega no peito um cansaço antigo,
feito de silêncios acumulados e tentativas frustradas de caber.
Ela aprendeu cedo que existir dói,
mas aprende também a calar essa dor
para não incomodar, para não pesar o ambiente.
Sorri quando pode, recolhe-se quando não aguenta,
vai sobrevivendo entre ausências e pequenos respiros.
Luany de Macedo Nascimento, 15/01/2026
Ardo em silêncio.
Minha filha de nove anos me perguntou, um dia desses, com a sagacidade que só a infância ainda permite: por que algumas pessoas têm tanto dinheiro e outras não têm? Achou injusto. Disse que todos deveriam viver bem, não apenas quem tem muito dinheiro, havia espanto em seu questionamento e na conclusão a que chegou.
Sem saber, ela me perguntava sobre capitalismo, sobre sociedade de classes, sobre desigualdade estrutural. Perguntava aquilo que muitos adultos já não perguntam mais. Talvez não por ignorância, mas por cansaço. Pela sobrecarga de uma vida atravessada pela exploração, que nos ensina cedo demais a naturalizar o que deveria causar indignação.
A infância ainda não aprendeu a justificar o injustificável. Ainda não chama desigualdade de mérito, nem pobreza de falta de esforço. Ela olha e estranha. E esse estranhamento é profundamente político. Porque revela que a desigualdade não é evidente por natureza; ela precisa ser ensinada, explicada, normalizada para continuar existindo.
Talvez seja por isso que pensar incomode tanto. Porque começa, quase sempre, com uma pergunta simples demais para ser ignorada.
Caro leitor, antes de seguir, faça um pequeno exercício de honestidade: observe o mundo ao seu redor ou pense nele. Não como quem passa por ele apressado, mas como quem tenta enxergar as engrenagens. Aquilo que chamamos de “normalidade” não é neutro. É um projeto. E, quase sempre, não foi pensado para você.
Vivemos sob um sistema que naturalizou a desigualdade como mérito e a exploração como oportunidade. O capitalismo não se impõe apenas pela força econômica, mas pela produção de sentidos. Ele ensina a desejar, a competir, a culpar a si mesmo pelo fracasso e a aplaudir o sucesso alheio como promessa futura. Trabalhe mais, esforce-se mais, adapte-se melhor. Se não deu certo, o problema foi você.
A sociedade de classes não desapareceu, apenas aprendeu a se disfarçar. Já não se fala abertamente em exploradores e explorados, opressor e oprimidos, ou proletários e burguesia (a depender de qual autor) mas em vencedores e perdedores. O conflito estrutural é maquiado por discursos de empreendedorismo, inovação e superação individual. A exploração não some, ela muda de vocabulário.
Você já percebeu como seu tempo, seu corpo e sua inteligência são tratados como recursos? Não como vida, mas como investimento. Eis o coração da mais-valia: você produz mais do que recebe, mas aprende a agradecer pelo pouco que sobra. O excedente do seu esforço não retorna a você, retorna ao capital. E ainda lhe dizem que isso é liberdade.
Hoje, nem mesmo a força física é suficiente. Exige-se algo a mais: sua subjetividade. Seu entusiasmo. Sua criatividade. Sua capacidade de sorrir enquanto é consumido, sua proatividade, sua resiliência. Surge então o conceito de capital humano. Você não é mais apenas trabalhador, é empresa de si mesmo. Precisa se qualificar, se atualizar, se vender, se reinventar. O risco agora é todo seu. O lucro, não.
Na lógica do capital humano, descansar vira culpa e adoecer vira fracasso. Questionar vira improdutividade e não há espaço para fragilidade, apenas para performance. O sujeito não pode falhar, porque, se falhar, falhou sozinho. O sistema permanece intacto, enquanto o indivíduo se despedaça tentando caber nele.
E tudo isso acontece sob holofotes. Guy Debord já nos alertava: vivemos na sociedade do espetáculo, onde a realidade é substituída por sua representação. Não importa mais o que você vive, mas o que consegue mostrar. A vida vira vitrine. A luta vira estética. A miséria vira conteúdo. A indignação vira engajamento e, rapidamente, mercadoria.
O espetáculo não apenas distrai, ele neutraliza. Transforma a crítica em produto, a rebeldia em estilo, a revolta em slogan. Você consome imagens de sofrimento enquanto continua produzindo sofrimento. Assiste à desigualdade como quem assiste a uma série de tv: choca, emociona, mas termina com um próximo episódio.
E, nesse teatro permanente, o capitalismo se fortalece. Porque, enquanto você compara sua vida com imagens editadas, não percebe quem lucra com sua insatisfação. Enquanto disputa reconhecimento, não questiona a estrutura que o mantém em permanente escassez. Enquanto acredita que “basta se esforçar”, não vê que o jogo foi pensado para que poucos ganhem e muitos continuem tentando.
Nada disso se sustenta apenas pela força. Gramsci já nos advertia que o poder mais eficiente é aquele que governa com consentimento. A hegemonia se constrói quando os interesses da classe dominante passam a ser vividos como interesses da classe dominada. Não é preciso polícia o tempo todo quando o próprio sujeito se vigia, se cobra e se ajusta. A coerção continua existindo, mas atua de forma silenciosa, difusa, quase pedagógica. Ela aparece no medo do desemprego, na ameaça da exclusão, na culpa que recai sobre quem não consegue render. O consentimento, por sua vez, se produz quando a exploração é aceita como escolha, quando a desigualdade é interpretada como fracasso pessoal e quando o sistema deixa de ser percebido como problema. Assim, o capitalismo não apenas domina, ele convence e vence.
O neoliberalismo que vivemos atualmente não é apenas uma política econômica. É uma pedagogia social. Ele ensina como viver, como desejar, como se culpar. Sob sua lógica, o mercado deixa de ser uma esfera e passa a ser critério moral. O sujeito vale pelo que produz, pelo que acumula, pelo que consegue transformar em desempenho. Direitos se convertem em privilégios. Proteção social vira dependência. Solidariedade passa a ser vista como fraqueza.
Nesse cenário, a hegemonia se aprofunda. Já não é necessário impor pela força quando o próprio indivíduo internaliza a lógica da concorrência e da meritocracia. Cada um se torna rival do outro e, sobretudo, de si mesmo. O fracasso deixa de ser social e passa a ser falha pessoal. O desemprego vira falta de qualificação. A precarização vira flexibilidade. O esgotamento vira falta de resiliência.
O neoliberalismo radicaliza a ideia de capital humano. Não basta vender a força de trabalho; é preciso investir constantemente em si, atualizar-se, performar, competir, sorrir. O sujeito neoliberal é permanentemente em dívida consigo mesmo. Nunca é suficiente. Nunca rende o bastante. Vive sob avaliação contínua, mesmo quando ninguém está olhando.
E o espetáculo cumpre aqui um papel decisivo. Ele oferece narrativas de sucesso, imagens de superação, histórias de vencedores solitários que funcionam como promessa e ameaça. Se eles conseguiram, você também poderia. Se você não conseguiu, a culpa é sua. O espetáculo, assim, não apenas entretém, ele disciplina. Produz desejo, adesão e silêncio.
O mais perverso talvez seja isso: o neoliberalismo não precisa de sujeitos conscientes, precisa de sujeitos ocupados. Exaustos demais para pensar, endividados demais para recusar, culpados demais para resistir. A coerção permanece, mas se apresenta disfarçadamente de escolha. O consentimento se constrói como falsa liberdade.
Pergunte-se, leitor: quem ganha quando você se culpa? Quem lucra quando você aceita a exploração como escolha? Quem se beneficia quando você chama de sonho aquilo que é apenas sobrevivência?
Talvez o maior triunfo do capitalismo não seja a concentração de riqueza, mas a colonização do pensamento. Fazer com que o explorado defenda o sistema que o oprime. Fazer com que a desigualdade pareça natural. Fazer com que a injustiça pareça inevitável.
Pensar isso dói, porque desmonta a fantasia da neutralidade. Obriga a reconhecer que não estamos todos no mesmo barco. Alguns mal sabem nadar, enquanto outros controlam o leme. Obriga a admitir que a desigualdade não é acidente, é método.
Não espere conforto aqui, caro leitor. A crítica não consola, ela expõe. E expor é perigoso. Mas talvez seja o primeiro gesto de lucidez em um mundo que prefere sujeitos produtivos à sujeitos conscientes.
Diga-me, então: você vive para existir ou para render? Seu tempo é seu ou do capital? E, sobretudo, até quando chamaremos de liberdade aquilo que nos mantém exaustos, endividados e silenciosos?
Fique na pergunta. Ela não gera lucro. Mas talvez gere consciência.
Caso queira comentar algo, sinta-se convidado. Vamos dialogar!
Luany de Macedo Nascimento, 12/01/2026
Volto ao passado como quem embaralha a própria memória. As cartas não estão mais sobre a mesa, mas ainda escuto, de forma nítida, íntima, o som das fichas deslizando entre os dedos. Como eu amava aquele barulhinho. Era quase um mantra: metal contra metal, promessa de jogo, de risco. Cada ficha carregava uma história, cada pote, um pequeno abismo.
Lembro dos campeonatos, das mesas cheias, dos olhares que mediam mais do que cartas. No poker, aprendi cedo que nem todo blefe está na mão, muitos estavam nos rostos que duvidavam de mim antes mesmo de abrir o flop. Enfrentei o machismo como quem encarava um all-in inevitável, um atrás do outro: com medo, sim, mas sem recuar. Fui ficando. Fui jogando. Fui vencendo algumas mãos. Até que, meu nome ecoou como algo improvável e real: a primeira mulher a vencer um torneio misto no estado. Não foi só um troféu. Foi uma fissura aberta num lugar que insistia em me negar. Não exatamente a mim, mas a figura feminina.
Eu encarava os jogadores. Encará-los fazia parte do meu jogo e eu encarava sem medo. O olhar firme era minha primeira aposta. Antes mesmo das cartas, antes das fichas, havia esse gesto silencioso de presença. Eu estou aqui. Não desviava. Não recuava. Ia fundo.
Psicologicamente, isso dizia muito sobre quem eu era naquele momento. Não se tratava de imprudência, mas de coragem. Eu conhecia o risco e, ainda assim, escolhia avançar. O medo até podia existir em algum lugar distante, mas não governava minhas decisões. Eu confiava na minha leitura e na minha capacidade de sustentar as consequências do que escolhia jogar. Encarar os jogadores era também encarar a mim mesma.
Uma vez eu disse que encarava cada torneio de poker como um gladiador na antiga Roma. E não era exagero. A mesa era a arena, os olhares ao redor funcionavam como julgamento, e cada aposta carregava o peso de algo irreversível. Eu entrava sabendo que ali nada era garantido. Era resistência, estratégia e coragem. Como os gladiadores, eu não lutava apenas contra o outro, mas contra o erro, a impulsividade e a dúvida.
Não era impulso. Era cálculo. Probabilidade. Leitura corporal. Psicologia. Cada decisão nascia do cruzamento entre números e comportamento humano. As cartas diziam uma parte da história, mas os corpos entregavam outra. Um olhar que vacila, uma mão inquieta, uma respiração fora do ritmo. Jogar poker era decifrar sinais mínimos, antecipar movimentos, compreender como cada pessoa reagia sob pressão.
Agora, ao relembrar sobre o poker não apenas como quem revisita um esporte, mas como quem revisita um estado de espírito. Sentar à mesa era, antes de tudo, um exercício psicológico profundo, um mergulho silencioso em mim mesma e nos outros. O barulho das fichas era mais do que som. Era ancoragem. Organizava o pensamento, desacelerava o caos interno, lembrava que ali o tempo obedecia a outra lógica.
O poker me ensinou a sustentar o olhar, a habitar o silêncio, a tolerar a incerteza. Era um campo constante de tensão interna. Controlar o impulso, acolher o erro, aceitar a perda sem permitir que ela definisse quem eu era. Cada mão exigia presença plena. Não havia espaço para dispersão nem para máscaras frágeis. O jogo pedia leitura fina do outro, escuta do que não era dito, atenção aos detalhes mínimos que escapam quando havia vacilos.
Enfrentar o machismo também foi uma batalha psíquica. Não era apenas vencer mãos, era suportar o peso de ser subestimada, testada, provocada. Muitos apostavam contra mim antes mesmo de eu tocar nas cartas. Permanecer ali exigiu construir uma fortaleza interna. Não reagir ao deboche, não internalizar o descrédito, não permitir que o ruído externo sabotasse a clareza mental. Vencer esse primeiro torneio misto foi, nesse sentido, um marco psicológico antes de ser esportivo. A confirmação de que minha mente permanecia firme onde tentaram me fragilizar...
Sinto falta do jogo porque sinto falta desse espelho psicológico. Sempre gostei de observar o comportamento humano sob pressão. O poker escancara defesas, revela traços, desnuda estratégias. No ao vivo, o corpo fala, o olhar trai, a respiração entrega. O online nunca me ofereceu isso. Faltava o confronto real, a presença, o jogo invisível que acontece quando se está frente a frente.
Minha trajetória foi curta, tal um cometa. Intensa, veloz. Durou cerca de um ano e meio. Tempo suficiente para me atravessar inteira. Meu último campeonato foi em 2015. Despedi-me com um “até logo” silencioso e mais um troféu nas mãos, como quem fecha um ciclo sabendo que ele não se esgota ali.
Já são dez anos desde o último troféu. Dez anos desde que deixei as mesas de poker. Ainda assim, a memória corporal permanece. Quero retornar em breve, não para competir com o passado, mas para reencontrar esse lugar interno onde eu me sentia viva. Jogar poker era um modo de existir com intensidade e consciência. Um espaço onde eu me regulava, me observava e me afirmava. Talvez voltar seja apenas isso. Escutar novamente essa parte de mim que sabia respirar fundo, calcular riscos, encarar, ir fundo e seguir. Viva. Sem medo.
Não procuro respostas no metafísico porque não acredito nele. Sou ateia e faço questão de dizer: não apenas em relação ao cristianismo, mas a toda e qualquer forma de espiritualidade, energia invisível, plano superior ou força transcendental que se pretenda explicação do mundo ou da experiência humana.
Já ouvi diversas vezes que sou existencialista, mas rótulos sempre me pareceram insuficientes para dar conta de um pensamento em movimento. Reconheço, sem resistência, a proximidade com o existencialismo ateu, principalmente o sartreano, sobretudo na recusa de essências dadas e na afirmação de que nos constituímos na experiência. Concordo que não somos, estamos sendo: em processo, em conflito, em construção permanente. Esse entendimento, no entanto, não se esgota na interioridade do sujeito nem na ideia abstrata de liberdade individual, pois o movimento do vir-a-ser humano acontece sempre em um mundo já organizado, atravessado por relações de poder, por condições materiais e por determinações históricas que não escolhemos, mas com as quais precisamos lidar.
É nesse percurso concreto que o marxismo se torna um interlocutor indispensável. Não penso o sujeito isolado de suas determinações, nem a liberdade apartada das estruturas que a limitam ou a possibilitam. Talvez por isso me seja difícil habitar uma única caixa teórica: penso no entre, no tensionamento e no percurso, no qual o humano não se define por uma essência nem por um destino, mas pelo modo como age, resiste e se transforma no mundo enquanto está vivo.
É também por essa razão que recuso o metafísico. Não busco explicações fora da realidade concreta nem sentidos deslocados para planos invisíveis. Escolho o chão da história, das relações humanas e das condições materiais, porque é ali que os conflitos se produzem, as responsabilidades se colocam e qualquer possibilidade real de transformação se torna efetivamente possível.
Algumas pessoas me perguntam por que escrevo.
Foi então que uma professora (dessas que mudam destinos sem jamais saber) me sugeriu escrever. Um diário, ela disse. Para registrar as coisas boas e ruins do dia. E, se conseguisse, que eu também narrasse acontecimentos. Não era uma tarefa escolar comum. Era um convite silencioso para existir de outro jeito. Eu aceitei sem saber que ali começava algo maior do que eu.
A linguagem é esse lugar intermediário entre o que fere e o que pode ser partilhado. É nela que a experiência deixa de ser apenas ferida e passa a ser sentido. Ao virar palavra, a dor ganha bordas e tudo que tem borda pode ser atravessado. É por isso que a linguagem vira ponte.
Porque a linguagem não fica. Ela se lança. Palavra nenhuma nasce para permanecer intacta em quem escreve. Toda linguagem verdadeira carrega em si um desejo de alcance. A ponte é essa vocação da palavra para o outro. Ela se estende sobre o vazio que separa as experiências humanas, sobre o silêncio que existe entre um corpo e outro, entre uma história e outra.
A linguagem é ponte porque conecta sem igualar.
Ela não exige que o outro tenha vivido o mesmo, apenas que reconheça algo.
Ela permite que a minha dor atravesse sem invadir, e que o outro atravesse sem se perder.
A beleza está nesse movimento contínuo:
a dor se transforma em linguagem para não me aprisionar,
e a linguagem se transforma em ponte para não me fechar em mim.
Enquanto a dor é só dor, há ruptura.
Quando vira linguagem, há elaboração.
Quando vira ponte, há encontro.
E escrever acontece exatamente nesse lugar:
onde a palavra não é fim, mas passagem.
Onde aquilo que nasceu como ferida se torna caminho.
Eu escrevo porque foi assim que aprendi a existir.
Luany de Macedo Nascimento
Encanta-me o gesto simples do viver,
o dia abrindo em mansa claridade;
há luz no modo quieto de perceber
o mundo em sua frágil verdade.
O arco-íris rasga o céu ferido,
costura a dor em sete tons de calma;
a lua vela o tempo adormecido
e ensina a inteireza que há na alma.
Gosto de olhar o céu sem direção,
seguir as nuvens, livres, mutáveis,
ver nelas rostos, mapas, invenção,
desenhos breves, mundos improváveis.
No outono, o chão aceita o seu cair,
folhas e flores cedem ao caminho;
andar sobre elas é também consentir
que há beleza em perder-se devagarinho.
No inverno, a chuva escreve contenção,
bate nos vidros como quem acalma;
fico a vê-la em contemplação,
como quem lava, em silêncio, a alma.
O café coado exala aconchego,
acorda a casa em quente mansidão;
há um rito antigo nesse apego
ao tempo lento da primeira mão.
E então, de súbito, a gargalhada de minha filha
que se espalha viva pela casa:
voz que desfaz qualquer estrada
de sombra, e o dia inteiro abraça.
Leio sem pressa, página por página,
como quem toca o tempo com cuidado;
o livro pede escuta, não façanha,
e eu lhe entrego o instante sossegado.
Quem ama assim o ínfimo e o discreto
faz da ternura um modo de existir;
há um brilho raro, silencioso e secreto
em quem aprende o mundo a sentir.
Por isso escolho a vida despojada,
o passo lento, o olhar essencial;
não me seduz a pressa acumulada,
prefiro o pouco, simples e vital.
Vivo a escutar o mundo em sua fonte,
beber do dia o que é verdadeiro;
reduzo o excesso, amplio o horizonte,
e faço do existir um ato inteiro.
Luany de Macedo Nascimento 10/01/2026
